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Capítulo 2 01
Raiva
Steve Aeryn
Eu não estava nem um pouco a fim de voltar ao lugar onde perdi a pessoa mais importante da minha vida, mas não tive escolha. Afinal, a empresa é o meu legado, e tenho que cuidar dela. Na verdade, só vim porque o Otto me chantageou. Tive que sair da minha casa - e do meu tédio infinito - para estar aqui.
No maldito hall de entrada, eu já estava cansado de ser cumprimentado por aquelas pessoas, todas com o mesmo olhar de pena por eu estar em uma cadeira de rodas. O burburinho cessou. A música lenta ecoava ao fundo, e todos os olhares se voltaram para a porta. Segui os olhos da multidão, devagar, até vê-la.
Ela era, sem dúvidas, a mulher mais bonita daquela festa. Usava um vestido rosa-bebê, rodado, que ia até os joelhos. Estava linda. E eu a reconheci. Claro que reconheci. Como não reconheceria? Ela cresceu... A última vez que a vi, era uma garotinha. A família do meu querido amigo tem bons genes. Muito bons, aliás.
Logo, Jony apareceu ao lado dela. Percebi também que Ravena e Eddy estavam presentes. O grupo veio em nossa direção, onde eu e Otto estávamos. Ainda hipnotizado por tanta beleza, demorei a notar que os outros já haviam voltado às suas conversas. Eu, porém, continuava atônito. Poderia até dizer que estava enfeitiçado por ela.
Mas isso seria loucura... E uma tremenda falta de respeito com a minha Lauren.
- Otto! - Jony cumprimentou com um abraço apertado. - Steve... - Riu e bagunçou meu cabelo.
- Será que pode parar com essa mania pelo menos em um evento formal?
- Claro que não! Ainda sou o amigo mais velho. - Rose soltou uma risada sincera e doce.
Minha atenção voltou-se totalmente para ela. Recebi os cumprimentos de Ravena e Eddy, mas meus olhos não saíam do rosto lindo e sereno de Rose.
- É um prazer revê-lo, Steve - ela disse, sorrindo. - A última vez que nos vimos, eu devia ter uns quinze anos.
Dessa vez, fui eu quem riu, ao lembrar de quando ela derrubou sorvete no vestido e ficou furiosa comigo por não ajudá-la.
- Não me lembre daquele dia! - disse, envergonhada, colocando a mão no rosto.
- Você que trouxe o assunto, Rosa - respondi.
Ela baixou as mãos e me olhou com um sorriso de lado.
- Ainda lembra?
- Como esquecer o apelido especial que dei para a pirralha mais desastrada do mundo?
- Não sou mais pirralha. Cresci, tá?
- Uhum... Tá com quantos anos?
- Vinte e um.
- Ainda é uma pirralha.
- Chato!
Caímos na risada, e Ravena também, mas senti que ela ria de outra coisa.
- Parece que vou ter que colocar as crianças de castigo de novo - Jony comentou, tentando conter a risada.
- Concordo plenamente - disse Otto, cutucando o amigo com o cotovelo.
Eu e Rosa mostramos a língua para os dois ao mesmo tempo, o que gerou mais gargalhadas.
- Parece que Rose tirou um pouco da arrogância desse carrancudo aqui - comentou Otto, sorrindo.
Fechei a cara. Precisava mesmo tocar nesse assunto agora?
- Não seja por isso. Se sentem tanta falta, posso voltar agora mesmo - retruquei, puxando a alavanca da cadeira motorizada e saindo de perto deles.
Pelo menos, quando quero, posso escapar da presença dos meus amigos insuportavelmente chatos.
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Rose Sully
Depois que Otto falou aquilo, Steve saiu com a carranca no rosto, visivelmente irritado.
- Parece que irritei a fera - disse Otto.
- Estava bom demais para ser verdade - comentou Jony.
- Calma, ele só se irritou - tentei amenizar.
