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Capítulo 3 II
Ao abrir os olhos um clarão lhe incomodou, uma luz tão forte que tornou a fechá-los.
Ana está deitada em uma cama desconfortável de hospital, bastou alguns segundos escutando os sons de bips para ela ter essa certeza. Seu corpo inteiro doía, sua garganta está seca e ela não se lembra exatamente do que aconteceu para estar ali.
Sabia que estava em um carro a caminho de algum lugar, com ele e... Alguns flashes nublavam sua mente, mas nada concreto. Somente que...
Oh Deus! O caminhão... Um caminhão enorme surgiu à nossa frente... O carro capotou e caiu num buraco.
Paul ou não era ele!? Sua mente estava confusa e não conseguia distinguir o certo do errado.
― Paul ― mesmo com a boca seca ela gritou por ele, sua garganta ardeu com o esforço.
Uma tosse seca começa a lhe incomodar e ela levantou sua mão livre do soro, que está preso a sua veia, para colocar sobre a boca e só então percebeu que alguém a segurava firmemente e havia soltado com brusquidão. Ela abriu os olhos ignorando o incômodo da luz e o viu... De pé ao lado de seu leito.
― Estou aqui. Fica calma.
A voz passa um pouco de calma para o seu ser, assim como ele pediu.
Paul havia ficado feliz por ela finalmente ter despertado, depois de quatro longos dias. Dois haviam sido em coma induzido.
― Paul ― sussurra seu nome com puro alívio. Seus olhos se enchem de lágrimas.
― Como se sente? Está com alguma dor?
Os olhos dele estão vermelhos e transbordam preocupação.
― Você está vivo... Está bem. Graças a Deus! ― fala emocionada por vê-lo bem.
― Sim, estou vivo. Bem, já é outra questão. Eu vou chamar o médico para verificar você ― responde frio, não existem mais resquícios do homem calmo e emocionado de antes.
Sem dizer mais uma palavra sequer, ele sai por uma porta que só agora Ana vê.
Olhando ao redor ela tem a completa confirmação de que está mesmo em um hospital. O quarto é frio e estéril. Tem um suporte com o soro preso em seu braço, uma máquina monitora seus batimentos cardíacos. Suas costelas doem, seu pé está com gesso e pendurado num apoio. Sua cabeça também dói. Pelo visto não estava tão bem quanto ele, pensou ela ironicamente.
Ao lado de sua cama tem uma poltrona que está bem próxima dela. Paul estive acampado ali desde o momento em que Ana foi instalada naquele quarto.
Ela se perguntava o que deu em seu amado. Ana não sabia os motivos, mas ele estava estranho. Não entendia sua reação tão fria e com razão, para ela estava tudo bem entre eles.
Logo um médico entra juntamente com uma enfermeira, Paul não voltou com eles. Começaram a fazer alguns testes e disseram que está tudo bem com ela e seus bebês.
Mesmo depois de já ter tomado água com ajuda da enfermeira, Ana sente que sua boca e garganta voltam a ficar seca.
― Como assim bebês? ― indaga confusa.
― A Srta. está grávida, de quase 13 semanas para ser mais exato. E sim, apesar do acidente que sofreu, seus bebês, estão bem ― profere o médico.
― Eu estou grávida?
Surpresa é pouco para definir o sentimento correto que ela tem no momento.
― Sim, está ― afirmou ele com um sorriso acolhedor. Anotando algo em um papel e entregando para a enfermeira. ― Pode aplicar os medicamentos e pedir algo para ela comer.
― Sim, senhor ― anuiu a jovem que saiu do quarto em seguida.
― Medicamentos? Isso não vai fazer mal para o meu bebê? ― questionou Ana preocupada.
― Não, Srta. Ana. Não se preocupe, sei o que estou fazendo. Seus bebês estão bem e vão continuar ― falou o médico com calma.
― Oh Deus! O senhor está dizendo bebês e não bebê?
Uma tontura lhe assalta e Ana quase desmaia.
