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Capítulo 3 Eu não podia mais ficar aqui
Noite após noite, o peso da incerteza me consumia, e toda vez que eu me enfiava debaixo das cobertas, sentia um nó no estômago. Eu olhava para o luar que entrava pela janela, como se ele pudesse me mostrar o que estava por vir ou dar algum sentido à mudança que se aproximava.
Depois daquele passeio ridículo ao shopping com Jessa, que passou o tempo todo zombando das minhas escolhas enquanto fingia ajudar, parei de sair, a não ser que fosse realmente necessário. Minha rotina se resumia a ir para a escola e depois para o trabalho. Eu ficava presa a uma rotina rígida, como se isso pudesse manter todo o resto afastado.
Abri mão do pouco tempo livre que tinha e peguei turnos extras no Beaniverse, tentando pagar a dívida absurda daquele vestido de trezentos dólares. Trezentos dólares só para não parecer desleixada, como Jessa gostava de dizer.
Até Lisa começou a se afastar de mim. Nossas conversas ficaram curtas e distantes, se limitando a mensagens rápidas sobre a escola ou o trabalho.
Em casa, o silêncio entre nós era pesado e constante. Mesmo assim, por trás de tudo isso, uma pequena esperança se recusava a se apagar. Talvez eu conseguisse passar pela gala sem me humilhar. Em apenas uma semana, tudo seria decidido: ou eu encontraria uma saída desse papel em que estava presa, ou seria marcada por ele para sempre.
Aquele dia foi como os anteriores: silencioso, estranho, como se algo estivesse à espera. Com as sacolas de compras empilhadas no banco do passageiro, dirigi para casa, quase sem conseguir respirar.
Phoenix viria jantar nessa noite, então me certifiquei de que tudo estivesse perfeito. Assei o frango e o cobri com um molho cremoso de alho e parmesão. Enrolei couves de Bruxelas no bacon e as reguei com xarope de bordo, finalizando com um toque de vinagre balsâmico, uma receita que encontrei na internet, simples, mas elaborada para parecer impressionante.
Como herdeiro escolhido dos Blackwood, Phoenix sempre foi tratado como se fosse mais importante do que todos nós. Minha mãe o adorava, e meu pai ia ainda mais além. Quando Phoenix foi nomeado herdeiro após o último filho do Alfa Renard morrer em um confronto com lobos selvagens, meu pai não conseguiu esconder seu orgulho. Por um mês inteiro, ele andara por aí como se fosse o dono do mundo.
Um dia, esse lobisomem se tornaria o Alfa Phoenix Blackwood. Por enquanto, porém, ele ainda era apenas um Grey.
As sacolas pesavam nos meus braços, os fazendo tremer enquanto eu avançava com dificuldade. Eu me movia desajeitadamente, como se já estivesse meio quebrada, me aproximando da casa silenciosa.
Talvez as duas semanas de calmaria tivessem me deixado descuidada. Não percebi nada de errado, nem senti o perigo à espreita quando destranquei a porta e entrei.
De repente, uma brisa passou pela minha nuca. A porta se fechou atrás de mim com uma força violenta, e um cheiro invadiu o ar. Eu o reconheci instantaneamente.
Todd Mason.
A sombra que me seguia desde a infância, aquele que nunca parava de infernizar minha vida.
Ele já estava lá dentro, comigo.
E ele não veio para brincar — estava parado na minha frente, com um sorriso torto nos lábios.
Eu não conseguia me mover, nem recuar, enquanto sua mão ia para trás e trancava a porta.
"Então a sonhadora acha que finalmente será exibida para um companheiro?", ele perguntou, sua voz carregando o mesmo tom de zombaria.
Aproximando-se, ele me empurrou com força.
Minhas costas bateram contra a parede, e sua mão agarrou meu pescoço, me forçando a ficar na ponta dos pés.
As sacolas escorregaram das minhas mãos e caíram no chão. Meus pensamentos se dispersaram e, de alguma forma, me fixei nas maçãs rolando pelo chão de madeira. Elas iriam ficar machucadas, e teríamos que comê-las logo...
"Você acha mesmo que pertence à gala? Acha que pode simplesmente deixar esta matilha?"
Seu hálito atingiu meu rosto, quente e azedo, fazendo meu estômago se revirar. Virei a cabeça para o lado, na tentativa de evitá-lo.
Sua mão atingiu minha bochecha, virando meu rosto de volta para ele. Suas palavras foram incisivas: "Quem iria querer você? Uma aberração sem loba. Você seria descartada num piscar de olhos."
Meu coração batia forte contra minhas costelas, frenético e preso. Seu aperto se intensificou, e o ar começou a me faltar.
"Defeituosa", ele sussurrou no meu ouvido, seu hálito roçando na minha pele.
Nesse momento, a náusea me invadiu enquanto meu peito queimava e eu lutava para respirar. Eu já havia suportado os golpes, os insultos e as pedras jogadas em mim, conhecendo bem essa dor.
Mas isso era diferente, e pior.
Dominada pela raiva, cravei minhas unhas no seu antebraço, as arrastando com força suficiente para deixar marcas ardentes. Tentei chutá-lo, mas ele bloqueou e forçou minhas pernas contra a parede.
"Me solte. Se eu aparecer cheia de hematomas, o pai não vai gostar. Você quer mesmo lidar com isso?", perguntei, minha voz trêmula enquanto eu tentava ignorar a prova dura e pressionante da sua excitação.
