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Capítulo 2

O Bentley entrou na garagem privativa sob o prédio da Park Avenue, seus pneus deslizando suavemente sobre o concreto. Christa olhava para seu reflexo na janela escura, observando as luzes da cidade se desfocarem à medida que desciam para o espaço subterrâneo.

"Obrigada, Thomas."

Sem esperar que o motorista abrisse a porta, ela saiu para a luz artificial, seus pés descalços silenciosos contra o chão frio. Ela havia tirado os saltos em algum lugar da Long Island Expressway, incapaz de suportar a dor por mais um segundo.

O elevador privativo subiu suavemente, suas paredes espelhadas multiplicando a imagem dela ao infinito. Christa observava a mulher no vidro: pele pálida, cabelo escuro preso com força, olhos que pareciam pertencer a outra pessoa.

Quando as portas se abriram no saguão da cobertura,

Maura O'Connell estava esperando, suas mãos cruzadas na cintura e o rosto neutro. "Senhora Sanford, chegou cedo. Posso te trazer algo? Chá? Ou algo mais forte?"

Christa balançou a cabeça e passou pela governanta, seus pés descalços deixando leves marcas no mármore. O chão estava congelando, mas ela até gostou da sensação.

"Vou descansar. Onde Cora está?"

"Dormindo, senhora. Gladys está com ela."

Christa assentiu e continuou em direção à suíte principal. O apartamento se estendia ao seu redor, vasto e silencioso, cada superfície polida até o brilho de um espelho. O horizonte de Manhattan brilhava através das janelas do chão ao teto, uma constelação de riqueza e ambição que antes a fazia se sentir segura.

Agora, parecia uma gaiola.

Ela entrou no closet, um espaço de luxo organizado de mais de cem metros quadrados. Seus dedos encontraram o zíper do vestido Tom Ford e o puxaram, fazendo a seda cair aos seus pés como um corpo sem vida.

Ela o chutou em direção ao cesto de roupa suja, depois chutou o cesto, o fazendo deslizar pelo chão.

O banheiro era de mármore branco e cromado, com um chuveiro grande o suficiente para quatro pessoas. Christa ligou a água quente e entrou totalmente vestida, sua camisola e roupas íntimas grudadas na pele. Ela ficou com o rosto inclinado para o jato, o deixando bater nas suas pálpebras, maçãs do rosto e boca.

A voz de Denny ecoava no barulho da água:

A doutora Byrd se preocupa com seu laboratório e suas patentes.

Ela é completamente inofensiva.

Christa esfregou a pele até ficar vermelha, até não conseguir sentir nada além do cheiro de sabão e vapor. Então, ela ficou parada novamente, observando a água descer pelo ralo.

Quando ela saiu, se enrolou num roupão e se olhou no espelho. A mulher que a encarava tinha os cabelos molhados grudados na cabeça e olhos que haviam deixado de ter medo.

Algo havia substituído o medo, algo mais forte.

Ao voltar para o quarto, ela parou.

Denny estava sentado na beirada da cama, afrouxando a gravata. Quando ela entrou, ele ergueu a cabeça e seu rosto se abriu no sorriso pelo qual ela havia se apaixonado há doze anos. O sorriso que enrugava os cantos dos seus olhos e o fazia parecer, por um breve momento, o homem que ela acreditava que ele era.

"Chris. Você saiu cedo. Te procurei por toda parte."

O coração de Christa deu um salto estranho no peito. Ela observava as mãos dele se estenderem em sua direção, seu corpo se inclinando na coreografia familiar do casamento deles.

Então, ela se afastou.

O movimento foi pequeno, quase casual. Ela pegou seu hidratante na penteadeira, de costas para ele, e começou a aplicá-lo com uma precisão metódica.

"Não estava me sentindo bem", ela disse.

As mãos de Denny ficaram no ar por um momento, depois caíram. Ela ouviu a confusão no silêncio dele.

"Deveria ter me avisado. Eu teria te levado para casa."

"Posso chamar um carro."

Mantendo os olhos no seu reflexo, ela o observava pelo canto do espelho. Ele a encarava, com a cabeça inclinada daquele jeito que ele fazia quando tentava entender algo que não correspondia às suas expectativas.

"Brittany estava arrasada. Fiquei para ajudar a receber os convidados. Foi... difícil", ele disse por fim.

Christa fechou o hidratante, seus dedos firmes.

"Ela sofreu uma perda terrível. Você fez bem em confortá-la."

As palavras tinham um gosto amargo. Ela observava o rosto de Denny se relaxar, o vendo aceitar sua resposta como o perdão que ele buscava.

Ele se aproximou, ficando atrás dela. Suas mãos repousaram nos ombros dela, os polegares pressionando o músculo na base do pescoço. O toque que antes a fazia se derreter, agora a fazia querer se afastar.

Mesmo assim, ela permaneceu imóvel.

"Você está fria. Venha para a cama. Vou te esquentar", ele murmurou, seu hálito quente contra o ouvido dela.

Suas mãos deslizaram pelos braços dela, pegando o cinto do roupão e a puxando para junto do seu peito. Ela podia senti-lo através da camisa, os contornos familiares do seu corpo e o perfume que ela havia escolhido para ele três Natais atrás.

Se afastando, ela saiu do alcance dele.

"Vou dormir no closet. Não quero te incomodar se eu ficar agitada."

O reflexo de Denny mostrava sua confusão se transformando em outra coisa. Preocupação, talvez. Ou o primeiro sinal de irritação.

"Christa, nunca dormimos separados. Nem uma vez em sete anos."

Ao ouvir isso, ela se virou para encará-lo. Foi preciso um esforço para olhar nos olhos dele e manter sua expressão sob a máscara de uma leve indisposição.

"Já te disse, não estou bem. Agradeceria se me desse um pouco de espaço, Denny. É pedir demais?", ela perguntou, deixando um toque de irritação entrar na sua voz.

Ele a encarou, e ela o observava calcular o custo de insistir, o inconveniente de ter uma esposa magoada e a distração de qualquer coisa que o aguardasse no seu celular.

"Tudo bem. Se é isso que você precisa", ele disse num tom seco.

Então, ele se virou, tirando a camisa com movimentos bruscos e irritados. Christa entrou no closet e fechou a porta suavemente atrás de si.

O sofá-cama era estreito, projetado para uso ocasional e não para dormir regularmente. Ela pegou a manta de caxemira do baú e se deitou totalmente vestida, olhando para o teto onde a iluminação embutida criava padrões como galáxias distantes.

No quarto, ela ouviu a respiração de Denny se acalmar à medida que ele adormecia.

Christa ficou acordada, contando as horas até o amanhecer.

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  1. Capítulo 1Capítulo 1
  2. Capítulo 2Capítulo 2
  3. Capítulo 3Capítulo 3

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