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Capítulo 2 O Rastro de um Fantasma
Capítulo 2 - O Rastro de um Fantasma
Ethan Vance
O peso habitual nos meus ombros não estava lá quando comecei a despertar. Pela primeira vez em meses, talvez anos, o sono não tinha sido interrompido por relatórios corporativos, projeções de risco de fusões internacionais ou pela voz sufocante dos conselheiros da Vance Enterprises cobrando resultados trimestrais. Meu corpo estava relaxado de uma forma quase entorpecente, mergulhado na penumbra do quarto com isolamento acústico impecável. Virei o corpo de lado instintivamente, procurando o calor suave que havia preenchido os meus braços durante toda a madrugada. Minha mão deslizou pelos lençóis. Nada. Apenas tecido esticado, liso e frio. Abri os olhos em um golpe. A luz cinzenta da manhã de Nova York cortava timidamente os cantos da cortina blackout entreaberta. O lado direito da cama king-size estava deserto. O travesseiro trazia apenas o afundamento leve onde uma cabeça havia repousado horas antes. Sentei na beirada do colchão, passando as duas mãos pelo rosto e respirando fundo. Minha mente, ainda ligeiramente lenta pelo Bourbon consumido na véspera, tentou puxar o fio das últimas doze horas. Não havia sido uma ilusão. O cheiro dela continuava pairando pelo ar da suíte: uma combinação delicada de baunilha fresca, flores de laranjeira e a assinatura inconfundível de pele feminina quente e entregue. - Droga - praguejei baixo, a voz áspera pelo sono. Me levantei nu, sem me importar com o piso gelado sob as solas dos pés, e caminhei até o banheiro. A porta estava aberta. O vapor do chuveiro já havia se dissipado por completo, restando apenas algumas gotas secando na parede de vidro fosco. As toalhas haviam sido usadas e dobradas de maneira ordenada sobre a bancada de mármore. Ela não estava ali. Voltei para o quarto principal e examinei o espaço. O vestido preto que eu havia arrancado com urgência na noite anterior sumiu do carpete. A bolsa pequena que ela segurava no balcão do bar, também. Sobre a cômoda escura, ao lado da chave-cartão e da minha carteira intacta, não havia um pedaço de papel, um guardanapo com número anotado ou uma única pista de quem ela era. Absolutamente nada. Caminhei até a imensa parede de vidro e olhei para baixo. O trânsito de Manhattan começava a se mover como veias pulsantes de concreto e metal amarelo. A cidade estava acordando. Milhões de almas transitando pelas calçadas, pegando o metrô, correndo para os seus compromissos diários. E, no meio daquela massa anônima, a mulher que havia feito o meu mundo parar durante algumas horas simplesmente se camuflou e desapareceu. Passei a mão pelos cabelos bagunçados, sentindo uma irritação aguda subir pela garganta. Eu era Ethan Vance. Eu comandava um conglomerado avaliado em bilhões de dólares. Homens de negócios experientes baixavam os olhos quando eu entrava em uma sala de reuniões. Eu não era o tipo de homem que era deixado para trás na cama de um hotel como um encontro casual descartável. Mas havia sido exatamente isso o que aconteceu. "Sem nomes. Sem profissões. Sem perguntas incômodas sobre quem vai pagar a conta amanhã." Minhas próprias palavras no balcão do The Velvet Room voltaram como um eco irônico na minha mente. Eu tinha sido taxativo. E ela, havia deixado claro que buscava apenas uma válvula de escape contra um inferno pessoal que parecia consumi-la viva. Eu lembrava do brilho machucado nos olhos castanhos dela quando mencionou a família. Aquele olhar que misturava orgulho ferido com uma vulnerabilidade tão crua que me desarmou no primeiro segundo de conversa. Eu a desejei pelo visual marcante, pelas curvas elegantes que aquele vestido preto simples abraçava, mas foi a tempestade interna dela que me prendeu no lugar. E a entrega dela na