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Capítulo 2

No dia seguinte, arrumei uma pequena mala. Chamei o Tiago.

"Vens comigo."

Ele protestou.

"Não vou a lado nenhum contigo! A avó disse que és uma má mãe!"

Agarrei-o pelo braço, com uma força que ele não sabia que eu tinha.

"Vais. Vamos a Lisboa visitar o teu pai."

A menção do pai calou-o. A imagem do "pai herói" ainda era forte na sua pequena mente.

Fomos até ao Quartel-General da Marinha. Um edifício imponente que, na minha vida anterior, eu nunca teria tido a coragem de entrar.

Entrei, direita e determinada, com o Tiago a reboque. Fui ao balcão de informações.

"Bom dia. O meu nome é Lara. Sou a viúva do Fuzileiro Diogo. Vim tratar da minha pensão."

O funcionário olhou para mim, confuso.

"Viúva do Fuzileiro Diogo? Deve haver algum engano. O Fuzileiro Diogo está vivo e de boa saúde. Aliás, ele está aqui hoje."

O meu coração não acelerou. Eu já sabia. Mas ver a confirmação nos olhos de um estranho solidificou o meu ódio.

"Gostaria de o ver, por favor."

Nesse exato momento, a porta de um dos gabinetes abriu-se e Diogo saiu. Ele estava fardado, impecável. O herói.

Ele viu-me. O seu rosto passou do choque à fúria em segundos.

Eu não lhe dei tempo para reagir. Ajoelhei-me no chão, puxando o Tiago comigo. Comecei a chorar, um choro alto e desesperado.

"Meu Deus, ajudem-me! O meu marido, o herói Diogo, morreu e deixou-nos na miséria! Eu e o meu filho passamos fome! A família dele maltrata-nos! Por favor, a Marinha tem que nos ajudar!"

As minhas palavras ecoaram pelo átrio. As pessoas pararam para olhar. A vergonha no rosto de Diogo era deliciosa.

Ele correu até mim, a sua cara uma máscara de preocupação forçada.

"Coitadinha", disse ele, em voz alta, para que todos ouvissem. "Esta é a Lara, uma rapariga lá da minha aldeia. Ela tem problemas mentais, coitada. Tem uma obsessão por mim desde que éramos crianças. A morte do meu primo, que tinha o mesmo nome que eu, deve tê-la perturbado ainda mais."

Ele tentou levantar-me, mas eu agarrei-me ao chão.

"Mentiroso! Tu és o meu marido! Este é o teu filho!"

Diogo, vendo que o escândalo estava a crescer, agarrou-me com força e arrastou-me para fora, com o Tiago a chorar atrás de nós.

"Vem comigo, vou levar-te para um sítio seguro."

Ele arrastou-me até um carro de luxo e levou-me para um bairro nobre de Lisboa. A casa era enorme, uma mansão.

Ele empurrou-me para dentro de uma arrecadação húmida e escura na cave.

"Fica aqui e não faças barulho. Vais arruinar tudo."

Ele trancou a porta.

Mais tarde, ele voltou com a Sofia. Ela olhava para mim com um misto de desprezo e triunfo.

"Vês? Eu disse-te que ela era um problema", disse Sofia.

Diogo ignorou-a. Ele atirou-me uns papéis e uma caneta.

"Assina isto. É uma declaração a dizer que tens problemas mentais e que tudo o que disseste foi um delírio."

Eu ri na cara dele.

"Nunca."

A raiva dele explodiu. Ele deu-me um pontapé.

"Sua cabra teimosa! Vais assinar!"

Recusei. Ele continuou a agredir-me, mas eu não cedi.

No dia seguinte, consegui fugir da arrecadação enquanto eles estavam fora. Fui diretamente a uma conservatória do registo civil. Tinha que saber a verdade.

Com a ajuda de um funcionário desconfiado que se compadeceu da minha história, a verdade veio à tona. E era pior do que eu imaginava.

Não havia registo do meu casamento com o Diogo. Era falso.

Mas havia um registo do casamento dele com a Sofia.

E o pior de tudo: o funcionário, curioso, pesquisou mais. Sofia tinha usado o meu nome e as minhas notas do secundário – notas excelentes que me teriam garantido um futuro – para entrar na universidade. Ela tinha roubado a minha identidade, a minha vida. A carreira de prestígio que ela tinha foi construída sobre a minha ruína.

A dor era avassaladora. Ele não só me tinha abandonado, como tinha conspirado para me roubar tudo.

Voltei para a casa deles, cega de raiva. Confrontei-os.

"Tu roubaste a minha vida!", gritei à Sofia.

Ela fingiu-se de vítima.

"Do que estás a falar, sua louca? Diogo, chama a polícia! Ela está a ameaçar-me!"

Diogo agarrou-me.

"Já chega! Vais assinar uma declaração a perdoar a Sofia por este mal-entendido. Ela está a construir uma carreira brilhante, não podes estragar isso!"

