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Capítulo 3 Cap2
Após 10 anos morando no estrangeiro, Roberto finalmente estava em solo brasileiro. Primeiro, numa breve escala no Rio de Janeiro, onde, ainda no avião, ele contemplava maravilhado a imagem do Cristo Redentor, o Corcovado. Depois, no seu destino final: Aeroporto Internacional de Goiânia, a capital onde, mais uma vez, esse brazuca sonhador tentaria encontrar seu verdadeiro amor, apostando suas últimas fichas em Amanda, garota que ele só conhecia pelo computador. “O amor é a sabedoria dos loucos e a loucura dos sábios”13, pensou ele ao se aproximar da senhora que segurava um cartaz onde constava o nome do rapaz: “ROBERTO, SEJA BEM-VINDO! AMANDA E FAMÍLIA”. Depois dessa, ele ganhou o dia! — Dona Lúcia!!! – saudou ele a mulher que devia ter seus cinquenta e tantos anos; alta, robusta, rosto arredondado sob óculos de aros grossos, cabelos castanhos estilo Chanel e visível verruga na testa. — Roberto, meu querido! Como está se sentindo? – perguntou a senhora, abraçando o rapaz com certa intimidade. — Um pouco desambientado, mas estou bem – respondeu ele. — Isso é natural. Vamos. Tem um carro nos esperando lá fora. Onde estão suas malas? — Não as trouxe... – respondeu o rapaz, um pouco desajeitado, já que o encontro com Amanda não fora planejado. — Não se acanhe, por favor. Quando eu era jovem, também já fiz minhas loucuras de amor. Agora mais descontraído, Roberto perguntou: — E Amanda, melhorou? — Melhor que veja com seus próprios olhos.— Espero que não seja nada grave. — Não precisa se preocupar. Ela foi diagnosticada com um simples transtorno, algo fácil de tratar. — Nossa! Será por quê? — Ah, meu querido... coisas inexplicáveis do ser, mas nada que um pouco de repouso não possa resolver. – disse Lúcia, enquanto cruzavam o saguão do aeroporto. — Ela tem dormido bem? — Praticamente o dia todo, sob efeito de medicamentos; dorme igual um bebê, mas, quando está acordada, vira a madrugada vendo TV. Roberto ficou visivelmente preocupado com aquela informação. Permaneceu em silêncio, ensaiando uma indagação. Chegando do lado de fora, estava prestes a fazer uma pergunta bem direta, quando percebeu uma verdadeira comitiva à sua espera. Encostados em um veículo Opala 1978, estavam um homem forte, alto e cabeçudo, trajando uniforme de metalúrgico, abraçado a uma moça, morena clara de cabelos pretos, esbelta em uma calça justa de cintura alta; um passo a frente, uma garota gordinha vestida com camisa do Goiás Esporte Clube, baixa estatura, espinhas no rosto e piercing no nariz exposto. Não obstante, ao vê-la sorrindo gentilmente, Roberto logo abandonou seus pensamentos de preocupação, enquanto Lúcia prontamente os apresentou com incontida satisfação: — Roberto! Estes são meu irmão Carlos, o Carlão, sua namorada Rafaela, e minha sobrinha, Dirce. — Oi, gente! – disse Roberto apertando a mão de Carlão e, depois, a de Rafaela; por último, abraçou Dirce com um pouco mais de liberdade. — Acredito que ocê e a Dirce já devem de ter se falado – comentou Lúcia, ao assumir o volante do antigo carro com Roberto ao lado. — Claro que sim! Dirce, a prima e confidente da Amanda...— ...E futura madrinha de casamento! – completou a moça, animadíssima. Já estavam em pleno trânsito caótico da cidade e o assunto voltou a ser Amanda. Dessa vez, Roberto finalmente fez a pergunta que tanto ensaiara: — A senhora falou que Amanda tem dormido sob o efeito de medicamentos... Confesso que fiquei preocupado. — Ora, pois, a coitadinha surtou feio... Felizmente, levamos ela a um bom psiquiatra – disse Lúcia. — Estou surpreso com esse relato – ponderou Roberto. – Afinal, fora o seu recente problema de insônia, Amanda sempre me pareceu uma pessoa saudável... — Pois é, menino, ela ficou assim de repente... pegou nóis de surpresa. — Ela tem plano de saúde? — Infelizmente não. Isso, no Brasil, é pra gente endinheirada. Recebemos ajuda de uma associação. — Que bom que existem pessoas boas neste mundo. — Oh, bota boas nisso. Até cadeira de rodas eles deram pra Amanda. Roberto engoliu em seco. Lúcia voltou-se para a sobrinha e perguntou: — Por falar nisso... ô, Dirce... cê deu banho na Amanda, hoje? — Deu tempo não, tia... Roberto quase pulou do banco. — Um momento, dona Lúcia! Eu não sabia que o estado da Amanda era tão grave! Pelo que a senhora me disse, ela sofreu um simples transtorno... — Exatamente... – começou Lúcia, explicando com voz tranquila e serena. – Transtorno que a acompanha desde o dia em que a pobrezinha nasceu... e piorou com esse namoro doceis pela internet – finalizou com um “goianês” bem acentuado.