― Sim, bebês. Tivemos que fazer um ultrassom para verificar a situação de sua gestação assim que descoberta através de um exame de sangue, o Beta HCG. É uma verificação padrão nos pacientes do sexo feminino, em idade fértil, quando dão entrada no hospital. E foi assim que vimos que sua gravidez é de gêmeos ― explicou o médico bem atencioso.
― Parece que a mira foi certeira, dois numa tacada só. Quanta sorte ― falou Paul sarcástico ao adentrar novamente o quarto.
Ana ainda estava em choque pela notícia, mas não deixou de notar a frieza no tom de voz dele. ― Bom, eu vou verificar seus exames e dependendo deles amanhã mesmo terá alta. Mas deve manter repouso por mais tempo. Você tem uma costela machucada e essa perna quebrada. A Srta. teve sorte em não perder os bebês, portanto muito cuidado e repouso é o recomendado.
― Não se preocupe doutor, ela será bem cuidada. Eu mesmo vou me encarregar disso ― assegurou Paul.
Um sorriso discreto se insinuou nos lábios de Ana por suas palavras.
― Certo. Até mais.
O doutor Michael pegou sua prancheta e se retirou, não antes de dar uma boa olhada para o casal. Paul se aproximou, mas não fazia contato visual com ela.
“O que ele tem?”, Ana se perguntava a todo momento.
― Paul? ― chamou, mas ele parecia em outro mundo e bem distante. Após chamar uma segunda vez ele respondeu.
― Oi? Precisa de algo? ― perguntou antes de se acomodar na poltrona ao lado de sua cama.
Ana tentou pegar sua mão, mas ele não deixou. ― Você pode me dizer o que aconteceu? Não estou entendendo nada. Você já sabia dos bebês?
Paul cerrou os olhos, enquanto analisava seu rosto com atenção.
― Você sofreu um acidente de carro, não lembra? E não sou eu que te devo explicações e sim você que me deve e muitas... ― disse ríspido. ― Sim, já sei sobre os bebês. Devo dizer: meus parabéns? ― suas palavras pingam sarcasmo e ironia.
Ana semicerrou os olhos e se ergueu um pouco tentando sentar, ele ajudou subir a cama apertando um botão e, assim, ela ficou um pouco sentada, mesmo com a perna pendurada num apoio. Seu corpo protestava um pouco, mas ela precisava disso. Olhar em seus olhos e tentar entender toda essa frieza dele.
― Peço que seja mais específico. Não estou entendendo esse sarcasmo e ironia na sua voz, sua frieza comigo. Na verdade não consigo entender muita coisa, minha mente está tão confusa. Eu lembro que tinha um caminhão... Espera, você... Não quer? Você não quer os bebês, é isso?
Pânico tomou conta de todo seu corpo, se Paul fosse contra essa gravidez ela não sabia como iria ser dali em diante.
Paul se aproximou, colocando seus cotovelos sobre seus joelhos e a encarando bem sério. Mandíbula travada e olhos cerrados.
― Quer que eu seja claro? Ok, então. Me explica como começou seu caso com meu irmão? ― disparou ríspido.
― Caso com seu irmão? Que história maluca é essa, Paul? ― gritou Ana horrorizada com a acusação. Paul continuou a encará-la, incrédulo.
― Sim, não encontrei outra razão para você estar em um carro com ele fugindo na calada da noite ― acusou.
― Eu não estava fugindo com ele... ― berrou Ana em resposta.
― Eu vi as malas, Ana ― interrompeu ele.
― Não... ― Ana tentou falar, mas foi interrompida mais uma vez.
― Então me explica o que vocês dois estavam fazendo em um carro a caminho do aeroporto? Sabe, minha cabeça também está confusa e não consigo entender esse pequeno detalhe.
Paul era um homem de honra e caráter, mas não era trouxa e não iria se deixar ser enganado de forma tão descarada.
― Não... Eu estava com você, era você! Eu estava fugindo com você! ― articula Ana, desesperada.
― Era só o que me faltava... Você nunca nos confundiu. Tente outra coisa ― rosnou Paul. Ele estava furioso.
― Pelo amor de Deus para de me tratar assim ― pediu ela começando a ficar nervosa e já à beira das lágrimas.