Geralmente, meu pai não se importava com o que acontecia comigo, mas com a gala se aproximando, qualquer coisa visível seria um problema.
Todd parou por um momento, seu aperto ainda forte em volta do meu pescoço e seus dedos pressionando cada vez mais minha pele.
Houve um tempo em que eu me recusava a me curvar. Eu acreditava que as coisas iriam mudar, que eu reagiria e venceria, mas não era assim que o mundo funcionava.
Se ele queria submissão, eu lhe daria uma mentira convincente — o que fosse preciso para sobreviver, o que fosse preciso para mantê-lo sob controle.
"Por favor", sussurrei, deixando minha voz trêmula de propósito. Inclinei a cabeça, expondo meu pescoço.
Ele reagiu exatamente como eu esperava. Um som baixo e satisfeito escapou dele, o que fez meu estômago se revirar. Ele se inclinou e inalou, depois passou a língua lentamente sobre a cicatriz no meu pescoço.
Forcei a náusea para baixo antes que pudesse subir.
"Por favor", eu disse novamente, e dessa vez seu aperto se afrouxou ligeiramente, sua outra mão deslizou até minha cintura e me puxou para mais perto. Fechei os olhos, respirando pela boca para superar o gosto metálico que estava na minha língua. "Preciso terminar o jantar. Phoenix está voltando esta noite."
Seus dentes cravaram no meu ombro, a dor me invadindo, intensa o suficiente para tirar o ar dos meus pulmões. Um grito escapou enquanto eu o empurrava, me contorcendo para me libertar. "Todd! Droga!"
Ele rosnou, mas por fim me soltou, embora não sem deixar uma marca na minha pele. Sua mão agarrou meu queixo, me forçando a encarar seus olhos que ardiam com uma satisfação perversa.
Eu já estava me preparando para outro golpe, mas, ao invés disso, ele sorriu.
Nesse momento, algo passou entre nós. Ele entendeu, e eu também.
"Você não vai a lugar nenhum", ele murmurou, sua voz carregada de veneno. "Você não passa de uma rejeitada, e é aqui que você pertence. Ninguém virá te salvar naquela gala chique. Mais cedo ou mais tarde, você acabará sendo nossa criadora de Ômegas, com loba ou não."
Suas palavras me atingiram com força, me deixando sem ar. "Criadora de Ômegas?"
"Nossa cadelinha da matilha, Ava." Ele não se deu ao trabalho de esconder o que queria dizer. Seu aperto no meu queixo se intensificou enquanto uma risada cruel e estridente escapava dele.
Sua mão desceu, passando pelo meu peito antes de deslizar entre minhas coxas, pressionando onde ele queria. "Pelo menos você serve para alguma coisa. Ainda podemos te usar."
Sua voz tornou o ar tóxico e tudo dentro de mim ficou dormente.
Suas mãos seguraram meus quadris e ele se pressionou contra mim, seus movimentos rudes e possessivos. A saliva escorria pelo meu queixo enquanto ele soltava gemidos abafados. Ele se movia mais rápido, forçando minhas pernas ao seu redor. "Você é uma falha tão bonita, Ava. Fácil de quebrar, fácil de moldar. Vou te ensinar até que você entenda."
Sim, eu entendi.
Meu corpo não me pertencia mais.
Sua respiração atingia meu ouvido enquanto ele continuava falando, mas eu o ignorei, me refugiando em algum lugar profundo da minha mente. Tentei permanecer lá, longe dele, até que um golpe forte no meu estômago me arrastou de volta à dor. Meus joelhos bateram no chão quando ele me empurrou para baixo, seus movimentos se tornando frenéticos e repugnantes.
"Implore", ele ordenou, forçando minha mão abraçá-lo.
De repente, o som distante de um motor interrompeu o momento. Todd ficou imóvel, ouvindo atentamente, então, tudo se acelerou. Ele enfiou seu membro na minha boca, seus movimentos rudes e sufocantes. Lutei para respirar, meus lábios se abrindo sob a força e o gosto vindo rapidamente, amargo e sufocante. Ele rosnou baixinho, me pedindo para engolir, depois se ajeitou rapidamente quando a porta se abriu.
Phoenix entrou, seus olhos castanhos se fixando em nós e então se desviando para as sacolas espalhadas pelo chão. Um leve sorriso tocou seus lábios e ele disse: "Mason."
Ele sabia.
Eu vi isso na maneira como seu nariz se alargou, como ele observou tudo sem perder um detalhe.
No entanto, ele permanecia onde estava, sem fazer nada.
Todd se endireitou e gesticulou casualmente, um sorriso satisfeito ainda persistindo enquanto ele inclinava a cabeça ligeiramente. "Herdeiro Alfa, Ava estava me dizendo que você voltaria para jantar. Passei para ver como ela estava."
Corri para o banheiro, sua risada ecoando atrás de mim.
As lágrimas que embaçavam minha visão não eram de medo ou choque, mas vinham de algo mais profundo.
Elas caíam por aquele que havia visto tudo, aquele que entendeu, mas preferiu ficar parado e não fazer nada.
Droga!
Eu não podia mais ficar aqui.
Não importava o que isso me custasse, eu tinha que ir embora.
Isso é tudo que está disponível no momento.
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