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Capítulo 2 Maria Luíza

Nunca imaginei que um dia fosse trabalhar na AMB. Na verdade, sempre quis seguir o balé clássico. Mas, depois do que o cafajeste falou pra mim quando eu tinha apenas dezoito anos, minha cabeça mudou. Fiz das tripas coração, e me reinventei nesses últimos seis anos. Queria voltar e mostrar àquele miserável que ele sempre esteve enganado a meu respeito. Era uma necessidade doentia fazê-lo enxergar isso. E, Deus me perdoe, mas papai adoeceu em um momento oportuno. Eu não poderia ter voltado em um cargo melhor: igual a Enzo, no mesmo nível. Estou radiante de felicidade. Apenas duas coisas me incomodam. A primeira é que Enzo está um arraso de tão lindo. É quase ilegal. Nada mais de rosto liso; agora ele usa uma barba cultivada por uns cinco dias, bem-aparada. Coisa de deixar qualquer mulher louca. Merda! O cara ficou gostoso demais, e tenho medo de que isso possa me prejudicar. E a segunda diz respeito ao namoro meio forçado com Jorge. Ele é meu primo, uma boa pessoa, e fico meio chateada em ter de enganá-lo, mas, segundo as meninas, é isso ou ter de encarar o desgraçado do Enzo como se eu fosse uma incompetente sem ninguém na vida. Deixarei esse papel para ele, agora que está divorciado. Ah, sim. Quase me esqueci de debochar sobre isso. Ele foi traído. Corneado. Chifrado. Quando eu soube, senti vontade de vir ao Rio para rir na cara dele. Mas me controlei e fiquei de longe, só observando. *** Esta noite eu não dormi direito, só na expectativa. E minha chegada foi melhor do que sonhei: triunfal, mágica, quase um eclipse total. Adorei cada momento, cada expressão de Enzo, cada arregalar de olhos. Fiquei horas na cama, relembrando com o sorriso do coringa estampado na minha cara. Levantei-me como uma diva. Tomei banho, preparei café, me vesti adequadamente e arrumei meus cabelos. Tudo ao som da minha voz cantando, como em um musical da Broadway, sentindo-me a Barbra Streisand em Funny Girl. Tentem, algum dia, pisar nos adversários com salto quinze. É rejuvenescedor. *** Júlia me preveniu que, devido ao histórico de cara de pau de Enzo, é bem capaz de eu receber uma visita a qualquer momento. Homens simplesmente não sabem perder, e não querem ser ignorados. E dei todos os motivos para Enzo ficar desconfortável. Ignorei-o, voltei linda, poderosa, e ainda namorando o cara que ele mais odeia. Rá! Fiz a lição de casa direitinho e, quando soube que ele e os amigos nutrem sentimentos ruins em relação a Jorge, não pensei duas vezes: aproximei-me do meu primo e agora estamos juntos, há, exatamente, dois meses. Não vou dizer que é ruim. Jorge é bonitinho, carinhoso e independente. Não é perigoso, selvagem, nem gostoso como Enzo, claro, mas está valendo. O importante é que funcionou. É impagável a cara que os três fizeram quando apresentei Jorge como meu namorado. Eu queria tanto ter tirado uma foto e mandado para Júlia. Ela iria fazer um pôster e colocar em sua sala. Júlia e Dani conhecem todos os babados a respeito desses três. Davi está namorando agora, voltou com uma namorada antiga; Max e Enzo tentam corromper o coitado. Júlia e Dani vêm observando-os há tempos, e Júlia meio que desenvolveu um sentimento platônico por Max. Não consigo entender como alguém tão centrada, esperta e amorosa como Júlia pode se interessar por um homem bonito e rico, mas que usa o pênis para raciocinar. Dos três, suspeito que Max seja o mais idiota. Ou é o Enzo? Ou Davi? Deixa pra lá, são todos da mesma laia. *** Minhas primeiras horas na empresa foram satisfatórias. Marisa e Jorge me levaram para conhecer todo o prédio. Depois, desempacotei algumas coisas e organizei-as na minha nova sala. Não vou redecorar, apenas trouxe umas coisinhas minhas para enfeitar o lugar. Papai me deu carta branca para fazer o que eu julgasse melhor, nunca o vi tão feliz em toda minha vida. Esqueci tudo o que Enzo me disse sobre a comparação com minha mãe, pois acho que meu pai não faria isso; foi invenção do babaca do Enzo. Com certeza. Como sou a Diretora