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Chapter 3 No.3

Madrugada de segunda feira de entrudo, tapada dos Nobres, Alemtejo, á porta do José Grillo

Truz! truz! truz!

Os de casa acordaram, sobresaltados.

-Schiu! nem pio!-fez o José Grillo para a mulher.-Moita!

-Truz! truz! truz!

Do seu cubiculo, a Anna, filha do José Grillo, poz-se a chamar pelo pae.-Bem ouvia, que deixasse bater. Algum bruto que se queria divertir...

Mas logo outra vez na porta:

-Truz! truz!

-Arre que é bruto! vá bater ao inferno, quem é! gritou de dentro o José Grillo, zangado. E pois que se poz á cóca, de orelha fita, olhos cravados na telha-van do casebre, sentiu distinctamente os passos de alguem que fugia.

-Eu n?o te disse? aquillo foi bruto que se quiz divertir-explicou elle para a mulher.

Mas palavras n?o eram ditas, pareceu-lhe ouvir o vagir de um cachorrinho, mesmo rente á porta. Veio-lhe logo á ideia que lhe tinham vindo p?r z?rro...

-ó mulher, queres tu ver que ha novidade?

De um pulo saltou da cama, embrulhou-se na manta e abriu a porta do casebre.

-Elle que demonio de embrulho...?

Pegou-lhe com muito geito. Era effectivamente uma crean?a, envolta em dois trapinhos muito velhos.

-Coitadinho! fez o ganh?o achegando ao peito a creancinha.

-Grandes cadellas!-E poz-se logo a fazer uma algazarra, alarmando a gente da casa.

-Andem! a pé! levantem-se! está aqui este innocentinho que vem dar os bons dias á gente!

Correu a filha, veiu a mulher. Mas ao tempo, já o bom do José Grillo mettera a crean?a na cama, visto que a pobresinha estava gelada...

-Elle quem diabo ha por ahi que tenha leite? A filha do Antonio das Varedas, é verdade, a Brites que lhe morreu o cachopo.

Despediu immediatamente a filha, a Anna, á procura da Brites que chegasse o peito ao innocentinho. E da porta, gritando para a rapariga que ia correndo:

-Que se n?o demore, ouves? que se lhe paga aquillo que f?r.

Mas a mulher do José Grillo, a senhora Joanna, de pé no meio da casa, a saia amarella deitada pela cabe?a, de bra?os cruzados, muito embezerrada, permanecia sem dizer palavra.

-ó mulher, nada de afflic??es, é tal e qual como se fosse nosso, faz de conta...-observou-lhe logo o José Grillo que percebia o ar taciturno da femea.

Ella só redarguiu que nosso era um modo de fallar. Seria d'elle, mais de qualquer desavergonhada...

O José Grillo, que estava a enfiar as cal?as, parou no servi?o e pregou-lhe uma gargalhada.

-Ageita-me o pequeno, ouves? Vê lá que talvez esteja molhado. E deixa-te de cantigas, que hoje é dia de entrudo.

A mulher ia reguingar; mas elle, pegando-lhe de um bra?o, levou-a ao pé da crean?a, affirmando-lhe ás risadas que sim, que o pequeno era filho d'elle.

-O pequeno?... mas é que pode ser cachopa-disse o José Grillo para a mulher.-E certificando-se:-Nada! é rapaz.

Seguiu-se uma alterca??o. A senhora Joanna, a chorar, ia jurando pela sua salva??o que ?o crian?o? era filho do seu homem.

-Ai Jesus que estou perdida! chamava ella muito comica, bra?os no ar, o balandrau da saia amarella enfiado pelo pesco?o n'um geito de sobrepeliz.-Má hora em que me eu casei! ai Jesus que vae ser de mim!

-Olha que é rapaz, ouves? anda cá ver que é rapaz-disse-lhe de lá o José Grillo, muito fleugmatico, debru?ado sobre a crean?a.

Mas como visse que a mulher continuava n'um estardalha?o, muito afflicta, desaustinada pelos cantos da casa, o José Grillo virou-se para ella e disse-lhe muito solemne:

-Pois assim me Deus salve como n?o é meu o rapaz.

Ao ouvir assim fallar o seu José, a senhora Joanna voltou-se logo para elle, olhos esbugalhados, muito suspensa.

-Juras pelas cinco chagas, ó homem?

-Juro pelas cinco chagas.

-Assim te Deus dê saude, ó José?

-Assim me Deus dê saude.

-Preto sejas tu como o teu chapeu?

-Preto seja eu como o meu chapeu.

A senhora Joanna botou-se logo a correr para um canto da casa, e abrindo a arca de pinho, do bragal, entrou aos beijos a uma Nossa Senhora da Concei??o, pegada na face interna da tampa, com boccadinhos d'hostia.

Depois desabafou, muito aliviada:

-Ai!

O José Grillo poz-se a rir.-?O demonio da Joanna, com ciumes!?

-Mas ciumes de quê, ó mulher? n?o farás favor de me dizer de que diabo tens tu ciumes?-perguntava muito casto o amigo José Grillo, serenissimo deante da mulher desconfiada.

A outra, muito delambida, redarguiu com ironia-?que o seu homem era um santinho...?-O José Grillo ia defender-se. Mas ella, atalhando logo, reguingou d'alto:

-Sabes tu que mais? estafermos é o que mais ha. Olha a cadella que engeitou este...

Aqui, fez uma suspens?o; depois perguntou, muito lampeira:

-Mas quem seria a grande cadella?

Poz-se ent?o a mirar muito o pequeno, a ver se lhe dava ares de alguem, murmurando phrases d'odio, moralistas:

-Precisava ser enforcada, a tua m?e; quem quer que é tem mesmo entranhas de lobo.

O pequenino entrou a vagir, muito friorento, embrulhado n'uma camisa do José Grillo.

-é fome, coitadinho! o infeliz inda n?o sabe que coisa é mamar-disse contristado o lavrador.

Foi-se logo á porta, a ver se a Brites chegava. Mas quem vinha com a Anna era a outra, a Dorotheia do Antonio das Veredas.

-Tua irm?, tua irm? é que se cá precisava. Que demonio vens tu cá fazer? Ouves? n?o me dirás que diabo vens tu cá fazer?-E deu um bofet?o na filha, ?para que soubesse dar o recado?.

A Dorotheia poz-se a explicar que a rapariga n?o tinha culpa. A irm? é que a mandara para levar a crean?a, porque ella, adoentada, fazia-lhe mal sair de casa assim cedo...

-Só se lhe queres tu dar de mamar-insistiu ainda o José Grillo, virado para a Dorotheia, irreverente pelos seus dezenove annos inda virgens.

A senhora Joanna fez-lhe de dentro que se calasse:

-Credo, homem! essas coisas n?o se dizem, nem por gra?a.

-Eu sei lá se n?o se dizem?-observou o lavrador, muito zangado.-Dá cá d'ahi o pequeno.

Veio a senhora Joanna com o embrulhinho, que entregou ao José Grillo. O lavrador depol-o nos bra?os da Dorotheia, com mil cuidados, e depois elle mesmo ajudou as mulheres a ageitar o pequenino, em termos que fosse bem quente.

-Roda forte, ouves? E diz lá a tua m?e que eu de tarde por lá appare?o, p'ra ver isto do ajuste.

A rapariga saiu. E como o lavrador désse fé que tinham alli ficado os farrapos, gritou para a rapariga:

-ó D'rotheia! espera que inda cá ficou isto.

Ent?o poz-lhe os farrapos ao hombro-uns peda?os miseraveis de velha chita-e a Dorotheia partiu onde á irm?.