― Sério que vai dizer que confundiu nós dois? Somos muito diferentes tanto por dentro quanto por fora e você sabe muito bem disso ― disse ele um pouco mais rude do que desejava.
Foi então que Ana passou a entender um pouco suas acusações e as coisas começaram a ficar claras para ela. Ela percebeu que havia sido enganada pelo seu cunhado e foi assim que aconteceu o acidente. Lembrou-se de tudo que tinha acontecido. Um sentimento de ira tomou conta de todo o seu ser. Não somente por Charlie ter feito isso com ela, mas também com Paul que estava desconfiando dela.
― Nunca confundiria vocês ― sussurrou ela.
― Isso não vem mais ao caso. Vou te levar pra casa e cuidar de você e desses bebês.
― Como assim não vem ao caso? ― explodiu Ana. ― É claro que vem, você está me chamando de mentirosa. Duvidando de mim. Da minha honra ― gritou ela.
― Não te chamei de mentirosa. São os fatos. Não quero ouvir mais nada sobre esse assunto, não agora ― falou Paul, passando as mãos no rosto.
Ele estava cansado depois de tantos dias ali. Sua cabeça não havia parado um segundo sequer, sempre pensando e repensando os momentos de amor e as declarações feitas por ambos, estava decepcionado.
― E vai simplesmente me acusar e condenar, sem chance de defesa. É isso, Paul O'Malley? ― indagou ela, furiosa.
― Por enquanto, sim. ― Ele sugou o ar com força. ― Ana, você não pode se alterar no estado em que se encontra, já passou por um acidente grave e teve sorte de ainda estar grávida. Você ouviu o que o médico disse. E eu preciso te contar algo importante ― pediu com a voz mais mansa. Ele não queria toda aquela discussão, mas não pôde se conter ao acusá-la.
― Estou ouvindo. ― Ana disse depois de suspirar e enxugar uma lágrima que escorreu pelo seu olho.
― Assim que soube do acidente e de sua gravidez... Seu pai disse que não é mais bem vinda na casa dele ― contou com cautela.
Mesmo depois de tê-la deixado nervosa Paul não queria que ficasse mais ainda ao saber as novidades. Ele amava aquela mulher independente do que tinha feito e cuidaria dela e dos bebês. Nada lhes faltaria.
― O quê? ― gritou Ana.
― Não se preocupe com nada. Minha família está radiante com essa gestação e... Mesmo que não estivessem eu não iria te deixar na mão. Vou cuidar de vocês ― afirmou Paul com convicção.
― Por quê, se não acredita em mim? Não preciso da sua piedade. Posso me virar sozinha ― grunhiu já aos prantos.
― Não chora! ― pediu ele sem saber o que fazer. ― Paul, eu realmente não estou entendendo nada do que está me falando ― tentou mais uma vez. ― Ele chegou lá em casa diferente... Era você, eu tinha certeza que era... E então no carro...
― Não conta mais nada ― Paul praticamente suplicou. ― Eu não quero ouvir nada agora.
― Mas você tem que saber a verdade ― implorou ela.
― Olha, eu também não estou entendendo nada. Tenha certeza de que sou o mais perdido aqui. Mas esse não é o momento.
― Tudo bem. E... Onde está o Charlie? Ele pode esclarecer tudo isso num piscar de olhos ― indagou enxugando as lágrimas bruscamente.
― É melhor você descansar e amanhã conversamos com calma. ― Paul estava claramente desviando do assunto.
― Eu não quero esperar pra amanhã ― disse entre dentes.
― Ana, você não pode se alterar...
― Eu já estou alterada, Paul.
― Ana...
― Droga. O que houve com você? ― gritou ela.
― O que houve comigo? Eu fui enganado por você. Fui traído pela mulher que amo e entreguei minha vida ― esbravejou Paul, mais uma vez, perdendo seu controle.
― Paul, me escuta...
― Não tem o que escutar, Ana. Eu vou embora ― decreta.
Paul saiu do quarto e tudo que ela fez foi chorar até dormir.
Isso é tudo que está disponível no momento.
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