cama... Fechei os punhos com força, sentindo o pulso acelerar ao lembrar da sensação de tê-la em meus braços. Não tinha sido sexo mecânico, nem um acordo frio de conveniência. Havia uma fome desesperada em cada beijo, uma necessidade urgente de sentir algo verdadeiro que me puxou para dentro do mesmo turbilhão. Quando ela se aconchegou no meu peito de madrugada, respirando baixinho contra a minha clavícula, uma sensação estranha de paz e posse se instalou dentro de mim. Uma sensação que eu não sentia há tanto tempo que mal conseguia nomear. E agora, o vazio do quarto zombava daquela ilusão. O som insistente do meu telefone tocando sobre a mesa de cabeceira cortou o silêncio pesado da suíte. Resmunguei um palavrão e caminhei até lá para atender. Na tela, o nome do meu assistente executivo brilhava. Deslizei o dedo pela tela. - Fale, Mark. - Bom dia, senhor Vance. Desculpe ligar tão cedo, mas o senhor tem uma reunião de diretoria em duas horas com os acionistas europeus. O carro já está a caminho do hotel para buscá-lo. - Certo. Estarei pronto em trinta minutos. - Mais uma coisa, senhor. O seu avô ligou para o meu gabinete há dez minutos. Ele quer saber se o senhor almoça com ele hoje na residência. Disse textualmente: "Diga ao meu neto cabeça-dura que se ele não aparecer, vou deserdá-lo e doar tudo para um asilo de gatos". Um meio sorriso involuntário surgiu no canto dos meus lábios, aliviando minimamente o nó nos meus maxilares. Arthur Vance era a única pessoa na face da Terra que falava comigo naquele tom e saía impune. - Diga ao meu avô que almoço com ele às uma da tarde. Mais alguma coisa? - Apenas a senhorita Bennett. Ela ligou perguntando se o senhor compareceria ao baile de caridade no sábado. A menção a Serena fez o resto da leveza desaparecer instantaneamente. - Diga a Serena que estou ocupado e não pretendo ir a evento algum com ela. Já deixei clara a nossa situação meses atrás, Mark. Corte qualquer abertura. - Entendido, senhor. Até breve. Encerrei a chamada e joguei o aparelho sobre o colchão. Caminhei até o banheiro, liguei a água fria na ducha e deixei que o impacto gelado acordasse cada músculo do meu corpo, tentando lavar o rastro que aquela desconhecida havia deixado na minha pele. Era ridículo. Eu era um homem adulto, pragmático e focado em resultados. Uma noite não definia nada. Pessoas se encontravam, aliviavam a pressão do cotidiano e seguiam caminhos opostos todas as noites naquela cidade imensa. Era o padrão da vida moderna. Por que, então, a ausência dela deixava um gosto metálico de derrota no fundo da minha boca? Terminei o banho, me vesti com um terno cinza-chumbo impecável, ajustei a gravata de seda diante do espelho e coloquei o relógio de pulso. Ao lado da cama, me abaixei para conferir se algo havia caído durante a noite. Perto do pé da mesa de cabeceira, quase escondido sob a saia da cama, vi um reflexo metálico. Estendi os dedos e puxei o objeto. Era um brinco pequeno. Uma peça delicada em prata envelhecida com uma pedra verde esmeralda cravada no centro, de desenho singular, quase artesanal. Claramente não era uma jóia industrializada dessas que qualquer herdeira rica comprava na Quinta Avenida. Tinha história. Tinha personalidade. Fechei a mão ao redor do brinco. O metal frio esquentou rapidamente contra a palma da minha mão. Guardei a peça no bolso interno do paletó, bem sobre o lado esquerdo do peito, e peguei minhas coisas. Ao sair da suíte e caminhar pelo corredor silencioso em direção ao elevador privativo, uma certeza incômoda fincou raízes na minha mente. Aquela noite poderia ter acabado, mas aquela mulher ainda rondava os meus pensamentos como um enigma não resolvido. E eu... eu odiava deixar qualquer coisa inacabada.
Lista de capítulos
32 capítulos no total
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