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Capítulo 2 O príncipe da honra e a virgem

Arranco a camiseta e jogo-a no chão, preparando-me para o banho. Meu olhar cai para uma das muitas tatuagens que carrego pelo tronco, e trinco os dentes ao ver as inscrições em persa que significam honra. Não desvio meus olhos ao puxar o celular do bolso e discar o número de Richard, mas o faço quando ele atende, encarando o teto ao invés.

— E então? — meu irmão pergunta do outro lado da linha, apressado. Ouço uma conversa ao fundo, que diminui após alguns instantes quando se afasta dos demais.

Digo para ele o que aprendi nos últimos dias, nada que fosse inédito para nós dois, mas que é pior do que antecipei.

— Vou me encontrar com Elijah amanhã — digo quando termino o relato conciso.

— Tem certeza disso? — questiona, a insatisfação palpável na voz. — Tenho — garanto. — Vou aproveitar a noite hoje para repassar algumas informações. Recebi o dossiê que pedi ao nosso detetive que preparasse sobre Madelaine, ainda não tive tempo de abrir a pasta e…

— Você vaitirar a noitede folga — Richard interrompe. Solto uma risada seca com a sugestão absurda em um momento crítico. — Seu rei está te dando uma ordem, general — completa, prevendo meu protesto.

— Meu rei é um pau no cu — respondo, esfregando o rosto. A resposta malcriada arranca uma risada dele, a primeira que ouço desde que o problema começou, e é fácil me lembrar que é isso que estou tentando garantir.

— Vou contatarElijah e programara reunião de vocês dois. Confirmamosos detalhesde tudo quando acordar, mas, por hoje,você e seus homens vão se divertir um pouco.

— Sim, senhor — respondo com ironia e posso visualizar Richard revirando os olhos.

Despeço-me, mas, antes que desligue, ouço sua voz de novo.

— Você vai ficar bem?

— Já sobrevivi a guerras, irmão. Acho que consigo sobreviver a um casamento indesejado.

Nego o copo de bebida que é estendido na minha direção. Estou de folga, é verdade, mas a última coisa que preciso é estar de ressaca pela manhã quando me encontrar com o rei. O bar do hotel não está cheio — a combinação de ser dia de semana com o fato de o estabelecimento ser conhecido por ser um lugar discreto ideal para figuras públicas permite isso. Não tenho qualquer interesse em ficar aqui por muito tempo, mas vim porque sei que meus homens precisam disso. Deus sabe que eles precisam de um descanso depois dos últimos meses.

— O senhor tem certeza de que não quer vir com a gente? — um deles pergunta. Por cima do seu ombro, vejo os outros quatro conversando animados como garotinhos sobre a boate para onde querem ir, pela primeira vez em muito tempo.

— Não a menos que eu tenha uma arma apontada para a minha cabeça — respondo. — Divirtam-se. Estejam prontos para sair às oito amanhã.

Ele assente e se despede, depois de conferir muitas vezes que é uma boa ideia me deixar sozinho.

— O que você tem contra diversão?

Sentado em uma cadeira alta do bar, os antebraços apoiados sobre o balcão, viro o rosto em direção à voz feminina que vem de algum ponto à minha esquerda. Encontro uma mulher sentada ao meu lado, a algumas banquetas de distância, uma taça de vinho pela metade e olhos travessos na minha direção.

— Nada. Só tenho um conceito diferente de diversão — respondo, tomando alguns segundos para analisá-la com atenção quando ri.

O vestido curto deixa à mostra sua perna quase inteira, em um rosa delicado contra a pele preta. Um colar cai pelo seu colo, indicando o caminho pelo decote. O cabelo cai em ondas pelos ombros, um sorriso malicioso contorna os lábios quando minha inspeção finalmente alcança seu rosto. — E você é…? — pergunto. Um brilho de diversão cruza as íris escuras diante da pergunta. Suas feições são familiares, mas não consigo associar um nome ao rosto. Não é de se estranhar; é provável que todas as pessoas hospedadas nesse hotel sejam conhecidas por alguma coisa. Talvez seja alguma atriz ou modelo de quem definitivamente não vou me lembrar.

Sem pressa, ela apanha a taça sobre o balcão e a leva à boca. Demora alguns segundos antes de dar um gole minúsculo. Acompanho com interesse o movimento da língua pescando uma gota no lábio inferior.

— Isso importa? — responde por fim, apoiando a taça no balcão antes de se voltar a mim de novo.

— Nem um pouco.

Ela sorri, levantando-se da banqueta. Alisa o vestido devagar, concedendo-me a visão do seu corpo por completo. Tomba a cabeça para o lado, piscando devagar. Enrosca os dedos ao redor da alça da bolsa pendurada nas costas da cadeira. Tira os olhos de mim apenas para mexer no celular. Ela franze o nariz, insatisfeita com o que quer que veja na tela.

