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Capítulo 2 Taverna
A taverna Lobo & Luar estava lotada naquela noite, tomada pelo calor sufocante de corpos apertados em meio às mesas de madeira gastas. Era um contraste quase absurdo com o frio cortante que dominava as ruas da cidade conforme o outono avançava. Do lado de fora, o vento assobiava entre os becos estreitos e carregava folhas secas pelas pedras molhadas da estrada. Lá dentro, porém, o ar era pesado pelo cheiro de cerveja derramada, lenha queimando na lareira e pão recém-assado saindo da cozinha. Risadas altas ecoavam pelo salão, misturadas ao som irregular de um alaúde desafinado tocado por um homem bêbado perto do balcão. Canecas batiam umas contra as outras, cadeiras arrastavam pelo chão áspero e vozes se sobrepunham em uma confusão constante. Ninguém prestava atenção em ninguém, exatamente o tipo de lugar perfeito para alguém tentando desaparecer.
Corinne sentou-se em um dos cantos mais escuros da taverna, afastada da luz dourada das lanternas penduradas no teto. Puxou o capuz sobre os cabelos desgrenhados e manteve o rosto parcialmente escondido, observando o movimento ao redor sem realmente enxergá-lo. Seus dedos permaneciam fechados em punhos sobre a mesa de madeira, tensos ao ponto dos nós dos dedos estarem esbranquiçados. Não era raiva, era medo. Um medo silencioso e crescente que fazia seu estômago se contorcer.
Ela sentia aquilo outra vez. A rigidez lenta se espalhando por suas mãos, como se algo estivesse endurecendo sob sua pele pouco a pouco. O peso do colar contra sua garganta parecia maior a cada hora, quente demais, vivo demais. A pedra vermelha repousava sobre seu peito como um coração estranho pulsando em ritmo próprio, lembrando-a constantemente da contagem regressiva cruel que agora governava sua vida.
- Você está com a cara de quem viu um fantasma. Ou pior, perdeu uma aposta - disse uma voz zombeteira ao seu lado.
Corinne fechou os olhos por um instante, soltando um suspiro cansado. Não precisou erguer a cabeça para reconhecer aquela voz.
- Se fosse só isso, eu estaria abrindo uma garrafa para comemorar.
Loralie deslizou para o banco ao lado dela com a naturalidade de alguém acostumada a entrar e sair das sombras sem ser notada. Tirou as luvas de couro com calma antes de se acomodar, observando Corinne de lado. Seus cabelos ruivos estavam presos em um penteado simples e prático, embora algumas mechas rebeldes caíssem sobre seu rosto sardento. Havia diversão constante em seus olhos claros, aquele brilho travesso de quem parecia enxergar o mundo inteiro como uma grande piada particular. Se Corinne era uma tempestade prestes a desabar, Loralie era o vento brincalhão que vinha antes da chuva.
- Então conta. - Loralie puxou um pedaço de pão ainda quente da cesta sobre a mesa. - O que foi dessa vez? Aposto três moedas de prata que envolveu você sendo imprudente e uma consequência terrível logo depois.
- Você me conhece bem demais - Corinne soltou uma risada seca, sem humor.
- É um talento.
Por alguns segundos, Corinne ficou em silêncio. Seus dedos passaram lentamente pelo próprio rosto, como se tentasse reunir coragem suficiente para dizer aquilo em voz alta. Só de pensar, o aperto em seu peito aumentava.
- Eu roubei um colar.
- Hmm. - Loralie arqueou uma sobrancelha enquanto mordia o pão. - Nada fora do normal até agora.
- De uma casa abandonada.
- Certo, está ficando mais interessante... - Loralie inclinou-se um pouco para frente, genuinamente curiosa.
Corinne engoliu em seco antes de continuar: - E fui amaldiçoada.
- O quê? - O pedaço de pão parou a meio caminho da boca de Loralie. - Você está brincando, né?
- Queria estar.
Corinne puxou discretamente a gola do casaco para baixo, revelando por um instante o brilho vermelho pulsando sob o tecido escuro. A luz rubra refletiu nos olhos de Loralie antes que Corinne escondesse o colar novamente.