— Por que não me falou isso antes? – questionou Roberto, sério. — Sabe por quê, Roberto? – continuou Lúcia, dirigindo tranquilamente, agora em uma via expressa – Eu, como mãe e criatura do sexo feminino, sei que nada completa tanto uma mulher quanto o fervor de um amor correspondido, mesmo sendo a distância! Então, apesar de achar que o romance doceis não iria dar em nada, fiz vista grossa, deixei seguir. — Por quê? — Por não querer ver minha filha chorando pelos canto por um amor não correspondido. — Me desculpe, dona Lúcia! Mas quem ama de verdade não mente dessa maneira. — No amor e na guerra, vale tudo, meu rapaz. — Sobretudo quando há interesses – espetou Roberto. — Você está redondamente enganado. Minha filha não está interessada em dinheiro, posição social, carro ou qualquer uma dessas porcarias materiais; a ela isso de nada adiantará. Amanda está paralisada da cintura pra baixo desde que nasceu, não fala, e seus únicos momentos de felicidade são as horas em que passa diante do computador, teclando com pessoas que sequer conhece, as quais imaginam que ela seja o protótipo da garota perfeita; da mesma maneira que você a idealizou. Dessas garotas que só existem no mundo virtual, lindas por fora, incrivelmente interessantes por dentro, descontraídas, saudáveis, corpos perfeitos; donas de uma felicidade absoluta capaz de causar inveja às mais perfeitas criaturas dos contos de fadas... Garotas que parecem nunca ter sofrido nem vivido qualquer tipo de problema e que estampam em suas páginas sociais frases, selfies, caretas, caras e bocas em lugares interessantes. Uma vida colorida, donde o preto e branco e as chagas inevitáveis da vida só aparecem quando elas desligam o celular ou computador. — Fui enganado... fui enganado... – Roberto repetia para si mesmo, olhando para a densa vegetação que ladeava a viaexpressa, enquanto Lúcia seguia dirigindo tranquilamente sem perder o foco da conversa. — Cê não foi enganado, Roberto. Amanda é uma menina inteligentíssima! Por infortúnio, vive naquela cadeira de rodas. Não é a bela esportista por quem você se apaixonou; não é a universitária que morava no Setor Bueno e agora faz estágio naquela empresa de biomedicina. Na verdade, ela tem de estar todos os dias, desde cedo, acompanhada da minha sobrinha, pedindo esmolas no farol. E sua maior conquista na vida, desde que nasceu, foi ter conseguido pronunciar três palavras: mãe, comida e água. Mas isso são meros detalhes! – concluiu, dando um sorrisinho sarcástico. — Detalhes uma ova! Isso foi um jogo de mentiras. Uma tremenda sacanagem me fazer vir dos Estados Unidos pra cá para descobrir que fui enganado. – Lúcia deu uma gargalhada, e Roberto continuou ainda mais furioso: – Como fui idiota! Teclava com Amanda e falava ao telefone com outra pessoa! Lúcia continuava gargalhando ainda mais, agora com os ocupantes do banco de trás fazendo-lhe coro. Sentindo-se como um palhaço de circo que acabara de levar uma torta na cara, Roberto perguntou: — Mas, vem cá, como a Amanda ficava sabendo do nosso assunto ao telefone para continuar teclando depois? — Colocávamos no viva-voz. Amanda ouvia tudo e ficava encantada com suas histórias. Você é uma pessoa interessante, Roberto! Já pensou em ser escritor? — Olha aqui, dona Lúcia, não achei graça nenhuma nessa história. Então, antes de me deixar na próxima parada, responda somente uma coisa: quem falava comigo ao telefone? — Você quer saber mesmo?... Ela está bem atrás de você. — Dirce?! — Isso mesmo – confirmou Dirce, apontando uma arma na direção de Roberto. – Bem-vindo de volta ao Brasil! Agora abaixa a cabeça, seu otário, que a gente vai dar um passeio.
Isso é tudo que está disponível no momento.
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