Financeira, preciso dar uma olhada nas contas da empresa e nas dos principais clientes. Marisa me informou que Enzo cuida dessa parte, e ele está em posse das contas dos principais clientes. Como ainda não estou pronta para ir atrás dele, comecei a fazer outras coisas. *** Então, mais tarde, aconteceu justamente o que Júlia e Dani previram. Ele sumiu o dia todo, mas, às quatro e meia da tarde, apareceu, quando eu estava na mesa de Marisa tentando remarcar uma reunião com investidores para amanhã à tarde, já que agora precisava ir para casa ver papai. Jorge vai comigo e jantaremos lá. Ouço um discreto pigarro atrás de mim. Fico meio sem graça, pois estava em uma posição pouco confortável, quase debruçada sobre a mesa, com a bunda empinada. Assim que vejo a expressão de Marisa se iluminar, entendo quem é. Ajeito-me e viro. — Gostaria de conversar com você — Enzo fala. Está meio aflito, meio inseguro. Gosto de ver essa cara dele. Não respondo. Volto-me para Marisa. — Me chame se conseguir algo. — Deixa comigo, Malu. Viro para ele. Lembro-me de manter o queixo empinado e o olhar firme. Nada de brechas. — Venha até minha sala — digo. — A gente podia sair… já está quase no fim do expediente — Enzo propõe, demonstrando um comedimento que não é comum nele. Olha só, a putinha mimada está sendo convidada para sair. Se eu ainda fosse aquela besta, certamente sairia correndo atrás dele. Queria dar uma resposta maldosa, mas, como as meninas aconselharam, não posso brigar, nem ser mal-educada, ou acabarei dando a impressão de que ainda estou ressentida, de que ainda guardo alguma coisa do passado. Posso até guardar, afinal, uma paixão não se esquece fácil, mas ninguém precisa saber o que se passa dentro de mim, certo? Olhando-o tão de perto, sinto um arrepio. O homem é a virilidade em pessoa. Geralmente homens têm um defeito odioso: eles ficam mais belos com o passar do tempo. Sem dar pinta de estar nervosa, falo devagar: — Não vai dar, Enzo. Vou jantar com Jorge. — Olho para meu relógio. — Tenho quinze minutos. Venha para a minha sala. Ele assente. Viro-me nos saltos quinze e começo a andar na frente dele. É uma necessidade insuportável fazê-lo ver o que perdeu. Mexo os quadris para lá e para cá, e avançamos pelo corredor sem dizer nada. Sedução sutil é o meu lema. Tenho de deixá-lo enlouquecido, só para pisar nele. Entramos na sala, vou para trás da mesa e espero que ele feche a porta. O cara está um escândalo em um terno cinza-claro e gravata azul. Os cabelos não viram pente hoje, acho que ele os ajeitou apenas com a mão, e está tão sexy que chega a ser um absurdo. Uma perdição. Ainda bem que eu já estava preparada. — Sente-se, Enzo — indico a cadeira de frente para mim. Ele se senta, então me sento na cadeira executiva do meu pai. — Sou toda ouvidos. É algo com a empresa que eu deva saber? — Não. Quero falar sobre a gente — ele retruca rápido e sucinto. Passo a mão pelos cabelos, jogo-os para o lado, deixando minha orelha à mostra. Cruzo as pernas e seguro meu pequeno brinco, acariciando-o com o polegar e o indicador. O que ele tem de beleza, tem de cara de pau. — Sobre a gente? Como assim? Não entendi — arqueio as sobrancelhas. — Malu, nós não tivemos a melhor despedida anos atrás, e antes, por longos meses, ficamos numa relação meio platônica. Você queria… — Eu era menina, Enzo. Como você disse, aconteceu anos atrás — interrompo-o. Nunca vou deixá-lo se desculpar, para depois agir como se tudo estivesse acertado entre a gente. — Sei bem o que eu disse. — Que bom. Então, que fique bem claro, não há nada entre a gente. Eu mal te conheço; vamos apenas trabalhar juntos e seguir nossas vidas — afirmo, deixando meu brinco de lado e cruzando as mãos sobre a mesa. Ele engole em seco e franze o cenho. — Mal me conhece? Quase morei na sua casa. — Vai por mim, não nos conhecemos. Ele bate na perna e olha para os lados. Sua mão passa rapidamente pela boca e depois sobe para os cabelos. Está começando a perder a paciência. — Só queria que não houvesse um clima estranho entre a gente. — Ele volta a