— Sentiram minha falta — diz com um suspiro, guardando o aparelho de novo na bolsa. — Tenho alguns minutos.

— E o que você quer fazer nesses minutos? — pergunto, desligando a voz que pergunta quem sentiu sua falta e o que vai acontecer depois desses minutos. Estou de folga. A última para sempre, já que amanhã serei um homem prometido a alguém.

Ela abre um sorriso de puro deleite e tomba a cabeça para o lado.

— Por que você não me mostra o seu conceito de diversão? Solto uma risada, balançando a cabeça.

Quem é essa mulher? Sei que não vou ter a resposta para essa pergunta quando ela vira as costas para mim, andando em direção à saída do bar. Repreendendo-me pelo comportamento errático que não é do meu feito, eu a sigo. Espero encontrá-la perto dos elevadores e me surpreendo ao vê-la seguir em direção às escadas da saída de emergência. Com a mão na porta, ela me olha por cima do ombro. Ergo as sobrancelhas em uma pergunta silenciosa, e a mulher revira os olhos.

— Está louco se acha que vou me trancar em um quarto com um homem desconhecido — diz, condescendente.

— Certo — concordo, estreitando os olhos para o tom que diz que me acha um idiota por precisar de explicação para isso. — E como aí é mais seguro?

Ela dá de ombros.

— Posso sempre te empurrar escada abaixo — explica, empurrando a porta e entrando no lugar escondido.

Sorrio, surpreso e entretido. Sigo-a sem mais perguntas, sem dizer que ameaças aos príncipes de Delway não costumam ser lidadas com essa leveza toda. Abraço a anonimidade oferecida e fecho a porta atrás de nós dois. Longe do luxo ostensivo do hotel, estamos cercados de degraus de cimento e luzes fracas. Ela solta a bolsa no chão e apoia as costas na parede. No rosto, um convite. Um que aceito com prazer.

Cubro seu corpo com o meu, apoiando uma mão na sua cintura e a outra na parede ao seu lado. Minha boca paira sobre a sua, sua respiração quente contra o meu rosto, os lábios entreabertos roçando na minha pele. Escorrego a mão pela lateral do seu corpo, sinto seu sorriso quando enfio a mão por baixo do tecido do vestido. Hesito, confuso pela situação tão fora do meu normal. Tão fora do meu controle. Então ela suga meu lábio inferior, eu aperto sua coxa quente e meu juízo tira folga por alguns minutos.

Engulo o gemido de surpresa quando tomo sua boca. Sinto as unhas na minha pele, dolorosas em meu pescoço quando puxa meu rosto para mais perto do seu. Não sei o que ela está buscando de um desconhecido, mas procura com afinco na minha boca. Agradeço por não ter raspado o cabelo de novo quando os dedos afoitos buscam pelos fios. Imito seus gestos, entregando a ela o que tenta tomar de mim, minha mão puxando seu cabelo, conduzindo o beijo no ritmo que ela dita.

Prenso-a contra o cimento, puxo sua coxa para cima e encaixo-me entre suas pernas. Sorrio satisfeito na sua boca quando ofega no mesmo instante em que me esfrego contra ela. Repito o movimento, recebendo a mesma reação.

Solto sua boca para descer ao seu pescoço, sugando a pele macia. Subo os dedos pela parte de dentro da sua coxa e estou a centímetros da sua calcinha quando o toque estridente do seu celular me para.

Ela solta um palavrão e escorrega as mãos pelos meus ombros. Solto-a devagar, apoiando seu pé de novo no chão, mas volto a boca à sua garganta depois que pega o celular de dentro da bolsa jogada ao chão.

— Pois não? — diz para quem quer que esteja do outro lado da linha em uma voz doce que não parece pertencer a ela. Ela suspira e me aperta por cima da camiseta, eu subo a mão pela frente do vestido em direção aos seus seios. Aperto um, subo a boca pelo seu queixo. Encaro os olhos escuros nublados e desejosos. — Tudo bem, me dê um instante, chego em alguns minutos. Com um suspiro frustrado, encerra a ligação. Morde o lábio, as íris dançando pelo meu rosto.

— Preciso ir — diz contrariada.

— Uma pena — sussurro em resposta, roubando um último beijo antes de soltá-la.

Descolo meu corpo do seu, sentindo a frente da calça apertada e dolorida. Recosto-me na parede onde ela estava, braços cruzados na frente do peito enquanto a assisto arrumar o cabelo e limpar o batom borrado. Pendura a bolsa no ombro e vai até a porta. Para com a mão no puxador e me olha por cima do ombro.

— Você não me disse seu nome — diz. Distraio-me da pergunta, encarando os lábios inchados que sei que vão atormentar meus sonhos essa noite por todas as promessas não cumpridas.

— Isso importa? — devolvo a provocação, arrancando um sorriso dela.

