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Capítulo 2

ALORA

(5 anos depois...)

Meus olhos estavam fixos no teto, enquanto a brisa da fresta da janela assobiava e passava pelo meu corpo, me fazendo sentir frio.

Cobri-me com o tecido fino, mesmo que ele não me aquecesse. Arrepiei-me um pouco ao tocar na marca de chicote recente no meu braço, o fazendo doer. Segurei o lençol com mais força, encolhendo as pernas e abraçando os joelhos para tentar me aquecer.

Cinco longos anos se passaram desde que fui colocada nesta maldita cela, e fui torturada mais do que seria justo. Não achava que nenhum renegado tivesse passado pelo mesmo destino que eu. Para ser sincera, achava que eles recebiam um tratamento melhor. Eles os matariam assim que os colocassem em uma cela, ou os fariam sofrer.

Os gritos que alguns soltavam faziam meus ouvidos sangrarem. Muitos desistiam após as primeiras torturas e morriam. Quem entrava aqui, nunca mais saía.

Sempre me questionei sobre qual seria meu destino, mas já se passaram cinco anos. Algo me dizia que eu só descobriria quando fosse tarde demais.

Madaline, que agora era a companheira escolhida do meu pai em vez de sua amante, deu à luz um filho. Não o vi, e nem queria conhecê-lo. Provavelmente ele seria malvado se fosse igual ao meu pai ou a ela.

Ouvi um barulho do lado de fora da janela, mas era difícil saber o que estava acontecendo. Ultimamente, estava muito barulhento por aqui. Os guardas que me vigiam, principalmente Beck, não falavam comigo. Eles ficavam em silêncio e até ajudavam na tortura que Madaline me imponha.

Ninguém se importava comigo, e eles nem sabiam quem eu era, algo que meu pai garantiu. Ele disse aos guardas que eu era uma humana estúpida que invadiu o território da matilha, e que ele não sabia o que fazer comigo. O jeito como ele falava de mim deveria me abalar, mas por que eu deveria me abalar agora? Ele nunca me quis, desde o início.

Beck ficou encarregado de me vigiar nos últimos cinco anos. Ele nunca falava comigo, mas acabei me afeiçoando a ele nesse tempo. Quando Madaline me torturava, o mandava sair, mas logo depois, ele entrava e limpava minhas feridas o melhor que podia.

Foi Beck quem me deu este lençol fino para me cobrir quando ficava frio aqui.

Outro estrondo veio de fora, provocando um estremecimento em mim enquanto mantive meus olhos fixos na janela.

"Que diabos foi isso?" Tentei escutar o que estava acontecendo, mas era difícil ouvir qualquer coisa por causa do vento.

Talvez eu não tivesse uma loba, mas tinha algumas de suas características, como audição incrível e sentidos aguçados. Eu não sabia se tinha outra, mas essas eram as duas únicas que sabia que tinha.

Outro ruído veio de fora da janela, e um miado soou quando uma pequena cabeça peluda e preta apareceu na fresta, seus olhos me encarando.

Movendo-me um pouco, sorri enquanto o pequeno animal veio na minha direção e se aninhou no espaço entre minhas pernas e meu estômago.

Essa bolinha de pelos preta tinha me feito companhia nos últimos meses. Quem diria que uma gata entraria em uma matilha de lobos e sobreviveria? Eu com certeza não achava isso possível, não com meu pai no comando. Afinal, ele teria o devorado no jantar.

A gata se aconchegou em mim, deixando seu calor me envolver enquanto tentava me aquecer.

"Obrigada", sussurrei, colocando a mão na sua cabeça e fazendo um carinho. "Você não deveria estar aqui, sabe disso."

Suspirei enquanto a gata se movia e enfiava a cabeça sob meu queixo, esfregando na minha mandíbula e começando a ronronar. Alisei seu pelo macio até que ela se ajeitou para dormir. Olhei para a gata, que me encarou de volta com seus olhos verdes brilhantes.

"Como posso te chamar?", sussurrei enquanto acariciava sua cabeça.

A gata soltou um miado baixo, me fazendo suspirar.