me encarar. — Como eu disse, não tivemos uma boa despedida — Enzo ressalta. — Acredite, não haverá clima algum entre a gente — contraponho, séria. Ele se mexe desconfortável na cadeira. — Espere, Malu, me deixe falar. Eu preciso… me desculpar… — Não há o que desculpar — antecipo. Ele me encara, parece que prendeu a respiração. Por um instante, sinto pena de Enzo, mas depois, quando lembro quem ele é, a alegria em vê-lo assim me invade. Ele passa a mão na testa, como se a massageasse. — A gente vai ter uma convivência agora… Preciso esclarecer as coisas… — Enzo… — Não, Malu, espere. — Ele coloca a mão na frente. — Eu disse coisas… estava nervoso. Descruzo as pernas e me recosto na cadeira. Em silêncio, lembro-me daquele dia humilhante. A crueldade que vi nos olhos dele não demonstrava nervosismo, mas, sim, ódio. Estou coçando para insultá-lo, mas abro a boca e digo: — Compreendo. Era o seu dia, estava se casando com a mulher que você ama, então… — Não a amo — ele interrompe, brusco e hostil. Isso soa como música para os meus ouvidos. Quero pular em cima da mesa e sambar, entretanto me faço de horrorizada. — Não ama sua esposa? Após ouvir o que eu disse, presencio nos olhos cinza dele a sombra de uma raiva selvagem, quase como aquela que vi no dia do casamento. — Não se faça de cínica, Maria Luíza — irritado, ele gesticula impaciente. — Você sabe que não estou mais casado. — Não está mais casado? — Faço uma cara inocente, espantada até. — Por que eu saberia? Fiquei fora durante seis anos e não fiz questão de te seguir no Twitter. Não vi suas atualizações. Enzo se cala, a boca contraída e os lábios formando uma linha. Ele é tão lindo quando está zangado. É lindo de qualquer forma. Sábado, na boate, quase joguei tudo pelos ares e agarrei esse homem gostoso que me tira do sério. Se ele soubesse disso… — Então, não está mais casado. — Meu tom é refletivo. — Não me diga que foi uma tragédia — coloco a mão no peito e arregalo os olhos muito dramática. As meninas chorariam de rir com minha atuação. — Lílian está bem? A cabeça dele se inclina para o lado e os lábios repuxam. É um sorriso de irritação. — Você é inacreditável. Sabe muito bem que ela me traiu. — Oh, Deus! — murmuro, chocada. É claro que sabia, mas ouvi-lo confessar é a melhor coisa. Que vontade de virar passista de escola de samba e sair pulando feito doida. — Enzo, sinto muito. — Junto as sobrancelhas para demonstrar pena. — Você deve estar sofrendo bastante, afinal, se amavam tanto. Ela era um exemplo de mulher. Ele se levanta bruscamente e a cadeira quase cai. A expressão de ódio no rosto faria qualquer um se afastar. Menos eu. — O que houve? — Fico também em pé. — Está me punindo, não é? Rindo de mim, debochando da minha situação. Claro que estou, querido. Tenho vontade de aplaudir de pé a atuação de Lílian. O patife falou de mim e acabou se casando com uma puta sênior. Mas não digo nada disso a ele. Quero deixá-lo pirado fazendo-me de boazinha. — Pare! Pare já com isso! — ralho com raiva na voz. Raiva falsa, claro. — Não estou entendendo o que está acontecendo aqui. Por que ficou nervoso? Por eu ter dito que você amava sua esposa? Isso é um fato, você mesmo me disse. Ele esfrega o rosto com as mãos, depois leva os dedos aos cabelos lisos e os joga para trás. Meus seios enrijecem, expressando minha excitação, junto com minha xoxota. É difícil ser uma mulher tola e apaixonada. Enquanto isso, Enzo caminha em minha direção. Os olhos suplicantes, os lábios meio esbranquiçados. — Você não pode apenas ignorar tudo? Seis anos atrás você disse que… — Enzo, estamos trabalhando juntos agora. Quero e preciso ser profissional. — Cheia de charme, cruzo os braços e recosto meu quadril na mesa. — Nada de seis anos atrás existe dentro desta empresa. Não quero saber da sua vida e vou seguir a minha. Tenho um namorado e odiaria levantar qualquer tipo de suspeita. Podemos apenas nos ignorar, assim sairemos bem disso tudo. O que me diz? Ele se vira de costas e coloca as duas mãos na cabeça. Vejo que respira fundo, transtornado. Posso