Pular para o conteúdo principal

Capítulo 2 2 - Yari Ashford.

Os polegares, ásperos e cobertos de terra, limpam com cuidado a lama das minhas bochechas.  - Com a minha vida. Não existe um segundo de dúvida dentro de mim. Nunca existiu.  - Então vamos. Juntos. Como sempre foi. - Damos o primeiro passo para dentro da água sem soltar a mão um do outro, e o impacto do frio é brutal. Não é apenas uma sensação gelada. É como se milhares de agulhas atravessassem a minha pele ao mesmo tempo, travando meus músculos e arrancando o ar dos meus pulmões. Um grito escapa da minha boca, mas Heitor continua me puxando, e eu obrigo minhas pernas a seguirem em frente. A correnteza bate com força na altura da minha cintura, empurrando meu corpo e tentando me derrubar a cada passo. As pedras sob os meus pés estão cobertas por limo, escorregadias demais para manter o equilíbrio. O rio fica fundo muito rápido, escondendo buracos que não consigo enxergar.  - Não solte a minha mão! - ele grita, tentando vencer o barulho da água.  - Nunca! - respondo, apertando os dedos dele com toda a força que ainda tenho. Mas a correnteza não se importa com promessas.  De repente, a água chega ao meu peito e meu pé direito perde o chão. Tento me manter na superfície, debatendo os braços em desespero, mas o vestido encharcado pesa como uma âncora, puxando meu corpo para o fundo. Engulo água gelada, e o pânico aperta minha garganta enquanto a correnteza me arrasta sem que eu consiga fazer qualquer coisa para impedir. Antes que a água me cubra por completo, dois braços fortes envolvem minha cintura. Heitor. Sempre ele.  - Eu peguei você! Estou aqui! Respira, Yari! Respira!  Lutamos juntos contra a força do rio. Cada movimento é uma batalha para não sermos levados pela correnteza. O tempo perde o sentido. Não sei quanto demoramos, mas parece uma eternidade até que meus dedos encontram alguma coisa firme.

Pedras.  Terra.  Margem.

Nós nos arrastamos para fora da água como dois sobreviventes. Caímos sobre a grama encharcada da outra margem, ofegantes, tremendo sem controle, tentando convencer o nosso próprio corpo de que ainda estamos vivos. Heitor vira a cabeça na minha direção e sorri. É um sorriso pequeno, torto por causa do cansaço e do corte perto da boca, mas ainda assim é o sorriso mais bonito que já vi. Um sorriso de verdade. Tão diferente daqueles que eu via todos os dias dentro da minha própria casa.  - A gente conseguiu... - ele murmura, com a voz rouca pelo esforço. Uma risada escapa antes que eu consiga impedir. Ao mesmo tempo, as lágrimas voltam a escorrer pelo meu rosto. Eu rio e choro sem conseguir separar uma coisa da outra. O alívio e a dor se misturam dentro de mim até parecerem exatamente a mesma sensação.  - Quanto falta... para a ilha? - pergunto, ainda tremendo de frio.  - Uns cinco quilômetros. Talvez um pouco menos. - Ele apoia as mãos na grama para conseguir se levantar, soltando um gemido baixo de dor. Depois estende a mão para mim. - Se continuarmos seguindo o rio, chegaremos ao vilarejo antes do amanhecer. A ilha tem uma comunidade pequena de pescadores. Eu passei uma semana lá quando tinha quinze anos, em uma viagem da escola. São pessoas simples. Gente que vive do mar e não costuma fazer perguntas. Eles vão nos ajudar. - Seguro a mão dele e deixo que me coloque de pé.  Minhas pernas ainda tremem tanto que quase cedo outra vez, mas Heitor me segura pela cintura antes que eu perca o equilíbrio. Em seguida, tira a jaqueta encharcada dos próprios ombros e a coloca sobre os meus.  - Você está descalça e cheia de cortes. - A voz dele continua firme, deixando claro que não vai aceitar discussão. - Você precisa dela muito mais do que eu. Eu aguento o frio.  Baixo os olhos para os meus pés, a cena é pior do que eu imaginava. A pele está cheia de cortes, machucada pelas pedras, pelos espinhos e pelos galhos espalhados pela floresta. Pequenas gotas de sangue ficam para trás a cada passo que dou. Mesmo assim... Eu continuo andando. Porque sei que, depois dessa noite, existe a vida que escolhemos construir juntos. Nosso passo agora é lento, quase arrastado. A adrenalina que nos fazia correr sem olhar para trás começa a desaparecer, e a dor toma conta de cada parte do meu corpo. Heitor continua com o braço firme ao redor da minha cintura, sustentando parte do meu peso enquanto seguimos em frente.  - Quando a gente chegar lá... - A voz dele surge baixa no silêncio da madrugada. - Vamos encontrar um lugar pequeno para morar. Talvez uma casinha de madeira de frente para o mar, daquelas em que a gente consegue ouvir as ondas o dia inteiro. Você vai montar o seu cantinho para trabalhar com design de interiores, criando os seus projetos sem ninguém dizendo o que você pode ou não fazer. E eu posso ajudar os pescadores a consertar os barcos ou trabalhar com arquitetura pela internet. A gente vai dar um jeito.  - Simples... - repito baixinho. Nunca imaginei que uma palavra pudesse soar tão bonita.  - Mas vai ser nosso, Yari. Só nosso. Sem seguranças na porta, jantares de negócios ou contratos disfarçados de casamento. Só nós dois.

Eu paro de andar. Viro na direção dele e o abraço com toda a força que ainda resta em mim. Ele cheira a rio, a terra molhada e ao medo que atravessamos juntos. Mas, por baixo de tudo isso, ainda existe o cheiro dele. O cheiro que, durante dois anos, passou a significar casa para mim.  - Eu te amo tanto... - sussurro contra o peito dele. - Às vezes, parece que esse amor é grande demais para caber dentro de mim.  - Eu sei... - ele sorri de leve antes de beijar meus cabelos molhados. - Eu sinto exatamente a mesma coisa. - O peito dele vibra com uma risada baixa. - Passei dois anos estudando na mesma faculdade que você, sem coragem de dizer um "oi". Para mim, você era inalcançável. Até aquele trabalho em grupo.  Um sorriso aparece no meu rosto pela primeira vez desde que tudo começou.  - O encontro perfeito entre arquitetura e design de interiores. Você conseguiu derrubar uma caneca de café em cima do meu desenho logo na primeira hora.  - Foi o melhor erro da minha vida.  Eu rio baixinho.  - Naquele dia, eu queria matar você.  - Eu sei.  Ele ri também.  - E olha onde a gente veio parar... - o sorriso desaparece aos poucos do meu rosto. - Correndo para não morrer.  - Mas estamos juntos. - Ele segura meu rosto entre as mãos, erguendo-o,  me obrigando a olhar para ele. - Sempre juntos. Não importa o que aconteça daqui para frente e nem o que o seu pai faça. Eu prometo! - Heitor planta um beijo na minha testa.  Ficamos parados daquele jeito por alguns segundos, tirando aquele momento do tempo que não para. Apenas dois corpos bem grudados no meio de uma floresta fria e perigosa, como se a força do nosso abraço e o tamanho do nosso amor tivessem o poder real de fazer o mundo inteiro parar de girar em volta...

Quer continuar lendo?

Continue lendo para acompanhar a história.

Continuar lendo

Lista de capítulos

44 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 1 - Yari Ashford.
  2. Capítulo 2Capítulo 2 2 - Yari Ashford.
  3. Capítulo 3Capítulo 3 3 - Yari Ashford.

Lançamentos