- Ah, merda - O sorriso da ruiva desapareceu.
- Tenho até a próxima lua cheia antes que meu coração se transforme completamente em pedra. - A voz de Corinne saiu mais baixa dessa vez, pesada. - E a única forma de quebrar a maldição é matando um príncipe herdeiro.
O barulho da taverna pareceu distante por alguns segundos. Loralie piscou devagar, encarando a amiga como se esperasse que ela começasse a rir e dissesse que tudo não passava de uma brincadeira cruel. Mas Corinne apenas permaneceu ali, imóvel, o olhar cansado perdido sobre a mesa.
Então Loralie soltou uma gargalhada, alta e escandalosa. Ela jogou a cabeça para trás enquanto ria tanto que precisou apoiar uma das mãos na barriga para recuperar o fôlego, enquanto dizia: - Você conseguiu se ferrar de um jeito completamente inacreditável!
- Você está rindo?! - Corinne lançou um olhar mortal para ela.
- É claro que estou! - respondeu entre risadas. - Corinne, das mil maneiras possíveis de morrer nesse mundo, você escolheu justamente a mais dramática!
- Eu não escolhi nada!
- Ah, escolheu sim. Você viu um objeto amaldiçoado numa casa abandonada e pensou: "vou tocar nisso". Isso definitivamente foi uma escolha.
Corinne bufou irritada e cruzou os braços, afundando ainda mais no banco.
- Muito engraçado - Corinne bufou irritada e cruzou os braços, afundando ainda mais no banco. - Agora me ajuda a sair dessa.
Loralie respirou fundo, finalmente tentando recuperar a compostura, embora ainda estivesse segurando o riso.
- Certo, certo, vamos pensar - Ela apoiou os cotovelos sobre a mesa. - Então você precisa matar um príncipe herdeiro.
- Exatamente.
- O que é um problema enorme, considerando que príncipes e princesas normalmente não ficam desfilando pelas ruas esperando um punhal no pescoço. Além disso, assassinato real costuma terminar em execução pública. O que, honestamente, talvez seja menos doloroso do que virar uma estátua.
- Você não está ajudando - Corinne deixou a cabeça cair sobre a mesa com um gemido abafado.
- Estou ajudando emocionalmente - Loralie sorriu de canto, os olhos brilhando outra vez. - É diferente.
- Estou ajudando emocionalmente. - Loralie sorriu de canto, os olhos brilhando com diversão outra vez. - É diferente.
Corinne soltou um suspiro longo e cansado, apoiando os cotovelos sobre a mesa enquanto passava as mãos pelo rosto. O calor da taverna já não parecia suficiente para afastar o frio que sentia por dentro.
- Acho que é melhor aceitar meu destino de uma vez - Sua voz saiu baixa, amarga. - Todos os príncipes e princesas herdeiros estão em reinos distantes. Eu morreria antes mesmo de conseguir chegar até um deles. - Ela desviou o olhar para a lareira acesa do outro lado do salão, observando as chamas dançarem enquanto tentava ignorar o peso do colar contra sua pele. - E Belladonna perdeu o único herdeiro do trono para aquela doença maldita que devastou metade da cidade no inverno passado - continuou. - Então acabou, eu vou morrer.
Por um instante, Loralie permaneceu em silêncio, girando distraidamente a caneca entre os dedos.
Então arqueou uma sobrancelha, e lembrou: - Mas o falecido príncipe Adrian não era o único herdeiro de Belladonna.
- Como assim? - Corinne ergueu os olhos imediatamente.
- Ah, então você realmente nunca ouviu os boatos - Loralie soltou uma risadinha incrédula. - Você vive nesse reino há anos e consegue ignorar todas as fofocas políticas, impressionante.
- Loralie!
- Certo, certo - Ela se inclinou um pouco para frente, abaixando a voz mesmo em meio ao barulho da taverna. - Aparentemente, anos atrás, o rei teve um caso com uma mulher da Casa Mordrake.
