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Capítulo 2 O tempo passou e eu renasci!

Seis anos depois... O som suave do jazz enchia o bar mais badalado da Avenida Paulista. Luzes douradas refletiam nos copos de cristal, misturando-se a risadas abafadas, conversas discretas e ao aroma de vinho caro com perfume importado. Era um cenário perfeito - elegante, superficial e sufocante. Helena, impecável em um vestido preto de cetim, havia passado a noite cercada por investidores que falavam demais e entendiam de menos, e agora, com a cabeça latejando e um sorriso profissional ainda colado ao rosto, tudo o que queria era um canto silencioso para respirar. Mas o destino - como sempre - não lhe concedia pausas. Tania a seguiu até o corredor dos fundos. - Tania... - murmurou Helena, com um meio sorriso cansado. - Tem algo que queira me dizer? A empresária cruzou os braços, o olhar duro como gelo. - Tenho, sim. - Sua voz cortou o ar. - É verdade que você se inscreveu no teste de roteirista assistente do filme "Me Ame, se For Capaz"? Helena inclinou a cabeça, serena, como quem já previa o ataque. - Sim. E qual o problema? - O problema é que você não vai a esse teste! - disparou Tania, a voz carregada de autoridade. - E isso não é um pedido, Helena. É uma ordem! Helena arqueou uma sobrancelha, indiferente. - Ah, é? E por quê? - Porque você agiu pelas minhas costas! - Tania avançou um passo. - A empresa já decidiu que Camila será a protagonista. E não precisamos de duas da mesma família no mesmo projeto! Helena soltou um riso baixo - curto, frio. - Interessante... - murmurou, tomando um gole do vinho que ainda segurava. - Isso conflita com o meu trabalho de roteirista? Ou Camila mandou você vir aqui me ameaçar? Seus olhos brilharam com ironia. - Não me diga que ela tem medo de perder... para mim. - Acorda, Helena! - Tania estourou. - A família Rodrigues investiu cinco milhões nesse filme. O papel é dela. Sempre foi! Helena ergueu o olhar, tranquila demais. - Então, se o papel já é dela... por que você está tão nervosa, Tania? - Porque você é minha agenciada, e vai obedecer! - gritou, batendo o salto no chão. - Se me desafiar, não me culpe pelo que eu fizer! Helena riu, sem humor. - Que milagre. Achei que você já tivesse esquecido que eu sou sua agenciada. O olhar de Tania escureceu. E antes que Helena pudesse reagir, sentiu um empurrão violento nas costas. Seu corpo foi lançado para frente, caindo dentro de um depósito escuro no final do corredor. O celular deslizou pelo chão e desapareceu entre as sombras. A porta se fechou com um estalo. Do lado de fora, os passos de Tania se afastaram lentamente - firmes, impiedosos. Helena ficou imóvel por um instante. Depois soltou um suspiro breve, encostando a cabeça na porta. Não havia medo em seus olhos - apenas o velho cansaço, misturado com frieza. Desde que entrara na Vox Talents, aprendera a engolir humilhações em silêncio. No início, Camila fingia cortesia - dava pequenos trabalhos à irmã, como se fosse caridade, mas com o tempo, as máscaras caíram, e Camila não queria dividir o palco. Queria tudo: a fama, os holofotes... e o nome Rodrigues para si. "Se eu não conseguir esse roteiro," pensou Helena, "vou sair dessa empresa. De uma vez por todas." O silêncio a envolvia - até que um som suave o quebrou. Um pequeno ruído. Um soluço contido. Helena franziu o cenho, atenta. Entre as caixas empilhadas, algo brilhou - um reflexo tênue de luz. Ela se aproximou devagar, os saltos tocando o chão com cautela. E então o viu. Um menino, não mais do que cinco ou seis anos, encolhido no canto. Os olhos grandes e escuros a observavam em silêncio, assustados, mas com algo que a fez estremecer - uma estranha familiaridade. Helena parou, o coração acelerando sem motivo aparente. A voz dela saiu suave, quase um sussurro. - Ei... - ela se