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Capítulo 3 O homem por trás do ídolo
Na manhã seguinte, Helena acordou atrasada.
O despertador havia tocado três vezes.
Ela simplesmente não ouvira nenhuma delas.
- Ótimo. Perfeito. Maravilhoso.
Saiu da cama correndo.
Em menos de vinte minutos, tomou banho, vestiu-se, arrumou o cabelo da forma mais apresentável possível e pegou a bolsa.
Enquanto saía do apartamento, o celular vibrou.
Camila: "Já superou o encontro com seu namorado?"
Helena revirou os olhos.
Helena: "Ele não é meu namorado."
A resposta chegou imediatamente.
Camila: "Ainda."
Helena bloqueou temporariamente as notificações da irmã.
Por questão de sobrevivência.
---
A Escola Municipal Primavera ficava a poucos quarteirões de sua casa.
Quando chegou, várias crianças já corriam pelo pátio.
Algumas brincavam.
Outras conversavam.
Outras simplesmente gastavam energia de maneiras que Helena jamais entenderia.
- Professora!
Um pequeno furacão chamado Gustavo surgiu correndo.
- Bom dia, Gustavo.
- Você viu o jogo ontem?
- Vi.
- O Lucas Andrade fez um golaço!
- Fez mesmo.
- Eu vou ser igual a ele quando crescer.
- Então precisa estudar também.
O garoto fez uma careta.
- Essa parte eu não gosto.
Helena riu.
- Eu imaginei.
O restante da manhã passou rapidamente.
Entre atividades, desenhos e pequenas crises infantis sobre lápis desaparecidos, ela conseguiu esquecer completamente o encontro da noite anterior.
Ou quase.
Porque durante o intervalo, uma das professoras apareceu segurando um celular.
- Helena!
- Oi?
- Não era você no estádio ontem?
- Era.
- Então olha isso.
A colega mostrou a tela.
Uma reportagem esportiva.
Na foto principal aparecia Lucas deixando o estádio.
Ao fundo.
Quase escondida.
Estava Helena.
- Ah.
- Você apareceu numa matéria.
- Apareci metade do meu braço.
- Continua contando.
Helena devolveu o celular.
- Tenho coisas mais importantes para fazer.
- Como negar que conheceu o homem mais bonito do país?
- Exatamente isso.
As outras professoras começaram a rir.
Helena apenas voltou para a sala.
Determinada a não alimentar aquela história.
---
Do outro lado da cidade.
Lucas Andrade observava a fisioterapeuta encerrar uma sessão de recuperação muscular.
- Pronto.
- Acabou?
- Por hoje.
- Finalmente.
A profissional sorriu.
- Você reclama mais que os iniciantes.
- Porque os iniciantes ainda têm esperança.
Ela balançou a cabeça.
- Descansa algumas horas.
- Vou tentar.
Lucas deixou o centro de treinamento.
O corpo estava cansado.
Mas sua mente parecia ainda mais exausta.
A temporada vinha sendo intensa.
Jogos.
Viagens.
Entrevistas.
Patrocinadores.
Compromissos.
Cobranças.
Sempre cobranças.
Às vezes sentia que não existia espaço para simplesmente ser Lucas.
Todos queriam algo.
Um gol.
Uma foto.
Uma declaração.
Uma polêmica.
Qualquer coisa.
Enquanto caminhava pelos corredores internos do clube, algo chamou sua atenção.
Dois funcionários conversavam próximos à recepção.
- Foi muita sorte ninguém ter se machucado.
- Aquela moça salvou a situação.
- Verdade.
Lucas lembrou imediatamente.
A torcedora do estádio.
A garota que havia puxado outra pessoa para fora da trajetória da estrutura metálica.
Helena.
Ele não sabia por que recordava seu nome.
Mas recordava.
Talvez porque ela tivesse sido diferente.
Não pediu foto.
Não tentou prolongar a conversa.
Não parecia interessada na fama dele.
Parecia preocupada apenas em ajudar alguém.
E isso era raro.
Muito raro.
- Pensando em alguma coisa?
A voz interrompeu seus pensamentos.
Rafael Costa aproximou-se.
Companheiro de equipe.
Melhor amigo.
- Nada importante.
- Mentira.
- Por quê?
- Porque sua cara de "nada importante" é diferente da sua cara de "nada aconteceu".
Lucas soltou uma risada.
- Você passa tempo demais comigo.
- Infelizmente.
Os dois seguiram pelo corredor.
- Então? - insistiu Rafael.
- Conheci alguém ontem.
- Interessante.
- Não desse jeito.
- Claro.
- Estou falando sério.
- E eu também.
Lucas balançou a cabeça.
Sabia que não venceria aquela discussão.
---
Naquela noite.
Helena estava sentada no sofá assistindo a uma série quando o telefone tocou.
Era Camila.
Novamente.
- O que foi agora?
- Liga a televisão.
- Por quê?
- Só liga.
- Camila...
- Liga.
Helena suspirou.
Pegou o controle remoto.
Mudou para um canal esportivo.
Uma reportagem sobre o jogo da noite anterior estava sendo exibida.
Lances.
Entrevistas.
Comentários.
Nada fora do comum.
Até que uma imagem apareceu.
A gravação da área próxima ao corredor onde o acidente acontecera.
O vídeo mostrava exatamente o momento em que Helena puxava a mulher para longe da estrutura.
- Ah, não.
- Ah, sim - respondeu Camila.
- Isso está passando na televisão?
- Está.
- Meu Deus.
- Você ficou famosa.
- Por dez segundos.
- Ainda conta.
Helena afundou no sofá.
Desejando desaparecer.
A reportagem durou menos de um minuto.
Mas isso já parecia mais do que suficiente.
Quando terminou, ela desligou a televisão.
- Vai sobreviver - disse Camila.
- Espero que sim.
- Boa noite, celebridade.
- Tchau, Camila.
A ligação encerrou.
O apartamento ficou silencioso.
Helena acreditou que o assunto finalmente morreria ali.
Ela não sabia que, naquele mesmo instante, alguém observava aquele mesmo vídeo em outro lugar da cidade.
E sorria ao reconhecer a garota que parecia completamente alheia ao impacto que havia causado.
Isso é tudo que está disponível no momento.
Continue lendo para acompanhar a história.
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