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Capítulo 3 A dura realidade
Meses depois, depois de outra noite de farra, ainda era de madrugada quando o Tony Treviño abriu os olhos. A cabeça dele latejava como se um rodeio inteiro estivesse acontecendo ali dentro, e a boca estava mais seca que o deserto de Chihuahua.
- Ai, minha Nossa Senhora... - resmungou, cobrindo os olhos com o braço. - Se isso é ressaca, prefiro continuar bêbado.
Ele se sentou devagar, e cada movimento mandava uma onda de dor pelo corpo todo. Foi aí que as lembranças da noite anterior começaram a vir à mente: de novo o bar, outra garota... Suspirou ao lembrar dela; era bonita demais.
- Corre, Tony! - disse para si mesmo, balançando a cabeça. - Se a sua mãe souber das suas aprontadas, vai puxar a sua orelha como sempre.
Fazendo um esforço enorme, o Tony se levantou da cama e foi se arrastando até o banheiro. Olhou para o espelho e soltou um assobio baixo.
- É, você tá um caco mesmo, Toño - resmungou para o seu reflexo. - Parece cacto pisoteado por uma boiada louca.
Depois de um banho rápido e uma roupa limpa, o Tony se sentiu humano o suficiente para encarar o dia. A vida no rancho era assim: madrugar todo santo dia. Ele desceu para a cozinha, onde o cheiro de café passadinho na hora o deu as boas-vindas.
- Bom dia, meu filho - saudou a mãe dele, Guadalupe, do fogão onde fritava uns ovos. - Você tá com uma cara de quem foi arrastado por um cavalo selvagem.
- Bom dia, mãe - respondeu o Tony, se sentando à mesa e pegando uma xícara de café. - Você nem imagina a noite que eu tive.
A Guadalupe olhou para ele com uma mistura de carinho e irritação.
- Ai, meu filho, aprontando de novo? Já te disse que um dia desses você vai se meter numa encrenca de onde nem São Judas vai conseguir te tirar.
O Tony deu uma risada que imediatamente virou uma careta de dor.
- Relaxa, mãezinha - disse, dando um gole no café. - O seu Toño sabe se cuidar sozinho.
A Guadalupe balançou a cabeça, mas um sorriso apareceu nos lábios dela.
- Espero mesmo, porque um dia desses...
As palavras dela foram interrumpidas por uma batida na porta. O Tony e a Guadalupe trocaram um olhar confuso; era cedo demais para alguém ir visitar.
- A gente tá esperando visita? - perguntou o Tony.
- A uma hora dessas? Claro que não - respondeu a Guadalupe. - Vai ver quem é, meu filho.
O Tony se levantou, xingando por dentro quem quer que fosse que o estava fazendo se mexer mais do que devia naquele estado. Ele foi arrastando os pés até a porta, preparando a melhor cara de "não tô de ressaca, só cansado".
- Já vai, já vai - resmungou ao ouvir outra batida na porta. - Que pressa, nem parece que é o fim do mundo.
Abriu a porta de uma vez, pronto para encarar o intruso, mas deu de cara com... o nada. Confuso, coçou a cabeça, olhou para baixo e sentiu o coração parar.
Ali, na soleira da porta, tinha um cestinho, e dentro dele, enroladinho num cobertor azul, dormia tranquilamente um bebê.
- Caramba! - exclamou o Tony, dando um passo para trás. - Essa sim eu não esperava.
Ele se abaixou para olhar melhor o cesto. O bebê não devia ter mais do que poucas semanas. Junto com o pequenino tinha um envelope. Com as mãos trêmulas, o Tony abriu e começou a ler:
"Querido Tony, Sei que isso vai cair como um balde de água fria, mas não tenho outra opção. O bebê que está na sua frente é seu filho. Sim, o resultado daquela noite louca no Rusty Spur. Não posso cuidar dele e sei que com você ele vai estar melhor. Por favor, cuida dele como sei que você é capaz. Com carinho, Sarah"
O Tony sentiu o mundo girar ao seu redor. Um filho? Ele? O eterno solteiro e galinha do condado?
- Mãe! - gritou, e a voz saiu mais fina do que ele gostaria. - Acho que a gente vai precisar de mais café!
A Guadalupe apareceu na porta, enxugando as mãos num pano de prato.
- O que foi, meu filho? Parece que viu um fantasma.
O Tony se desviou, mostrando o cesto com o bebê. A Guadalupe deu um grito.
- Nossa Senhora! - exclamou, levando a mão ao peito. - O que é isso, Antonio?
O Tony engoliu em seco, segurando a carta como se fosse uma bomba prestes a explodir.
- É... parece que te fiz virar vovó, mãe - disse com uma risada nervosa. - Surpresa!
A Guadalupe olhou do bebê para o Tony e do Tony para o bebê. Depois, sem dizer uma palavra, se aproximou do cesto e pegou o pequenino nos braços com uma ternura que contrastava com o olhar fulminante que lançou para o filho.
- Antonio Treviño - disse com uma calma que anunciava tempestade -, é bom você ter uma ótima explicação para isso.
O Tony passou a mão pelo cabelo, com a cabeça trabalhando a mil por hora.
- Olha, mãe... Você se lembra daquela vez que te disse que ia a um rodeio em San Antonio?
A Guadalupe semicerrou os olhos.
- Aquele de uns meses atrás? Sei, me lembro.
- Pois é... - O Tony coçou a nuca, desviando o olhar da mãe. - Acontece que o rodeio foi mais para o Rusty Spur, e em vez de montar em touro... bom...
- Antonio! - interrompeu a Guadalupe, com a voz num misto de choque e desaprovação.
- Desculpa, mãe! - se desculpou rapidamente. - É que, bom... uma coisa levou à outra, e...
A Guadalupe levantou a mão para calá-lo.
- Me poupe dos detalhes, meu filho, já até imagino.
Olhou para o bebê nos braços dela, que começava a acordar. Os olhos dele, grandes e curiosos, se abriram, revelando um tom castanho idêntico ao do Tony.
- Ai, Toño... - suspirou a Guadalupe, e a raiva deu lugar a uma resignação carinhosa. - Sempre soube que um dia desses as suas aprontadas iam te pegar, mas isso aqui...
O Tony se aproximou, olhando para o bebê com medo e fascínio.
- E agora, o que a gente faz, mãe? - perguntou, baixando a voz para um sussurro. - Eu não entendo nada de criar criança.
A Guadalupe olhou para ele, e um sorriso foi se formando devagar nos lábios dela.
- Pois vai aprender, meu filho, porque esse garotinho é sua responsabilidade agora.
O Tony engoliu em seco, sentindo o peso do mundo caindo sobre os ombros.
- Mas mãe, como é que eu vou...?
- Sem "mas" - interrompeu a Guadalupe. - Já se meteu nessa encrenca, agora vai ter que ser homem e assumir.
Isso é tudo que está disponível no momento.
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