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Capítulo 3 Uma noite de prazer
Deus, foi um erro ter vindo.
Ele nem disfarça. Desde que me cumprimentou, nem por uma vez olhou acima do meu pescoço. Parece hipnotizado
pelos meus seios. Sou inexperiente, mas isso não faz de mim uma imbecil.
Não preciso ser um gênio para perceber que a única coisa que o homem quer é sexo.
Não que eu ache algo de errado em as pessoas
quererem fazer sexo. Sou virgem por falta de oportunidade. Ainda não encontrei um cara que me fizesse desejar
eliminar esse problema. Observo mais criticamente o meu encontro.
Ele foi bem mais sutil pela internet.
A ideia era me divertir, mas não há nada de divertido em ficar desviando da mão boba de um homem que não me atrai e que parece não conseguir ficar mais do que dois
minutos sem tocar alguma parte do meu corpo.
Ele disfarçadamente já acariciou meu rosto, pescoço e perna. Estou há algum tempo controlando a vontade de
jogar o drinque nele — com direito ao guarda-chuvinha azul do coquetel de brinde.
Ele não fez nada até agora que a boa etiqueta chamaria
de indecente, mas ainda assim, está me deixando desconfortável.
— Eu tenho que ir. Devo acordar cedo para o trabalho amanhã — minto parcialmente. Quero dizer, não a parte de
acordar cedo. Eu geralmente faço isso para o dia render
mais. Não é uma obrigação, mas uma escolha. A mentira engloba a parte do trabalho. Meu turno no restaurante só
começa ao meio-dia.
É muito melhor ficar em casa planejando meu futuro do que aguentar a conversa chata desse cara. O pensamento
me faz sorrir e o homem parece entender errado. — Tudo bem, não precisa passar a noite inteira, baby. Posso chamar um Uber para levá-la em casa depois — diz
com a voz rouca.
O quê? Ele acha que o estou convidando para prolongar a noite?
Tudo bem que não contei a minha idade real e talvez ele ache que sou mais experiente por causa da minha
aparência, mas não houve nada em nosso papo que o
levasse a crer que eu gostaria de terminar nosso encontro em um quarto.
Finjo mexer na minha bolsa e disfarçadamente, observo
o homem com quem passei a última hora. Não fui só eu quem deu a entender uma idade que não tinha. Tenho
certeza de que ele é bem mais velho do que os vinte e seis anos que apontavam no aplicativo.
Jesus, como saio dessa enrascada agora?
Olho em volta do bar, tentando encontrar uma forma educada de fugir. O cara bebeu três doses de uísque e não parece disposto a me deixar ir sem fazer uma cena.
Pense rápido, Antonella. Estou começando a suar frio, quando de repente a
solução aparece bem diante dos meus olhos.
Se tem algo que sou boa na vida, é em improvisar. — Huh… eu adoraria acabar a noite desse jeito que
você está falando aí, mas infelizmente meu namorado do
Wyoming[10] acaba de chegar — digo, já me levantando. — Namorado? Como assim? Não houve conversa sobre
namorado. Lembro que disse que era solteira. O meu acompanhante parece confuso e irritado, mas
vou agarrar com unhas e dentes a oportunidade de fugir.
Sem mais explicações, ando na direção do namorado de mentirinha.
Seu rosto é tudo, menos amigável. Está sentado, mas parece uma montanha, mesmo que seus músculos estejam
ocultos por um terno escuro. Ele também não parece ser o
namorado de alguém. Dono. Possuidor. Chefe. Rei. Feitor de escravos. Nunca namorado.
Bom, acho que até combina com o papel que inventei para ele. Cowboys não devem ser simpáticos ou metade
do charme desapareceria.
A parte de deduzir que é cowboy e de morar no Wyoming fica por conta do chapéu que descansa em cima
da mesa — lembre-se do que eu falei sobre ser boa em
improvisar — porque em todo o resto, sua aparência é a de um bilionário.
É, talvez eu tenha errado feio na escolha do meu alvo para namorado fictício. A chance de que ele vá me ajudar a
sair dessa encrenca é mínima.