O nome fez Corinne franzir levemente a testa. A Casa Mordrake já havia sido uma das famílias mais poderosas de Belladonna, conhecida em todo o reino por sua tradição militar quase brutal. Durante gerações, seu brasão esteve presente nas maiores guerras do continente, e seus membros eram criados desde a infância para empunhar espadas antes mesmo de aprenderem a escrever o próprio nome.
Não eram apenas soldados.Eram estrategistas temidos, comandantes implacáveis e guerreiros treinados para sobreviver a qualquer campo de batalha. Diziam que o antigo patriarca da família havia sido um homem tão brilhante quanto cruel. Um comandante capaz de vencer batalhas mesmo em desvantagem numérica absurda, conhecido por transformar derrotas inevitáveis em massacres calculados. Sob seu comando, a Casa Mordrake acumulou riquezas, terras e influência suficiente para rivalizar discretamente com algumas famílias reais menores. Mas tudo começou a ruir após sua morte. Sem o velho patriarca para manter a família unida, os sucessores afundaram lentamente a própria casa em disputas internas, alianças fracassadas e decisões desastrosas. Os filhos herdaram o orgulho e a arrogância do falecido, mas nenhum possuía sua inteligência. Os anos transformaram a antiga linhagem gloriosa em uma sombra do que já havia sido. Parte das terras foi vendida para pagar dívidas, antigos aliados abandonaram a família e muitos soldados juraram lealdade a outras casas nobres mais estáveis. Alguns membros dos Mordrake passaram a trabalhar como mercenários para sobreviver, enquanto outros desapareceram completamente dos registros da corte. Ainda assim, mesmo decadente, o nome Mordrake continuava carregando certo peso dentro de Belladonna.
- Dessa relação nasceu Dimitri - Loralie contou.
- O rei teve outro filho? - Corinne piscou lentamente.
- Teve. E pelo que dizem, a mãe morreu pouco tempo depois do parto. Então o rei assumiu a criança e o colocou sob proteção da guarda real. Alguns dizem que foi culpa, outros dizem que foi medo de criar um inimigo dentro do próprio reino. - Loralie deu de ombros antes de continuar: - De qualquer forma, Dimitri cresceu entre soldados e treinamento militar. E, sinceramente, parece que herdou o pior, ou o melhor, da Casa Mordrake. Dizem que ele luta como um demônio. Alguns cavaleiros juram que ele venceu homens adultos quando ainda era adolescente. Outros dizem que ele quase nunca perde uma batalha. E tem gente que acredita que o rei mantém Dimitri longe da corte justamente porque muitos nobres prefeririam vê-lo no trono do que o falecido Adrian.
Corinne soltou um suspiro impaciente.
- Obrigada pela aula improvisada sobre os governantes do reino onde eu moro, mas isso não ajuda em nada - murmurou. - Mesmo que ele tenha sangue real, ainda preciso matar um príncipe herdeiro para quebrar essa maldição, e sua sugestão é apenas um cavaleiro.
- Mas é exatamente esse o ponto, Corinne - Ela inclinou-se sobre a mesa, quase triunfante. - Com a morte do príncipe Adrian no último inverno, Dimitri se tornou o novo herdeiro do trono.
Por um instante, Corinne apenas encarou a amiga. E então algo mudou em sua expressão, uma pequena centelha de esperança.
- Espera, o quê?
- O rei não teve outros filhos legítimos com a rainha - continuou Loralie - Então, querendo a corte ou não, Dimitri agora é o próximo na linha de sucessão. Quando o rei morrer, Belladonna será dele.
O coração de Corinne bateu mais forte. Talvez ainda existisse uma saída, talvez ela não estivesse condenada afinal. Mas a esperança durou pouco, Loralie fez uma careta antes de dar outro gole na bebida.
- O problema é que, pelo que ouvi, Dimitri está fora do reino há semanas.
A expressão de Corinne caiu imediatamente.
- Onde?
- Na fronteira sul - respondeu Loralie - Acho que liderando uma missão com os cavaleiros reais. Ninguém sabe exatamente o motivo, mas ouvi rumores sobre conflitos perto das montanhas.