apenas admirar a vista. Já comentei que ele tem uma bunda de dar palpitações em qualquer coraçãozinho? Enzo se volta para mim. — Sabe… sobre o que eu disse aquele dia… no dia do casamento… — Não. — Ergo minha mão. — Não se precipite e peça desculpas. Você não me conhece. Posso, sim, ser igual a minha mãe, uma vadia vagabunda — com uma calma cirúrgica o alerto. — Sei que não é — ele se apressa em me interromper. Ignoro as palavras e continuo: — Dou para qualquer um e fico frustrada quando um cara não quer me comer. Eu te entendo agora. Você estava apaixonado e ia se casar com uma mulher maravilhosa, mas uma putinha queria interromper seus planos. — Não fale isso… — Fique tranquilo. Se veio aqui me pedir que me afaste, se estiver com medo de que eu possa te perseguir ou tentar qualquer coisa, não se preocupe, pois não vai acontecer. Afinal, putas também têm amor próprio. — Espero que meu olhar esteja adequado às minhas palavras; ensaiei esse momento por horas a fio. — Você entendeu tudo errado. Não vim aqui para isso… Antes de ele continuar, a porta se abre e Jorge entra. Ele olha para nós dois e sorrio para ele. — Oi, querido. Já veio me buscar? — Sim. Está pronta? — Temeroso, Jorge entra de olho em Enzo. — Sim. — Pego minha bolsa e olho amigável para Enzo, que está pálido. — Enzo veio saber sobre o papai, mas já está de saída. Caminho para perto de Jorge. Ele envolve possessivamente minha cintura e sorri gracioso para Enzo. — Até mais, Brant. *** Saio de mãos dadas com Jorge. Por dentro, estou como gelatina pura, mas me preparei para esse reencontro. Eu tinha de parecer forte. E, com toda certeza, consegui. A expressão de arrependimento de Enzo vai alimentar minha sede de vingança por enquanto. Ainda não tenho um plano. As meninas querem que eu o sabote de alguma forma aqui dentro, mas não sei se consigo fazer isso. Se eu sabotar Enzo, o prejuízo será de toda a empresa. Porém, como sou sócia majoritária, no momento posso interferir em qualquer plano dele. Posso tentar vetar algum projeto, ou algum caso novo que caia nas mãos dele. Ou melhor, posso indicar um cliente bom para Max. Esfregar minha beleza na cara dele não é suficiente, muito menos fazê-lo engolir Jorge. Preciso de mais. Preciso de uma mente brilhante pensando por mim. Preciso ligar para Júlia. — Divagando, meu bem? — Jorge acaricia minha mão quando paramos diante do elevador. Levanto meu olhar para ele e dou um sorriso. Estou me sentindo culpada por estar usando o coitado. — Estou pensando em alguns assuntos que Enzo comentou. — Aquele cara já quer te empurrar problemas no primeiro dia? Puta que pariu, como ele é mala — Jorge resmunga, verdadeiramente revoltado. — Faz parte, Jorge. Até ontem, ele cuidava das coisas do papai. Creio que amanhã nós dois passaremos o dia juntos, pois ele precisa me explicar todos os casos das contas do papai. Pensar em passar o dia com um homem que desejo espancar e beijar ao mesmo tempo é meio complicado. Não sei qual das duas opções vou acabar escolhendo. — Tenha cuidado com aqueles três estúpidos. Eles são daquele tipo de caras que comem tudo o que se mexe. Sim, isso não posso contestar. Sinto um arrepio. Meio que segui Enzo por algumas semanas, e me dá nojo só em lembrar a quantidade de mulheres que ele pegou. — Enzo me pareceu sério — reflito. O elevador abre, esperamos as pessoas saírem para a gente entrar. — Sério é o cacete. Depois que a vadia da esposa dele o traiu, o cara se jogou no mundo da putaria. Sinto outro arrepio. Não sei por quê, mas a imagem de Enzo esbaldando-se com outras mulheres me deixa meio inquieta. — Eu sei me cuidar, Jorge. Mas, me diga, o que sabe sobre o casamento dele? — Não muito. Quando o assunto é a vida pessoal, ele sabe ser bem discreto. Sei que ficaram casados por um ano e meio, e, depois, ele descobriu que a mulher nunca terminou o relacionamento com o outro cara. Uau! Disso eu não sabia. Entramos no elevador e ele me pergunta se eu vou passar em algum andar antes. Respondo que não. Jorge escolhe o botão do térreo e aperta. — Então, ela se casou mesmo