A audácia dele deixou-me sem palavras.

Sofia, sentindo-se ameaçada, correu para a rua.

"Socorro! Ajudem-me! A amante do meu marido está a tentar destruir a nossa família! Ela é uma louca violenta!"

Os vizinhos saíram à rua. Influenciados pela imagem de "família perfeita" que Diogo e Sofia projetavam, viraram-se contra mim.

Chamaram-me de tudo. Atiraram-me coisas. Fui espancada e humilhada publicamente.

E o meu próprio filho, Tiago, manipulado pela Sofia, gritava: "Deixa a minha tia em paz, sua bruxa!"

Ele pegou numa pedra e atirou-a. Atingiu-me na cabeça.

A última coisa que vi antes de desmaiar foi o rosto satisfeito de Sofia.

Quando acordei, estava de volta à arrecadação húmida. A minha cabeça doía. Diogo estava lá.

"Vês o que me obrigas a fazer?", disse ele, sem pingo de remorso.

Fui buscar a pequena mala com os meus pertences. Entre as roupas velhas, estava a única coisa que eu tinha guardado dele. A sua Medalha da Cruz de Guerra. A mais alta condecoração militar por bravura.

Na minha vida anterior, eu olhava para ela com orgulho. Agora, via-a pelo que era: uma arma.

O estatuto de herói dele era a sua maior força. E seria a sua maior fraqueza.

Agarrei na medalha. O metal frio deu-me força.

Eu tinha uma última cartada para jogar.

No dia seguinte, com o rosto inchado e o corpo dorido, voltei ao Quartel-General da Marinha.

Desta vez, não fui ao balcão. Fui diretamente para o andar dos oficiais superiores. Havia uma reunião de alto nível a decorrer.

Ajoelhei-me à porta da sala de reuniões. Segurei a Medalha da Cruz de Guerra bem alto, para que todos a vissem. Juntei todos os documentos que tinha conseguido: a prova do casamento falso, a prova do roubo de identidade da Sofia.

E gritei.

"Justiça! Eu peço justiça em nome de um herói da Marinha!"

A porta abriu-se. Vários oficiais saíram, chocados. Entre eles, um homem mais velho, com uma postura impecável e um olhar severo. Era o Capitão Mendes. Eu lembrava-me dele do "funeral" do Diogo. Ele tinha feito um discurso comovente sobre a bravura do meu marido.

Ele olhou para a medalha na minha mão, depois para o meu estado lastimável. A sua expressão mudou de confusão para fúria.

"O que significa isto? Quem é esta mulher?"

Eu não hesitei.

"Eu sou Lara, a verdadeira mulher do Fuzileiro Diogo. Ele fingiu a própria morte para me abandonar. Ele é bígamo, casado com a prima, Sofia. E ela roubou a minha identidade para construir uma carreira. Ele é um traidor e ela uma fraude. E esta medalha... esta medalha foi manchada pela desonra dele!"

O silêncio na sala era total. Diogo, que tinha sido chamado, chegou nesse momento. O seu rosto ficou branco como cera.

O Capitão Mendes olhou para ele, o desprezo nos seus olhos era palpável.

"Fuzileiro Diogo. Tem cinco segundos para me dizer que esta mulher está a mentir."

Diogo gaguejou. Não conseguiu formar uma única palavra.

As provas eram esmagadoras. A investigação foi imediata e implacável. Diogo e Sofia foram presos no local.

Ele foi expulso da Marinha com desonra, condenado por bigamia, abandono de família e conspiração. A sua carreira, o seu orgulho, tudo se desfez em pó.

Sofia perdeu tudo. A sua carreira, a sua reputação. Foi condenada a uma pena de prisão por fraude e roubo de identidade.

A Marinha, envergonhada pelo escândalo, quis compensar-me. Ofereceram-me uma indemnização generosa e um cargo administrativo no Arsenal do Alfeite, em Almada. Reconheceram as minhas qualificações, aquelas que me tinham sido roubadas.

Mudei-me para perto de Lisboa. Cortei todos os laços com o Algarve, com a Dona Amélia, com o Tiago. Eles que se afundassem na sua própria miséria.

Três anos passaram.

Tornei-me uma profissional respeitada. A minha vida era calma, estável. Minha.

O Capitão Mendes, que se tinha divorciado entretanto, nunca me perdeu de vista. Ele via em mim não uma vítima, mas uma sobrevivente. Uma mulher de força.

A nossa relação floresceu lentamente, baseada em respeito e admiração mútua.

Hoje, ele pediu-me em casamento.

Olhei para o anel na mão dele, depois para o meu reflexo no vidro da janela. Vi uma mulher que já não conhecia o chão de pedra gelada. Uma mulher que tinha renascido das cinzas da sua vida anterior.

"Sim", disse eu, com um sorriso genuíno. "Eu aceito."

A felicidade, finalmente, era minha. Conquistada por mim.