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Capítulo 3 02

Aurora

Depois de longas seis aulas chegou a agora finalmente de ir embora, só que o que me esperava era o período da tarde de estágio na empresa da família. E confesso que preferia ficar lá do que no campus da universidade.

Senti mais tapando meus olhos, e eu sabia que só poderia ser uma pessoa, Miguel. Por mais que nós estivéssemos dando um tempo da nossa relação, ele ainda continuava perto, e talvez por a gente terminar e voltar tantas e tantas vezes, dessa vez eu não sinto falta.

- Oi Miguel.

- Sem graça. - Ele diz bufando.

- Eu estou com pressa tenho que ir trabalhar. - Digo.

- Esse é um dos motivos da gente tá dando um tempo, você só pensa nos estudos e na maldita empresa da sua família.

- Esse é um dos motivos de eu estar pouco me fodendo para o que você pensa ou deixa de pensar. Você é filhinho de mamãe, quando seu pai morreu, sua mãe deixou você fazer o que bem entendesse e isso foi o maior erro dela. Você não vai ter a grana na mamãe pra toda vida não, eu pelo menos quero construir algo, assumir a empresa da minha família e não só usufruir do dinheiro. Você é um moleque inconsequente e não sabe o valor de cada roupa ou jóia que está no seu corpo. - Dito isso ouvi um estralo e minha bochecha arder.

Antes que eu pudesse raciocinar, levantei minha mão e lhe devolvi não só a bofetada, como um chute no saco, e quando ele abaixou lhe dei um soco.

- Se você acha que tínhamos chance de volta agora tenha certeza que eu nunca mais deixo você encostar um dedo em mim, seu maldito filho da puta. - Viro as costas e saio.

Olho no viro do carro e vejo que meu lábio cortou e minha bochecha está muito vermelha, com algumas partes ficando roxas.

Maldito filho da puta.

Entrei no carro e segui para a empresa, entrei e pedi pra um dos seguranças uma bolsa de gelo. Entrei no elevador e um deles veio correndo e me entregou, coloquei no meu rosto, e tudo que eu queria era não encontrar meu tio, e muito menos o Gael, porém os dois estavam bem na minha frente assim que as portas do elevador se abriram.

- Que merda é essa, Aurora? - Gael foi o primeiro.

Lorenzo ficou quieto.

- Ele está bem pior, não se preocupe. - Digo. - Acho que não terá filhos. - Dou uma risadinha.

Gael e Lorenzo mudaram suas feições rapidamente, eles estavam com feições de dois Pitbulls prontos para atacar e estraçalhar a cara de alguém. E esse alguém seria Miguel Rossi.

- Boa tarde, você deve ser a Valentina. Muito prazer, não ligue para esses dois em questão de segundos esse telefone vai tocar e saberemos o que eles fizeram. - Foi eu calar a boca e o elevador tinha fechado as portas e dos haviam sumido.

- Quem fez isso com você? - Ela perguntou.

- Me ex, mas eu deixei ele bem pior. - Digo e dou uma piscadela.

- Eu acho que por isso nunca namorei, meu requisito para homem está muito elevado.

- Apesar que ele era uma boa pessoa, mas depois que o pai dele morreu se tornou um filhinho da mamãe mimado. Mas eu sei me defender não se preocupe.

- Você é corajosa. - Valentina diz.

- Você também, por aturar meu tio.

- Eu acho que ele encontrou alguém a altura do bom humor dele. - Ela diz e eu dou risada.

- Já gostei de você.

Valentina sorriu, mas antes que pudesse responder, ouvimos passos apressados pelo corredor.

- Aurora!

Fechei os olhos por um segundo.

Eu conhecia aquela voz.

- Meu Deus...

- O quê? - Valentina perguntou.

As portas do elevador abriram novamente e Gael apareceu.

Sozinho.

O que, considerando a expressão no rosto dele, era ainda mais assustador.

- Onde ele está?

- Quem?

Ele me encarou.

- Aurora.

- Gael.

- Não brinca comigo.

Suspirei.

- Eu não sei.

- Lorenzo está tentando descobrir.

- Tentando descobrir o quê?

- Onde o seu ex está.

Revirei os olhos.

