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Capítulo 3
Embora a cerimônia ainda não tivesse começado, eu já me sentia como se tivesse sido arrastada pela poeira.
"Doris, passe logo esse vestido!", gritou Veronica com sua voz aguda e impaciente.
Fazia menos de cinco minutos que ela havia jogado o vestido nas minhas mãos, mas já tinha vindo me incomodar pelo menos cinco vezes, não porque o vestido não estivesse pronto, mas sim porque seu objetivo era me frustrar.
Obviamente, ela era a única que havia encontrado um companheiro, e Julius Armstrong a marcaria nesse dia.
Assim que terminei de passar, levei o vestido até o quarto dela, o colocando cuidadosamente sobre a cama.
Sem nem esperar por uma resposta dela, me virei rapidamente e saí do quarto.
"Doris." A voz de Henry me parou. "Você ainda não se vestiu?"
Olhei para ele, depois para mim, puxando levemente o vestido rasgado que eu usava, como se estivesse lhe dizendo silenciosamente que era só isso que eu tinha.
Vendo minha reação, as sobrancelhas de Henry se franziram em confusão.
"Espere... Doris", ele disse num tom hesitante. "Sério que é isso que você vai usar na cerimônia?"
Apontando para o meu vestido, ele murmurou com raiva:
"Nem mesmo um mendigo usaria um vestido assim."
Antes que eu pudesse reagir, ele segurou minha mão e me puxou para fora, só parando quando chegamos no seu quarto.
Após soltar minha mão, ele foi até a cama e disse: "Comprei este vestido para você."
Segui seu olhar, encontrando um vestido cuidadosamente estendido sobre o colchão.
Era um vestido longo e bonito, na cor rosa.
Fiquei sem palavras.
Lágrimas ardiam nos meus olhos antes que eu pudesse contê-las, e a próxima coisa que percebi foi que estava o abraçando com força.
Quando finalmente me afastei, várias perguntas surgiram na minha cabeça, então peguei meu caderno e perguntei por escrito: "Como conseguiu dinheiro para isso? Você não roubou das gêmeas, roubou?"
Ergui o caderno para ele.
"Não", ele disse rapidamente, balançando a cabeça enquanto uma risada escapava dos seus lábios. "Não roubei. Minha mãe me deu o dinheiro."
O alívio me dominou e, antes que eu pudesse me conter, sorri.
Peguei o vestido com cuidado, sentindo o tecido macio sob meus dedos, mais leve do que qualquer coisa que eu já tivesse usado.
Segurei-o contra meu corpo e virei-me lentamente, o tecido roçando nas minhas pernas enquanto eu girava.
Henry abriu um sorriso. "Por que não vai vesti-lo? A cerimônia começará em alguns minutos."
Ele me empurrou em direção à porta de brincadeira, e corri para o meu quarto.
Vesti o vestido com cuidado e medo de rasgá-lo. Quando finalmente ergui a cabeça, me olhei no espelho, ou melhor, no pedaço quebrado de um pregado na parede.
A garota que me encarava não parecia alguém acostumada a se esconder pelos cantos.
Pela primeira vez, eu estava bonita.
Animada, saí correndo do meu quarto para mostrar a Henry, mas não cheguei muito longe, pois minha madrasta estava no corredor.
Seus olhos me percorreram lentamente, da cabeça aos pés, com aquele olhar familiar de desgosto estampado no seu rosto.
"Onde roubou o dinheiro para comprar esse vestido?", ela perguntou friamente, se aproximando.
Antes que eu pudesse reagir, seus dedos agarraram o tecido.
Nesse momento, as gêmeas saíram do quarto.
"Então agora você está nos roubando?", Vanessa zombou, com o rosto totalmente maquiado e os olhos brilhando de ciúme.
"Como pode usar um vestido mais bonito que o nosso? Você nem tem um companheiro, garota muda", acrescentou Veronica.
Apertando o vestido com mais força, minha madrasta ordenou: "Volte para dentro, vista aquele trapo que estava usando e dê este vestido para Veronica."
Minhas mãos tremiam.
"Não!" A voz de Henry ecoou pelos corredores.
Ele veio correndo na nossa direção, seus olhos escuros de raiva. "Comprei o vestido para ela, e ela vai usá-lo na cerimônia. Há algum problema com isso?"
Minha madrasta se virou para ele, seus lábios se curvando. "Então te dei dinheiro para comprar roupas para você, mas você o desperdiçou com essa vadia?"
Antes que alguém pudesse impedi-la, ela puxou o tecido com força, e o som do rasgo ecoou pelo corredor.
O vestido foi rasgado no meu corpo.
Ofegante, segurei o tecido rasgado contra o peito enquanto as lágrimas escorriam pelo meu rosto, quentes e incontroláveis.
Henry tirou o casaco e o colocou em mim instantaneamente, me protegendo dos olhos delas.
"Venha", ele disse suavemente, me levando de volta para o quarto.
Sentei-me no chão, tremendo.
O vestido estava arruinado aos meus pés.
Alguns minutos depois, a porta se abriu.
"Doris." A voz da minha madrasta era aguda e impaciente. "Levante-se e venha. Agora."
A porta se fechou quando ela se afastou, sem esperar por uma resposta.
Levantei-me do chão, meu corpo ainda tremendo. Após vestir o velho vestido rasgado, saí do quarto.
Por um momento, fiquei parada ali.
As gêmeas já estavam vestidas, radiantes com seus tecidos caros e joias. Suas risadas enchiam a casa...
Enquanto isso, eu estava descalça, com os pés pressionados contra o chão frio, as observando como alguém que não pertencia a esse lugar.
De repente, um estalo agudo ecoou.