estando com outro? — Sim. Enzo, o irmão e o amigo fizeram da vida dela um inferno. Ela saiu do casamento quase sem nada. As portas estão quase se fechando, quando uma mão se espreme na abertura mínima e as portas se abrem novamente. Enzo olha para mim e Jorge. Nós dois damos um passo para trás ao mesmo tempo, assim que ele entra no elevador, como se fosse um alerta de perigo. As portas se fecham e ele se vira para mim, dá um sorriso tipo psicopata ou semelhante a quando alguém pega outro no flagra. Engulo em seco. — Brant, se você estiver muito ocupado amanhã, não precisa se preocupar, eu mesmo passo os relatórios de Jonas para Malu. Conheço todas as contas — Jorge resolve intervir a meu favor. Não sei se lhe agradeço ou se bato nele. Não sei se quero passar o dia com Enzo, ou se quero manter distância dele. Contradição devia ser meu nome. Enzo tira os olhos de mim e os vira, com interesse mortal, para Jorge. — Acho que não conhece tanto quanto eu, que lido com os clientes. Você apenas lê os contratos. — E não é o suficiente? — Jorge provoca. Sinto que uma retaliação vai começar. Olha lá, o sorriso cínico. — Ah, Jorge! Estou tão decepcionado — Enzo começa. — Trabalha há tanto tempo aqui e não sabe que nossos clientes são mais do que pedaços de papel? Temos que ir a jantares ou almoços com eles e saber, pelo menos, o básico sobre suas personalidades, seus costumes e sua família. — Enzo se vira para mim. — Creio que nada disso será problema para você, certo, Maria Luíza? Durante milésimos de segundos, nós dois fazemos o mundo deixar de existir. Olhamo-nos fixamente, olho no olho, e somente com esse olhar dizemos muito. Falo como ainda estou ressentida e como o odeio, e ele me diz que está ansioso por mudar a impressão que tenho dele. Enzo considera isso um jogo. É nítido no brilho que lhe cobriu os olhos, sombreando um pouco o tom de cinza. — Certo, Enzo — concordo. Ele estende a mão para mim. — Deixe eu te dar meu telefone. Me empresta seu celular. Sem contestar, pego o celular e o entrego a ele. O elevador chega ao andar e nós três saímos. Enzo, de cabeça baixa, digita o número de telefone dele, mas demora um pouco demais fazer isso. Jorge aperta possessivamente o braço na minha cintura e, mesmo sem olhar, Enzo se enrijece; noto um nervo saltar no maxilar dele. Em seguida me entrega o celular, dá um meio sorriso para Jorge e faz um modesto gesto de cabeça para mim. Depois, vira-se e sai sem olhar para trás, com o andar poderoso e esguio. Ele deve ter 1,90m. Um porte físico fantástico que dá inveja aos homens, e desperta desejo nas mulheres. É incrível como esse homem ainda tem esse poder sobre meu corpo. — Vê o porquê de eu não gostar dele? — Jorge reclama. Ainda estamos parados, como tolos, olhando Enzo se afastar. Caminhamos para perto do carro de Jorge. — Ele só estava te provocando, Jorge. Não crie caso. É isso o que ele quer. Abro a bolsa para guardar o celular, mas noto uma mensagem que acabou de chegar. Enzo gostosão é o nome que aparece. Não acredito que ele salvou o nome assim no meu celular. Reviro os olhos com desdém. Tão infantil. Nem parece que tem 34 anos. Fico congelada quando começo a ler. Puta merda. É oficial. Preciso me encontrar com Júlia. Sinto que Enzo vai querer virar o jogo. Ele é perspicaz, percebeu que estou jogando e comprou as fichas para a próxima partida. Calma, Malu. Respire fundo, você é como Barbra Streisand. Não vai chover no seu desfile, convenço-me interiormente. Peito pra fora, barriga pra dentro e nariz empinado. Guerra é guerra. Nos vemos amanhã, Maria Luíza. Aproveite o jantar com seu namoradinho lindinho, pois amanhã terá um almoço comigo. A propósito, se quiser saber da minha vida pessoal, me pergunte, não fique de fofoquinha no elevador. É feio e contra as normas da empresa.

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Lista de capítulos

38 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 Enzo
  2. Capítulo 2Capítulo 2 Maria Luíza
  3. Capítulo 3Capítulo 3 Enzo l

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