- Vocês não fizeram nada, fizeram?

Gael cruzou os braços.

- Depende do que você considera "nada".

- Gael!

- Estamos apenas conversando.

- Com Miguel?

- Sim.

- E onde vocês estão conversando?

Ele ficou em silêncio.

- Gael.

- Em um lugar reservado.

- Vocês estão loucos.

- Ele bateu em você.

A voz de Lorenzo surgiu atrás dele.

Meu sorriso desapareceu.

Ele estava parado alguns metros à nossa frente, com o maxilar travado e as mãos fechadas.

Eu conhecia meu tio.

Conhecia aquele olhar.

Era o olhar que ele usava quando estava tentando controlar a própria raiva.

E aquilo me assustou mais do que se ele tivesse gritado.

- Lorenzo...

Ele veio até mim.

- Deixa eu ver.

- Não precisa.

- Aurora.

Suspirei e tirei a bolsa de gelo do rosto.

Ele segurou meu queixo com delicadeza, virando meu rosto para o lado.

Seus olhos escureceram ao observar a marca.

- Ele fez isso?

- Sim.

- E você fez o quê?

- Dei o troco.

Gael soltou uma risada curta.

Lorenzo nem sequer olhou para ele.

- Você está machucada.

- Não estou.

- Seu lábio está cortado.

- É só um corte.

- E sua bochecha está ficando roxa.

- Também vai passar.

Ele respirou fundo.

- Você deveria ter me ligado.

- Para quê?

- Para qualquer coisa.

- Lorenzo, eu não tenho cinco anos.

- Eu sei.

- Então pare de agir como se eu precisasse de alguém para resolver minha vida.

Ele me encarou.

Por alguns segundos, nenhum de nós disse nada.

Eu sabia que ele estava preocupado.

Sabia também que, se dependesse dele, teria ido atrás de Miguel no mesmo segundo em que viu meu rosto.

Mas eu não queria isso.

Não queria que aquele episódio se tornasse maior do que já era.

- Eu consigo cuidar de mim. - falei mais baixo.

A expressão dele suavizou um pouco.

- Eu sei.

- Então confia em mim.

Ele assentiu.

- Eu confio.

Gael bufou.

- Eu não.

Olhei para ele.

- Ninguém perguntou.

- Eu só estou dizendo.

- E eu só estou ignorando.

Valentina, que até então estava quieta, soltou uma risadinha.

Olhei para ela.

- Está vendo? Ela já entendeu como funciona.

- Entendi mesmo.

Lorenzo olhou para Valentina pela primeira vez.

- Não dá corda, Velentina.

Ela ajeitou a postura.

- Não estou.

Ela piscou.

Gael abriu um sorriso.

Eu mordi a parte interna da bochecha para não rir.

Lorenzo virou lentamente o rosto para ela.

Olhei para Gael.

Ele estava quase explodindo de tanto segurar o riso.

Lorenzo passou a língua pelos dentes, respirou fundo e apontou para a porta do escritório.

Eu não aguentei.

Comecei a rir.

- O que foi? - ele perguntou.

- Nada.

- Aurora.

- É que...

Olhei para Valentina, que já estava sentada na mesa.

- Acho que finalmente encontrei alguém que consegue te irritar mais do que eu.

Gael gargalhou.

Lorenzo lançou um olhar para nós dois.

- Vocês são insuportáveis.

- Obrigada - respondi.

Ele balançou a cabeça e entrou no escritório.

---

Fiquei alguns minutos na recepção conversando com Valentina.

Apesar de termos nos conhecido há poucos minutos, era fácil conversar com ela.

Talvez porque ela não tentasse me tratar como "a filha de Sophia e Matteo".

Ela falava comigo como Aurora.

E eu gostava disso.

- Então você trabalha aqui há quanto tempo? - perguntei.

- Hoje é meu segundo dia.

Arregalei os olhos.

- Está brincando.

- Não.

- E você já discutiu com Lorenzo?

- Tecnicamente, ele discutiu comigo.

- Não importa. Você ganhou.

Ela riu.

- Seu tio é sempre assim?

- Infelizmente.

- Você parece gostar dele.

- Eu amo aquele homem.

- Dá para perceber.

Sorri.