"Não posso continuar te chamando de gata ou gatinha", murmurei. "É meio bobo. Que tal eu dizer alguns nomes, e você cutucar minha mão quando gostar de um?"

A gata me encarou. Droga, me senti uma estúpida falando com ela.

"Vamos ver...", eu disse e comecei a dizer alguns nomes. "Angel, Lucky, Poppy, Aero..."

A gata não se moveu, e eu resmunguei.

"Que tal...", comecei, mas parei quando um filme que eu assistia quando criança com minha mãe veio à minha mente — O Rei Leão. Lembrei-me de quando Gama Ryan o trouxe um dia. Assisti tantas vezes ao longo dos anos, pois foi o melhor presente que já ganhei de alguém.

"Que tal Simba, Nala-", eu disse, e a gata esfregou a cabeça em mim ao ouvir Nala.

Então, sorri.

"Nala", sussurrei. "Perfeito para uma gata linda como você."

Nala ronronou, se aconchegando novamente contra mim.

De repente, a porta das celas se abriu, mas ela não se moveu enquanto ouvíamos os passos se aproximando. Coloquei o tecido fino sobre sua cabecinha e olhei para o portão, vendo Beck aparecer.

Ele me encarou, mas depois olhou para trás, então se aproximou e se ajoelhou.

Observei enquanto ele tirava algo do bolso e passava o braço pela barreira até colocar uma maçã no chão.

Fiquei olhando para a maçã por um momento, achando que estava sonhando, pois a última vez que comi foi há dois dias. Beck só trazia o que conseguia, mas nunca era o suficiente.

Olhei para ele, e ele acenou com a cabeça enquanto se levantava do chão e se virava. Observei-o voltar para sua posição de guarda.

Movendo-me um pouco e tentando não incomodar Nala, peguei a maçã e dei uma mordida. O sabor era doce, um sabor que eu sentia falta todos os dias quando estava com minha mãe.

Ela costumava fazer uma torta de maçã todo domingo na nossa pequena cozinha, e era nesse dia que a família Gama vinha nos visitar. Eles traziam o que precisávamos para a semana e iam embora depois de uma hora. Era pouco convencional, no mínimo, mas eles eram a única família que eu tinha além da minha mãe.

Comi a maçã em silêncio e, quando terminei, coloquei o caroço na cela ao lado para parecer que era de quem esteve lá por último.

Madaline não queria que eu comesse, afirmando que essa era a regra do meu pai, mas Beck a quebrou várias vezes. A única coisa que me era permitida diariamente era água fresca, que Beck me trazia toda manhã e noite. Eu precisava usá-la para beber e até para me lavar. Odeiava me lavar com a água, pois era congelante, e Beck tinha que me observar, o que era constrangedor.

Apostei que os servos eram tratados melhor do que eu, e isso dizia muito sobre esta matilha.

Muitos ômegas eram maltratados — eu costumava observar pelo buraco da fechadura do porão ou pela janela. Eles eram empurrados e espancados se desviassem da linha.

Gama Ryan nunca encostou um dedo neles, mas quem fazia isso era principalmente meu pai ou seu Beta.

Beta Logan e meu pai eram amigos desde o ensino médio. Ele obedecia a cada palavra do meu pai inclusive quando se tratava de me maltratar. Eu sabia o que meu pai disse a ele, e muitos membros da matilha acabaram acreditando.

Quem não acreditaria? Ele era o Alfa. Afinal, ele não mentia sobre nada, exceto quando se tratava de mim.

O silêncio pairava ao redor da cela até que ouvi a porta se abrir novamente.

Nala levantou a cabeça e olhou por cima do lençol, mas eu a empurrei de volta para dentro, a mantendo coberta enquanto a colocava debaixo da cama. Eu sabia quem estava vindo, e era inevitável que ela estivesse aqui, como sempre.

"Acorde!", ela gritou.

Tropecei para fora da cama e me encostei na parede, meus olhos se voltando para ela quando ela apareceu.

Madaline, desde o primeiro dia em que a vi, não mudou nada. Apenas as rugas ao redor dos olhos entregavam sua idade agora, e ela também parecia ter ganhado alguns quilos a mais.