"Doris, pare de ficar parada como uma boba e comece a andar", minha madrasta ordenou.
Então, obedeci, carregando caixas de bebidas da casa para o local da cerimônia.
Meus braços tremiam sob o peso, mas ninguém percebeu, ou talvez tivessem percebido e simplesmente não se importaram.
As gêmeas riam alto com suas amigas, estalando os dedos para mim como se eu fosse um animal de estimação.
"Doris, traga mais vinho."
"Doris, limpe isso."
"Doris, você derramou."
Cada ordem arrancava mais uma camada da minha dignidade.
Ao nosso redor, outras garotas estavam sentadas orgulhosamente ao lado das suas famílias, seus rostos brilhando de entusiasmo. Hoje, elas seriam reivindicadas oficialmente.
Senhoras importantes ocupavam as primeiras fileiras, cochichando entre si.
Havia rumores de que o Alfa escolheria sua Luna hoje, e a maioria acreditava que seria Clara.
Ela estava sentada no centro, com uma postura perfeita, o queixo erguido e a confiança estampada em cada movimento.
Como ela era próxima do Alfa desde a infância, para todos os outros, o relacionamento fazia sentido.
Eu estava no canto de tudo, segurando uma bandeja, invisível.
Então, um ancião da matilha se aproximou, batendo seu cajado no chão uma vez antes de anunciar: "A cerimônia de acasalamento começou."
"Doris, apresse-se com essas bebidas!"
A voz aguda da minha madrasta cortou a música e as risadas.
Abaixei a cabeça e obedeci, como sempre fazia. Afinal, eu havia aprendido desde cedo a desaparecer.
A bandeja ficava mais pesada a cada passo, e minhas mãos tremiam sob o peso. O suor encharcava minhas roupas, e eu não cheirava a perfume ou entusiasmo como as outras garotas... eu cheirava a sujeira.
Quando a cerimônia começou, meu corpo inteiro doía.
Enquanto eu passava pela multidão, uma das gêmeas esbarrou em mim de propósito. Seu ombro atingiu a bandeja, fazendo um copo cair e se quebrar no chão.
Ela ofegou alto, seus olhos arregalados num choque fingido.
"Ah, não! Olhe a bagunça que Doris fez", ela disse, se virando rapidamente para a mãe.
"Não entendo por que Doris não consegue fazer uma única coisa direito", ela acrescentou, balançando a cabeça.
Todas as conversas cessaram, e os olhares se desviaram para mim.
Meu coração batia dolorosamente contra o peito enquanto eu me ajoelhava, recolhendo os cacos com os dedos trêmulos.
O vidro cortava minha pele, mas eu não parava.
Ninguém se importava, exceto duas pessoas.
Uma sombra caiu ao meu lado, depois outra.
Antes que eu pudesse reagir, alguém puxou minha mão dos cacos cuidadosamente.
Era Blade.
Sem dizer uma palavra, ele pegou os cacos de vidro com cuidado. Henry se ajoelhou ao lado dele, ajudando em silêncio.
Balancei a cabeça, o pânico me inundando. Eu não queria que eles fossem arrastados para isso, nem queria mais problemas.
Os dois olharam para mim e sorriram.
"Está tudo bem", disse Blade suavemente.
Após recolher os últimos cacos, ele voltou para seu lugar como se nada tivesse acontecido.
Já Henry, ficou por mais um momento. Depois de jogar os cacos no lixo, colocou um pano limpo nas minhas mãos.
Agradecida, acenei com a cabeça.
Vendo isso, sua mãe repreendeu: "Henry, o que pensa que está fazendo? Vá se sentar com os outros garotos. É lá que você pertence."
Ele hesitou, mas acabou obedecendo.
Então, o olhar da mulher se desviou para mim friamente.
"E você", ela disse num tom baixo, sua voz profunda o suficiente para me atingir ainda mais. "Depois de hoje, você não voltará para minha casa."
Fiquei sem ar.
"Não preciso mais de você. Não preciso de lixo como você debaixo do meu teto."
Enquanto ela falava, fiquei parada ali, congelada.
"Há um ômega rejeitado que precisa de uma companheira. Você irá para ele", ela continuou casualmente, como se estivesse falando sobre compras no supermercado.
Seus lábios se curvaram ligeiramente.
"Veronica será acasalada com o Gama, e Vanessa com o Alfa ou o Beta. Não quero mais sua má sorte perto da minha família."
Em resposta, acenei com a cabeça, pois era tudo o que eu sabia fazer.
Como não fui convidada a me sentar em lugar algum, quando ninguém estava olhando, fui para um canto, me encostando na parede e observando de lá.
Como uma forasteira.
Então, a música diminuiu e uma figura se aproximou.
Alfa Ryder.
Quando ele ergueu a mão, a multidão explodiu em aplausos.
"Hoje, escolherei minha Luna, de acordo com as leis da nossa matilha", ele anunciou, sua voz ecoando pelo local.
Os aplausos ficaram mais altos.
Alfa Ryder governava a Matilha da Lua há três anos.
Eu soubera que ele assumira o trono depois que seus pais foram envenenados e mortos, uma tragédia que abalou toda a matilha.
Muitos duvidaram dele na época, já que ele era jovem, mas eles estavam errados.
Em três anos, Ryder provou seu valor.
A matilha estava segura sob seu governo, suas fronteiras reforçadas e seus inimigos silenciados.
Havia rumores de que os rivais temiam Ryder mais do que seu próprio pai.
O olhar do Alfa Ryder percorreu a multidão e se fixou em mim.
Desviei o olhar rapidamente, mas não antes de notar o leve sorriso nos seus lábios.
Isso é tudo que está disponível no momento.
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