- Claro, porque o destino claramente me odeia. - Corinne deixou escapar uma risada fraca, quebradiça, daquelas que nascem mais do cansaço do que do humor. Ela afundou ainda mais no banco de madeira gasto, sentindo o desespero retornar devagar ao peito, pesado como uma pedra sendo colocada sobre seus pulmões. As mãos tremiam levemente sobre a mesa, escondidas sob as mangas compridas. O calor abafado da taverna parecia sufocá-la agora, o cheiro de cerveja derramada, fumaça e gordura queimando na cozinha embrulhava seu estômago. - Eu morreria antes de conseguir chegar até lá.
- Honestamente, nada parece conspirar ao seu favor - Loralie soltou o ar pelo nariz, apoiando o cotovelo sobre a mesa enquanto observava a amiga com um misto de pena e preocupação. A luz amarelada das velas dançava em seus olhos cansados.
No balcão, alguém bateu uma caneca com força demais na madeira, arrancando novas gargalhadas dos bêbados reunidos ali. O alaúde desafinado voltou a ecoar pela taverna, rápido e irritante, acompanhado de uma voz rouca tentando cantar alguma música obscena. Em outro momento, Corinne talvez revirasse os olhos ou reclamasse do barulho. Agora, porém, tudo parecia distante demais, como se estivesse presa atrás de uma parede invisível enquanto o resto do mundo seguia normalmente. Ela manteve o olhar perdido na bebida intacta à sua frente. O líquido refletia a luz trêmula das velas, distorcendo seu próprio reflexo.
- Talvez eu simplesmente devesse desistir - murmurou, quase para si mesma. - Seria menos humilhante.
- Não fala isso - Loralie franziu o cenho imediatamente.
Corinne apertou os lábios, desviando o olhar. Havia algo exausto nela, algo que ia além do medo. Era o tipo de cansaço que se acumulava depois de tantas portas fechadas, tantas tentativas frustradas e tantas noites sem dormir pensando em possibilidades impossíveis.
Por fim, Loralie se levantou devagar, empurrando o banco para trás com um rangido baixo.
- Vamos para casa. - disse ela, pegando a própria capa. - Você precisa descansar antes de desmaiar de tanto pensar nisso. Amanhã tentamos encontrar outra solução, ou pelo menos uma menos suicida.
Corinne hesitou por alguns segundos antes de apenas concordar em silêncio.
Ela se levantou lentamente, sentindo as pernas pesadas. Jogou algumas moedas sobre a mesa para pagar as bebidas que mal haviam tocado e puxou o capuz sobre os cabelos loiros. O tecido cheirava levemente à chuva antiga e poeira.As duas atravessaram a taverna em meio ao caos barulhento. Um homem cambaleante quase esbarrou em Corinne, mas Loralie o afastou com um olhar irritado antes que qualquer coisa acontecesse. Próximo ao balcão, o taverneiro gritava com alguém sobre uma dívida enquanto o músico seguia torturando o pobre alaúde sem qualquer vergonha.
Corinne empurrou a porta de madeira pesada, e imediatamente o ar frio da noite atingiu seu rosto. Ela fechou os olhos por um breve instante. Lá fora, a cidade parecia completamente diferente da desordem sufocante da taverna. As ruas estreitas estavam úmidas pela chuva recente, refletindo a luz dourada dos lampiões espalhados pelas esquinas. O vento noturno balançava as placas das lojas fechadas e fazia sua capa dançar ao redor das pernas.
Por um momento, Corinne apenas respirou. Mesmo com o peito ainda apertado, o frio da madrugada parecia arrancar parte daquela sensação sufocante de dentro dela.
Loralie parou ao seu lado na escadaria da entrada e a observou de canto.
- Você está pensando demais de novo.
- Porque tudo pode dar errado.
- Tudo sempre pode dar errado - Loralie respondeu, puxando a capa contra o corpo. - Ainda assim, você continua viva até agora.
Corinne soltou uma pequena risada nasal, cansada. Então as duas começaram a caminhar pela rua silenciosa, desaparecendo lentamente entre as luzes trêmulas da cidade adormecida.
Lista de capítulos
10 capítulos no total
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