Já eu, estava tão magra que, se alguém me visse agora e me pegasse no colo, não pesaria quase nada.

Madaline me encarou enquanto um sorriso sinistro surgia nos seus lábios.

"Que bom que você está acordada", disse ela, parada junto ao portão. "Tenho notícias para você. Mais tarde esta noite, receberemos a visita de Alfas de todas as matilhas próximas."

Congelei um pouco quando o ar frio invadiu a cela, mas por mais que eu quisesse me cobrir com o lençol, sabia que não podia, senão Madaline o levaria embora. Ela sabia que o lençol estava ali, mas nunca fez nada. Eu não queria dar mais motivos para o que ela fazia comigo.

Madaline olhou para mim e sorriu. "Esta noite, seu pai vai declarar que nosso filho, Michael, será o próximo na linha de sucessão para o cargo de Alfa."

Meu estômago se revirou. Aquele cargo deveria ser meu, mas depois de tudo que passei nesta matilha, preferiria morrer do que ser qualquer coisa para eles.

"Você sabe o que isso significa?", ela perguntou.

Balancei a cabeça negativamente enquanto o sorriso de Madaline se abria ainda mais.

"Ah, me deixe te contar", disse ela. "Isso significa que, depois de amanhã, quando todos tiverem voltado para suas matilhas, seu pai e eu poderemos matar você."

Meu coração se apertou.

Olhei para Beck, que parecia estar mais ereto que o normal.

"Você vai morrer", disse Madaline, com um tom feliz. "Mas devo admitir, vou sentir falta das nossas conversinhas e dos castigos."

Eu não disse nada.

Castigos era como ela chamava a tortura a que me submetia. Eu nunca soube por que ela vinha aqui até que, na semana passada, ela gritou de dor. Vi quando ela agarrou o peito, como minha mãe.

Meu pai estava fazendo com ela o que fazia com minha mãe — ele estava com outra mulher.

Eu costumava ver minha mãe sofrer todos os malditos dias quando ele estava com Madaline, e agora ela estava recebendo o mesmo tratamento. Não sabia se foi carma, mas quando ela sentiu aquela dor, a tortura que ela me infligiu foi inacreditável. Não consegui me levantar por dias por causa das marcas que tinha por todo o corpo, e algumas se tornaram cicatrizes horríveis.

"Pensando bem...", disse ela, me tirando dos meus devaneios. "Na verdade, vou esperar até mais tarde. Tenho que preparar a matilha antes que todos os Alfas cheguem. Afinal, sou a Luna."

Olhei para ela com os olhos arregalados, mas ela só riu.

Foi preciso tudo em mim para não revirar os olhos. O cargo era da minha mãe, não dela.

Depois que Madaline deu ao meu pai o herdeiro que ele queria, ele a marcou e a tornou sua Luna.

Ficar longe de todas as fofocas da matilha me fez ficar imaginando o que ele contou a eles sobre minha mãe, mas provavelmente tinha algo a ver comigo.

"Vejo você amanhã para a sua morte", Madaline sibilou, então se virou e olhou para Beck. "Pode ir agora. Não precisa mais ficar aqui embaixo."

Beck olhou para mim, mas se afastou. Havia apenas uma expressão vazia no seu rosto enquanto ele ia embora.

Meu coração se apertou novamente. Pude ouvir a empolgação na voz de Madaline enquanto ela dizia a Beck que seria ela a me matar, assim como fez com a minha mãe.

Que diabos eu ia fazer agora?

Não havia como negar isso agora, e eu tinha que aceitar meu destino. Eu morreria amanhã pelas mesmas mãos que mataram minha mãe.

Fechei os olhos e uma lágrima solitária escapou. Passei anos rezando para a Deusa da Lua, a mesma Deusa da Lua que deveria zelar por mim, mas desde que minha mãe morreu, fui obrigada a viver em isolamento, longe de todos. Por que eu confiaria nela agora?

Eu estava acabada.

Não havia mais ninguém para me salvar agora.

Só me restava aceitar que eu iria morrer.

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