- Lorenzo sempre foi meu porto seguro. Quando eu era criança, ele fazia tudo por mim.

- E agora?

- Agora ele acha que ainda precisa fazer.

Valentina apoiou os braços na mesa.

- E você não gosta?

Pensei por alguns segundos.

- Às vezes gosto. Às vezes me irrita.

- Normal.

- Você tem irmãos?

Ela assentiu.

- Um. Dante.

- O advogado?

- Sim.

- Então você sabe como é ter alguém querendo controlar cada passo.

- No meu caso, é o contrário. Dante tenta me impedir de colocar fogo nas coisas.

Ri.

- Acho que vamos nos dar muito bem.

- Também acho.

O elevador abriu.

Gael saiu.

Sozinho novamente.

Olhei para ele.

- Onde está Lorenzo?

- Em uma ligação.

- E Miguel?

O sorriso dele desapareceu.

- Resolvido.

- Gael...

- Não fizemos nada.

- Tem certeza?

- Seu tio só conversou com ele.

- Conversou?

- Sim.

- E por que você está com essa cara?

- Porque seu tio é assustador quando está calmo.

Soltei um suspiro.

- Eu não quero confusão.

- Eu sei.

- Então deixe Miguel para lá.

- Aurora...

- Sério.

Ele assentiu.

- Tudo bem.

Por alguns segundos, ficou me olhando.

- Você está mesmo bem?

- Estou.

- Não precisa fingir comigo.

Aquilo me atingiu.

Gael sempre fazia isso.

Ele enxergava além do que eu dizia.

- Eu estou chateada - admiti.

- Com ele?

- Comigo também.

- Por quê?

Olhei para minhas mãos.

- Porque eu fiquei tanto tempo insistindo em um relacionamento que já não existia.

Gael ficou em silêncio.

- Eu e Miguel terminávamos e voltávamos o tempo inteiro. Eu achava que aquilo significava alguma coisa. Que, no fundo, nós ainda nos amávamos.

- E agora?

Olhei para ele.

- Agora eu acho que só tinha medo de admitir que não.

Ele se aproximou um pouco.

- Você não precisa voltar para ninguém só porque ficou muito tempo com essa pessoa.

- Eu sei.

- E não precisa começar outro relacionamento agora.

- Eu também sei.

- Então...

- Então o quê?

Ele sorriu.

- Nada.

Fiquei olhando para ele.

Havia alguma coisa diferente naquele sorriso.

Alguma coisa que eu não conseguia identificar.

- Você está estranho.

- Eu?

- Sim.

- Estou normal.

- Não está.

- Você está imaginando coisas.

- Talvez.

Ele deu de ombros.

- Pode ser.

Antes que eu pudesse perguntar mais alguma coisa, Lorenzo saiu do escritório.

- Aurora.

- Sim?

- Sua mãe ligou.

Meu coração acelerou.

- O que ela quer?

- Saber se você está bem.

- Você contou?

- Ela viu uma mensagem no grupo da família.

- Droga.

Peguei o celular.

Havia oito chamadas perdidas.

- Vou ligar para ela.

- Faça isso.

Comecei a caminhar em direção ao corredor.

- Aurora.

Parei.

- Sim?

- Você vai para casa depois daqui.

- Tenho estágio.

- Não hoje.

- Lorenzo...

- Você precisa descansar.

- Estou perfeitamente bem.

- Não estou perguntando.

Cruzei os braços.

- E eu não estou aceitando.

Gael começou a rir.

Lorenzo fechou os olhos.

- Você vai acabar comigo.

- Você sobrevive.

- Vai para casa, Aurora.

- Não.

Ele me encarou.

Eu sustentei o olhar.

- Tenho trabalho para fazer.

- Você acabou de levar um tapa.

- E já devolvi.

- Isso não muda o fato de que você está machucada.

- Lorenzo, se eu for embora toda vez que alguma coisa acontecer comigo, nunca vou aprender a lidar com a vida.

Ele ficou quieto.

Dessa vez, ele pareceu entender.

- Tudo bem.

Sorri.

- Obrigada.

- Mas você vai me mandar mensagem quando chegar em casa.

- Isso eu já faria.

- E vai ficar com o gelo no rosto.

- Sim, senhor.