O homem é lindo de morrer, mas também parece arrogante. Um queixo firme e orgulhoso. Nenhuma das
características que me servem agora. Apesar disso, não tenho alternativa. Meu encontro não
se mostra disposto a desistir, andando ao meu lado e a intuição diz que ele não será cavalheiro o suficiente para
simplesmente deixar para lá e me desejar uma boa noite sem tentar nada.
Obrigada por isso, Luna. — Penso, mas imediatamente
me arrependo. Ela só queria me proporcionar uma noite feliz.
Internamente, torço para que a minha encenação não precise ir tão longe e que Aiden se manque e vá embora,
mas pelo canto do olho percebo que ainda me segue.
Merda. Agora não tem mais jeito. Estou parada na frente da
mesa do cowboy. — Não sabia que ainda estava na cidade, amor. Minha
irmã lhe disse onde poderia me encontrar? Deixe-me
apresentá-lo ao meu amigo — falo, me aproximando do homem sexy, mas sem fazer contato visual com ele, no
entanto. Não tenho dúvidas de que meu encontro não deve estar nada satisfeito, enquanto o ricaço deve me achar doida de
pedra. — Aiden, esse é o meu namorado. Na verdade,
tecnicamente falando, é ex, mas a gente fica indo e
voltando, sabe como é… — Solto, sem sequer respirar. — Toda vez que ele vem a Boston, temos uma recaída. Eu
havia me esquecido de que combinamos de tomar um drinque antes que ele volte para suas vacas, touros e
todas as coisas que os homens do Wyoming costumam
lidar. — Continuo, gesticulando, nervosa para caramba. Nos meus momentos de estresse, meu sangue italiano
aflora, então meus braços e mãos são usados sem
qualquer vergonha.
Dou mais um passo para perto dele, mas acho que Aiden ainda não está convencido do meu teatro.
Droga. O cara parece um cachorro que não quer largar o
osso. O desconhecido se levanta e não acho que seja porque
está disposto a me ajudar, mas por mera educação. Nada
em sua postura demonstra simpatia.
Já não sei mais o que fazer para me livrar dessa
situação e espero com os dedos cruzados que o cowboy bilionário não me desmascare.
Ergo a cabeça, me obrigando a encará-lo e imploro com
o olhar para que ele não me desminta.
— Que bom que conseguiu ficar em Boston por mais um
dia. Como anda sua tia Mary Beth? — Invento o primeiro
nome duplo que vem à minha mente. — Espero que todos estejam animados com a festa anual da vaca leiteira. —
Continuo firme na encenação.
Jesus, cale a boca Antonella. Não exagere.
Tentando impedi-lo de negar nossa relação, fico na
ponta dos pés e dou um beijo na bochecha do lindo. O homem primeiro congela ao sentir meus lábios contra
sua pele, mas graças a Nossa Senhora da Percepção Rápida, ele parece finalmente compreender que estou em uma enrascada.
— Oi, boneca. As vacas e touros mandam lembranças.
Assim como minha avó, Mary Grace, claro.
Ele enfatiza a palavra avó, talvez tentando me confundir,
mas se pensa que vai me fazer recuar, está enganado.
— Claro, amor. Sua avó. É que ela é tão conservada que ninguém acreditaria que já tem um neto tão… tão… adulto.
— Você está atrasada para o nosso jantar. — Ele me
corta, parecendo totalmente dentro do papel agora.
Quase sofro um ataque do coração quando sinto seu
braço envolvendo minha cintura e me puxando ao encontro do seu corpo musculoso.
Por um instante, eu me esqueço do porquê ter me
aproximado dele. O homem é cheiroso, o que está me
deixando quente e um pouco tonta.
Apesar da vergonha por tanta intimidade com um estranho, minhas mãos se agarram aos ombros largos. Não posso voltar atrás no teatro agora, certo?