É um sorriso lindo.

Ela meneia a cabeça, usa a mão livre para brincar com o colar. Atrai meus olhos para os seios, deslizando os dedos pela borda do decote. Respiro fundo, sentindo meu corpo esquentar ainda mais.

— Faz com que seja mais fácil te achar — responde por fim, e volto minha atenção para o seu rosto.

Nego com a cabeça devagar, sabendo que essa não é uma possibilidade.

Ela franze os lábios.

— Uma pena — diz também, e concordo em silêncio. — Boa noite, estranho. Ela não olha para trás de novo; abre a porta e sai, deixando-me sozinho aqui.

Percorro os dedos pela minha boca, ainda sentindo seu gosto aqui. Arrependo-me imediatamente por não ter insistido em descobrir quem ela é.

capítulo três

Ajusto os óculos de proteção no rosto e aperto o botão vermelho ao meu lado, que faz com que um novo alvo de papel seja colocado na minha frente, a muitos metros de distância. Recarrego a arma e tomo meu tempo mirando à frente antes de disparar. Erro. De novo. Hoje o dia não está bom para mim.

O estande de tiro que existe em algum lugar dos muitos hectares que formam o jardim do castelo não está cheio hoje, porque escolho vir em horários em que sei que os soldados não estão treinando. Não importa que eu venha aqui há anos, eles nunca se acostumam com a minha presença. Há apenas meia dúzia de pessoas aqui que sei que estão usando seu dia de folga para fazer o mesmo que eu: descontar a raiva em um objeto inanimado. Disparo mais alguns tiros, o suficiente para esvaziar a arma, sentindo o impacto de cada um nos pequenos solavancos que meu corpo dá. Com um suspiro frustrado, aceito que não vou conseguir fazer progresso hoje.

Retiro todo o equipamento de proteção e sigo todos os procedimentos de segurança ao travar a arma e devolvê-la ao lugar certo. Mesmo contrariada, aceito a ajuda de um dos guardas que sempre me seguem por todos os lugares e deixo que abra a porta para que eu saia da área de treinamento, passe pela segurança e siga para fora do centro de treinamento. Sou recepcionada por um sol brilhante demais. Parece deboche do universo, considerando o quão sombrio é o dia que me aguarda.

Caminho sem pressa pelo jardim, em direção ao castelo. Imponente ao longe. Opressor. Apenas para postergar ainda mais a chegada ao meu destino, desvio o caminho pelo labirinto criado com arbustos pelo time de paisagistas que cuida de tudo por aqui. Não me perco por entre os corredores, já sabendo de cor onde preciso virar a cada curva, conhecendo em detalhes esse lugar desde que eu era criança. — Já se perdeu? — pergunto alto, sorrindo ao não ver Liam atrás de mim. Tenho certeza de que ele não está longe. Posso não o ver, mas seus olhos sempre estão sobre mim. Fiz do meu guarda- costas um dos meus melhores amigos e confidente, mas isso não o impede de levar seu trabalho muito a sério. Então sei que a minha implicância não vai obter resposta porque ele ainda está furioso pela minha escapada na noite passada. — Vamos lá, Liam. Quanto tempo você vai ficar sem falar comigo?

Assim que termino de atravessar o labirinto e estou de volta ao jardim, ele aparece atrás de mim. O semblante ainda está fechado, a postura estoica dentro do uniforme oficial.

Imito sua pose, que aprendi há muitos anos, quando ele se rendeu aos meus apelos e concordou em me treinar. Minha postura é tão boa quanto a de qualquer um dos nossos soldados, e isso o faz deixar escapar um sorriso pequeno. Liam suspira e passa a mão pelo rosto.

— Você podia ter me avisado, Maddy — diz contrariado. Ergo as sobrancelhas.

— Você teria tentado me impedir — aponto. Ele revira os olhos e bufa. Ofereço o meu braço, e ele balança a cabeça em repreensão antes de aceitá-lo e prendê-lo ao seu, conduzindo-me pelo caminho que estou evitando cortar. — É claro que eu teria tentado te impedir — diz, lançando um olhar julgador sobre mim. — É meu trabalho garantir que você continue viva.

— Eu estou viva.

— Por sorte! Francamente, Madelaine.

A repreensão está de volta à sua voz, o vinco profundo entre suas sobrancelhas pouco tem a ver com as rugas trazidas pelos seus quarenta anos que se aproximam. É apenas preocupação genuína. Solto-me do seu braço e me coloco de frente para ele. — Eu prometo que não vai mais acontecer — garanto com uma voz doce que não me pertence.

Ele finalmente ri.

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Lista de capítulos

20 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 O príncipe da honra e a virgem
  2. Capítulo 2Capítulo 2 O príncipe da honra e a virgem
  3. Capítulo 3Capítulo 3 O príncipe da honra e a virgem

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