- E não vai encontrar Miguel.

Revirei os olhos.

- Não pretendo.

- Promete?

- Prometo.

Ele assentiu.

- Então está bem.

Passei por ele.

- Ah, Lorenzo?

- O quê?

- Sua secretária é ótima.

Ele olhou para Valentina.

Ela fingiu que não estava ouvindo.

- Ela é um problema.

Valentina levantou os olhos.

- Eu ouvi.

- Era para ouvir mesmo.

- Ótimo.

Ela sorriu.

Eu ri.

Definitivamente, aquela mulher seria minha amiga.

---

O restante da tarde passou mais rápido do que eu esperava.

Entre documentos, ligações e algumas mensagens da minha mãe perguntando se eu estava realmente bem, consegui me distrair.

Quando terminei uma parte do meu trabalho, levantei para pegar água.

Passei pela porta do escritório de Lorenzo.

Estava aberta.

Ele estava de costas, olhando pela janela.

Parecia cansado.

Bati duas vezes.

- Entra.

Entrei.

- Está tudo bem?

Ele se virou.

- Comigo?

- Sim.

- Por que não estaria?

- Você está quieto.

- Estou trabalhando.

- Você fica quieto quando está preocupado.

Ele soltou um suspiro.

- Estou preocupado com você.

- Eu estou bem.

- Eu sei.

- Então por que continua com essa cara?

Ele caminhou até mim.

- Porque eu odeio saber que alguém encostou em você.

Minha expressão suavizou.

- Lorenzo...

- Eu deveria ter percebido que alguma coisa estava errada.

- Você não tinha como saber.

- Sou seu tio.

- Exatamente.

Ele sorriu de leve.

- Você cresceu rápido demais.

- Isso é bom.

- Nem sempre.

Fiquei em silêncio.

Ele tocou de leve meu cabelo.

- Só me promete que nunca vai esconder de mim quando alguma coisa estiver acontecendo.

- Prometo.

- Mesmo que seja ruim.

- Mesmo que seja ruim.

Ele assentiu.

- Então está bem.

Eu o abracei.

- Eu te amo.

Ele me apertou contra o peito.

- Eu também te amo, pequena.

- Eu não sou pequena.

- Para mim é.

- Idiota.

Ele riu.

Quando me afastei, percebi alguém parado na porta.

Gael.

Ele nos observava com um sorriso discreto.

- Interrompi alguma coisa?

- Não. - respondi.

Lorenzo pegou alguns documentos.

- Você queria falar comigo?

Gael assentiu.

- Sim.

Olhei para os dois.

- Vou deixar vocês.

Saí do escritório e fechei a porta.

Não ouvi o que eles conversaram.

Mas, enquanto caminhava de volta para minha mesa, uma sensação estranha tomou conta de mim.

Talvez fosse apenas o dia difícil.

Talvez fosse o cansaço.

Ou talvez alguma coisa estivesse realmente mudando.

Porque, pela primeira vez, comecei a perceber que as pessoas ao meu redor não eram exatamente as mesmas.

Eu também não era.

Eu havia passado anos acreditando que sabia o que queria.

Sabia quem amava.

Sabia com quem queria ficar.

Mas naquele dia, depois de levar um tapa, percebi que meu relacionamento provavelmente havia terminado muito antes daquela tarde...

Uma pergunta começou a surgir dentro de mim.

E se eu nunca tivesse realmente enxergado as pessoas que estavam ao meu lado?

Olhei para Gael através do vidro.

Ele estava conversando com Lorenzo.

Por algum motivo, nossos olhos se encontraram.

Ele sorriu.

Eu sorri de volta.

E imediatamente desviei o olhar.

Não sei por quê.

Talvez porque, pela primeira vez, aquele sorriso tenha causado uma sensação diferente.

Uma sensação pequena.

Quase imperceptível.

Mas que eu não conseguiria esquecer tão facilmente.

E eu ainda não sabia...

Mas talvez algumas coisas estivessem prestes a mudar.

Não apenas na minha vida.

Mas também dentro de mim.

{...}

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Lista de capítulos

31 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 Prólogo
  2. Capítulo 2Capítulo 2 01
  3. Capítulo 3Capítulo 3 02

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