Rá! Pior desculpa da vida. Até parece que meu corpo
inteiro não está formigando pelo contato com o dele. — Sua irmã disse ao seu ex onde estava, sabendo que
tinha um compromisso comigo? — Aiden quase grita.
— Aham, mas acho que talvez ela tenha esquecido. Sua
memória é péssima. Ela tem até tomado umas vitaminas.
Sinto muito. Foi ótimo conhecê-lo, Aiden, mas agora você já pode ir.
— Sua pira…
Em um segundo, a mão livre do cowboy segura meu
encontro embuste pelo colarinho.
— Cuidado. É da minha garota que está falando. Jesus Cristo, seu sotaque é sexy demais! Deveria ser
proibido alguém com essa aparência ainda ter uma voz
capaz de fazer minha pele se arrepiar.
Na hora em que ele disse minha garota, tudo o que eu
pensei foi: é isso mesmo. Sou sua. Pode pegar. Tenho que confessar que ele fica lindo com esse lado
macho alfa aflorado.
A cena é meio bizarra — eu praticamente imprensada
entre dois homens — mas o bar já está vazio então não há ninguém prestando atenção em nós, além do pianista e
alguns garçons.
Prendo a respiração, torcendo para que não haja um
escândalo. Não quero que a única vez na vida que venho a
um lugar chique acabe parando nos jornais não na coluna de celebridades, mas pelas páginas policiais.
Depois do que parece uma eternidade, Aiden finalmente
desiste.
— Não acredito que viajei para Boston só para passar
por isso. Tanto trabalho para inventar uma desculpa para minha esposa e saio sem sequer uns amassos. Inferno de
noite!
Ele vai embora pisando duro, mas antes que eu tenha
tempo de ficar chocada pela palavra esposa, o meu namorado de mentirinha segura meu queixo e me faz
encará-lo.
— Acho que agora mereço meu beijo de boas-vidas,
namorada.
E então, como se uma Antonella totalmente diferente da que eu fui até hoje surgisse, meus braços vão para o seu
pescoço e ergo a cabeça, colando nossos lábios.
Eu quero muito provar sua boca.
Talvez a comemoração do meu aniversário não esteja
perdida, no fim das contas.
Capítulo 4 Hudson
Piano-bar do Hotel Caldwell-Oviedo Tower
Observo o líquido âmbar dentro do copo em minha mão, recostado em uma cadeira de encosto alto, no piano-bar do hotel em que estou hospedado. Não sou muito chegado a hotéis, mas tenho que admitir
que meu amigo Guillermo[11] conseguiu fazer um excelente trabalho com a rede de luxo de sua família ao redor do
mundo.
O lugar está praticamente vazio, mas mesmo que não
fosse o caso, não sentiria vontade de olhar em volta. Seres
humanos me cansam rapidamente.
A música é agradável, suave, o que combinado ao uísque de excelente qualidade, serve para melhorar um pouco o meu estado de espírito de merda. Passei o dia todo em reunião com elementos-chave do meu partido e posso dizer sem medo de errar que essa é a parte desagradável de me tornar um político — fazer política. Eu sabia que a caminhada para o poder seria
relativamente irritante porque tenho prazo de validade para lidar com gente, mas nunca recuei diante do que quero e
não começarei agora. Pego um movimento pela minha visão periférica e
quando viro a cabeça para olhar, há uma mulher e um homem vindo em minha direção. Sim, isso mesmo.
Uma mulher e um homem, porque eles nem de longe parecem um casal.
Primeiro acho que estão me confundindo com alguém, mas rapidamente enxergo a determinação nos olhos da beleza curvilínea que se aproxima.
Linda não chega nem perto de descrevê-la. Ela é um espetáculo de se olhar. Alta, corpo delicioso,
cintura fina que passa por quadris largos e segue em pernas infinitas. O vestido preto que usa se agarra como se
tivesse sido moldado nela. Seus seios são cheios e para completar, tem um rosto de traços perfeitos. Quase perfeito
demais, se não fosse a boca carnuda. Aqueles lábios são um convite para o pecado. Os cabelos abundantes, caem soltos pelas costas.