abaixou. - O que está fazendo aqui, docinho? Nenhuma resposta. Apenas o olhar firme da criança, profundo demais para alguém tão pequeno. Um arrepio subiu pela espinha de Helena. O bar do outro lado da porta parecia distante, irreal. E a pergunta ecoou dentro dela, sombria e inevitável: "O que uma criança estava fazendo sozinha... no depósito de um bar?" - Oi, querido... - Helena se abaixou, suavizando a voz. - Como você se chama? Como entrou aqui? Silêncio. Ela tentou de novo, em tom gentil, fazendo pequenas perguntas. Mas o menino permanecia imóvel, os olhos arregalados, o corpo encolhido no canto - como um animalzinho selvagem, acuado e assustado. Helena suspirou, cansada. Um depósito abafado, cheio de caixas e cheiros de poeira - um refúgio improvisado para quem não tinha mais onde pertencer. O tempo parecia se arrastar. A lâmpada acima deles piscou uma, duas vezes... e então apagou-se com um estalo seco. A escuridão tomou o lugar por completo. Por alguns segundos, tudo o que Helena ouvia era sua própria respiração, até que um som suave - quase imperceptível - cortou o silêncio. Ela franziu o cenho, pois o som vinha do menino. Dentes batendo. - Está com medo do escuro? - perguntou em voz baixa, tentando soar divertida. O barulhinho cessou... por um instante. E depois voltou, mais alto. Helena balançou a cabeça, um sorriso cansado surgindo. - Tão pequeno e já tão medroso... - murmurou, quase com ternura. Levantou-se devagar, massageando as têmporas. O corpo inteiro doía - consequência da noite anterior, dos sorrisos falsos, das taças de vinho e dos olhares cheios de interesse falso. Deu alguns passos até o menino. Ele recuou, pálido de medo. Mas Helena apenas se deixou escorregar até o chão, sentando-se ao lado dele. Encostou-se na parede fria, fechou os olhos e murmurou: - Calma, não vou te morder, pequenino. O silêncio voltou. E então, o cansaço venceu. Em poucos minutos, Helena adormeceu. Quando despertou, sentiu algo quente encostado em sua perna. Baixou o olhar - e o coração derreteu. O menininho estava deitado ao lado dela, a cabecinha apoiada em sua coxa. Uma das mãozinhas agarrava com força a barra da blusa dela, como se temesse que ela desaparecesse. Helena riu baixinho. - Ai, meu Deus... que coisinha mais linda... Estendeu a mão, com um sorriso terno, e acariciou-lhe os cabelos. Mas no instante em que o fez, o sorriso sumiu. A pele dele estava quente demais. - Você está com febre! - sussurrou, alarmada, tocando-lhe a testa novamente. - Não... não é possível... O medo subiu pela garganta. A febre era alta. Perigosa, e o pior, Tania só voltaria depois da audição, então, poderiam ficar presos ali por horas. Helena se levantou num pulo, olhando ao redor, desesperada.

Foi então que viu: Um fino facho de luz atravessava a penumbra, cortando o ar. A lâmpada estava queimada. Mas havia claridade. Ergueu o olhar. No teto, uma pequena claraboia deixava passar os primeiros raios do amanhecer. Esperança. Helena arrastou uma escada velha até a parede e virou-se para o menino. - Ei, pequenino... venha cá. Eu te ajudo a sair, tudo bem? O garoto balançou a cabeça com força, os olhos firmes, desafiadores. Helena o encarou, e entendeu. Ele não queria deixá-la. Um sorriso cansado e doce curvou seus lábios. - Então você é leal, é isso? Quer ficar aqui e sofrer comigo? - brincou, beliscando de leve suas bochechas. - Mas escute, herói... a janela é pequena. Eu não passo. Se você sair, pode buscar ajuda. Tudo bem? O menino hesitou, e Helena sentiu o coração apertar.

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178 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 Você não é quem escolhi para mim!
  2. Capítulo 2Capítulo 2 O tempo passou e eu renasci!
  3. Capítulo 3Capítulo 3 O que ele estava fazendo aqui

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