- Rose, desde que o acidente aconteceu, Steve se tornou outra pessoa. Ele mudou muito. Essa foi a primeira vez, em anos, que o vimos rir - disse Ravena.
- Nossa... - murmurei, cabisbaixa.
- Acho que você seria uma boa companhia para ele - Otto sugeriu.
- O quê? - exclamei. - Eu não poderia...
- Jony me disse que você estava procurando um emprego, só para não ficar parada.
- É, mas tenho o Eddy para cuidar. Ele está tendo muitas crises ultimamente. O que você tem em mente?
- Ser uma espécie de dama de companhia para o Steve. Você viu como ele ficou perto de você. Todos vimos. Seria perfeito. Você cuidaria da alegria dele, poderia levar o Eddy junto e ainda ganharia um bom dinheiro com isso.
- Não que eu não possa sustentar nós três - Jony comentou -, mas seria ótimo para você, que quer novas experiências.
- É... seria uma boa ideia - respondi, ainda receosa. Eu não poderia conviver com o homem que foi minha paixonite de infância.
- O quê? Claro que seria uma ótima ideia! - disse Ravena, rindo. - Imagina ficar vinte e quatro horas por dia com o gostoso do Steve. Eu iria adorar.
- Ravena, assanhada como sempre - disse Otto, revirando os olhos.
- Essa não muda nunca - Jony riu.
Ravena mostrou o dedo do meio para os dois, pegou Eddy pelo braço e disse que ia dançar com seu príncipe.
- E então, aceita? - Otto perguntou.
- Sim, eu aceito. Mas só porque quero que Steve volte a ser quem era - respondi, decidida. Se eu pensasse demais, acabaria desistindo.
- Aêêê! - Otto me abraçou animado.
- Seria maravilhoso se você conseguisse trazer nosso amigo de volta - Jony completou.
- Mais maravilhoso ainda se o Steve se apaixonasse por ela - provocou Otto.
Olhei para eles, assustada.
- Ros...
- Isso não pode acontecer! - interrompi, nervosa. - Ele não pode se apaixonar por mim.
Por mais que ele tenha sido meu primeiro amor infantil, puro e inocente, sei que seu coração pertence (ou pertenceu) à noiva. Mesmo depois do acidente, não poderia acontecer nada... por causa da minha doença.
- Ah... claro. A idade - Otto tentou adivinhar.
- Não seja tolo. Não tem nada a ver com a idade. O problema é outro. Ele simplesmente... não pode se apaixonar por mim.
Fiquei cabisbaixa.
- Ele tem uma vida inteira pela frente...
- E você também - disse Otto, tocando meu braço.
Suspirei.
- Com licença... - falei, me afastando e indo até onde Ravena e Eddy estavam.
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Steve Aeryn
Finalmente consegui sair daquele porre de festa. Nunca percebi o quanto esses eventos são insuportáveis.
Com ela não era.
Com a Lauren, nunca foi. Ela era a razão da minha vida. Ainda sinto seu cheiro nessa casa. Ainda consigo vê-la afastando os sofás da sala para dançar e cantar no karaokê.
Ah, minha Lauren... quanta falta você me faz.
No mesmo instante, a raiva me consumiu. Peguei o primeiro vaso que vi e o arremessei contra a parede.
- AAAAHHHH!!! - gritei, tomado pela fúria. - Por que você a tirou de mim? Por que fez isso comigo?
Achei que você me amava... Me enganei. Você só quer me ver sofrer. Ainda por cima, me deixou nessa maldita cadeira de rodas! Por que não me matou de uma vez?
Minhas lágrimas começaram a escorrer sem permissão. O som do meu choro ecoava por toda a casa vazia, aumentando ainda mais minha fúria.
- EU TE ODEIO!!! - gritei com todas as forças que ainda restavam em mim.
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Lista de capítulos
21 capítulos no total
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