Gostaria que o bar fosse mais iluminado para poder observar melhor seus olhos. Ela está bem perto agora e ainda assim não consigo identificar completamente a cor. Algo entre o avelã e o verde. Acho que eu precisaria de algumas horas para conseguir
absorver sua beleza completamente. Antes que eu tenha oportunidade de continuar meu exame, no entanto, ela, agora já parada à minha frente, diz.
— Não sabia que ainda estava na cidade, amor. Minha irmã lhe disse onde poderia me encontrar? Deixe-me apresentá-lo ao meu amigo. Em um primeiro momento, volto a considerar se não está me confundindo com outra pessoa, mas então ela
completa e sua voz soa muito nervosa. — Aiden, esse é o meu namorado. Na verdade, ex, tecnicamente falando, mas a gente fica indo e voltando, sabe como é… — O quê? — Toda vez que ele vem a
Boston, temos uma recaída. Eu havia me esquecido de que combinamos de tomar um drinque antes que ele volte para suas vacas, touros e todas as coisas que os homens do Wyoming costumam lidar.
Levanto-me e olho para ela, tentando avaliar se está alcoolizada ou sob o efeito de algum tipo de droga, mas seu olhar é firme e um tanto desesperado. Vacas do Wyoming? Ah, o chapéu. Sim, ela deve estar tentando se livrar do seu acompanhante.
A mulher é criativa e quase me faz sorrir, o que é raro em mim. Ela se aproxima e continua falando sem parar. — Que bom que conseguiu ficar em Boston por mais um
dia. Como anda sua tia Mary Beth? Espero que todos estejam animados com a festa anual da vaca leiteira. Agora meu esforço para evitar que o canto da minha boca se erga em um sorriso se torna um pouco maior. Mas qualquer graça desaparece quando ela cola nossos
corpos e me dá um beijo na bochecha. Sentir seus lábios contra a minha pele faz com que uma espécie de choque elétrico atravesse meu corpo, despertando meu tesão imediatamente. Olho para ela e a proximidade de sua boca é muito tentadora.
Agora, tudo o que eu quero, é que o idiota que parece estar incomodando-a suma para ficarmos sozinhos, então faço seu jogo. — Oi, boneca. As vacas e touros mandam lembranças.
Assim como minha avó, Mary Grace, claro. — Não resisto a provocá-la, corrigindo ao usar o avó ao invés de tia. — Claro, amor. Sua avó. É que ela é tão conservada que ninguém acreditaria que já tem um neto tão… tão… adulto. Porra, ela é uma graça. Quantos anos terá? Parece
jovem, mas se estava em um bar a essa hora não pode ser tão nova assim. — Você está atrasada para o nosso jantar. — Continuo. Tentando apressar o processo de nos livrar do bastardo,
puxo-a pela cintura, não deixando qualquer espaço entre nós. Merda! Jogada errada. Minha perna agora está praticamente entre suas coxas e percebo que está tão afetada pelo contato quanto eu. Para
minha surpresa, ela não só não tenta me afastar, como ambas as mãos pousam em meus ombros. — Sua irmã disse ao seu ex onde estava, sabendo que
tinha um compromisso comigo? — O homem fala e só então eu lembro que não estamos sozinhos.
Dominika teria um ataque do coração se soubesse que estou agarrado a uma estranha em público. Além de poder
ser prejudicial para a campanha, isso não é quem eu sou.
— Aham, mas acho que talvez tenha esquecido. A memória dela é péssima. Ela tem até tomado umas
vitaminas. Sinto muito. Foi ótimo conhecê-lo, Aiden, mas agora você já pode ir. — Tenta dispensá-lo mais uma vez.
— Sua pira…
Imediatamente seguro-o pela camisa e conforme aperto, vejo seu rosto se transmutar em um vermelho intenso. — Cuidado. É da minha garota que está falando.
Alguns garçons passam discretamente, observando a
cena, mas eu só solto o homem quando ele ergue as mãos em sinal de rendição.
Isso é tudo que está disponível no momento.
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