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Capítulo 2 A mentira perfeita
Romeo Ferri A mulher, não tão desconhecida assim para mim, me encarou com seus grandes olhos expressivos. Sorri porque, embora ainda não confiasse por completo naquela situação, ela havia escolhido a pessoa errada para provocar ciúmes no ex. Ou a pessoa certa, dependendo do ponto de vista. No meu caso, aquilo me favorecia. A mulher contratada para me acompanhar durante o evento não havia aparecido, e eu já estava irritado com a certeza de que minha família, mais uma vez, me encheria de perguntas e julgamentos. A minha chegada sem acompanhante, serviria como mais uma prova de que eu não tinha estabilidade suficiente para assumir também os negócios da Itália, justamente o argumento que alguns membros do conselho ainda insistiam em usar contra mim. Agora, porém, eu tinha a mentira perfeita literalmente sentada em meu colo. Se soubesse conduzir aquela situação, teria uma boa chance de conseguir o que queria e manter tudo sob controle, como sempre fazia. — Você nem sabe meu nome... — murmurou apenas para mim, sem imaginar que eu já a conhecia, ao menos pelos stories e pelas fotografias publicadas pela noiva do meu melhor amigo. Circulávamos entre as mesmas pessoas, mas eu permanecia em Nova York durante boa parte do tempo e nunca permitia que publicassem fotografias minhas. Por esse motivo, nossos caminhos haviam se desencontrado até aquele momento. Alina, pelo visto, realmente não sabia quem eu era. Se aquilo também fosse uma mentira, ela era convincente o bastante para trabalhar para mim. — Vovô, papai, esta é Alina. Lamento não terem se conhecido antes, mas posso garantir que ela é uma doçura... Apertei sua cintura enquanto falava, usando o mesmo tom tranquilo com que apresentaria uma mulher que estivesse ao meu lado havia meses. Quando nós viramos em direção aos patriarcas da minha família, senti o corpo dela enrijecer discretamente contra o meu. — Prazer... — disse, oferecendo-lhes um sorriso desconcertado. Ela ainda não parecia compreender exatamente o que estava acontecendo, mas não tentou fugir nem me desmentir, o que, ao menos naquele momento, era ótimo para mim. — Não importa — respondeu meu avô. — Agora teremos tempo para conhecê-la melhor durante estes dias. Aquela era uma ideia que eu deveria considerar com mais cuidado. Meu pai e meu avô não estariam presentes durante os quinze dias de celebração do casamento, mas eu precisaria do apoio de Alina em outras ocasiões e poderia recompensá-la muito bem por isso. Ela, por sua vez, provavelmente gostaria de continuar me exibindo diante do ex-noivo. Parecia simples ou, pelo menos, simples o bastante para funcionar. — É um prazer conhecê-la. Sou Giancarlo Ferri, e este é meu filho, Marco Ferri — apresentou-se meu avô, estendendo a mão. Alina retribuiu o gesto com um sorriso discreto. — O prazer é meu. Sou Alina Almeida Bellardi. Meu pai sorriu antes de estender a mão para ela. — É um prazer finalmente conhecer a namorada do meu filho. Almeida não é um sobrenome italiano. Origens portuguesas? Ele soltou a mão dela, mas continuou observando-a com interesse. Alisei discretamente o braço de Alina, encorajando-a a responder e deixando claro que não pretendia permitir que se afastasse naquele momento. — Na verdade, brasileiras. Minha mãe era brasileira e meu pai, italiano... — Giovanni Bellardi? Conhecemos o escritório de arquitetura dele e já trabalhamos juntos algumas vezes. Eu não sabia que era filha dele. — Sou sobrinha. Ele é irmão do meu pai... Algo mudou na voz dela. Foi uma alteração sutil, mas perceptível. Seu sorriso diminuiu, e os olhos, até então educadamente atentos, perderam parte da leveza. Eu não sabia o motivo daquela reação, mas reconhecia quando alguém não queria continuar determinado assunto. — Acho que, por hoje, já é o suficiente — intervim. — Lamento apresentá-la com tanta pressa, mas já tínhamos um passeio programado. Se nos derem licença... Levantei-me, mantendo Alina diante de mim, e segurei sua mão sem esperar a resposta deles. Saímos enquanto ela ainda se despedia apressadamente da minha família e tentava acompanhar meus passos. Quando atravessamos a multidão da recepção, foi impossível ignorar os olhares curiosos sobre nós. Algumas pessoas acompanharam nossa passagem de maneira pouco discreta, provavelmente tentando descobrir desde quando Romeo Ferri tinha uma namorada que ninguém conhecia. Sem falar no ex dela. Lorenzo não escondia o interesse pelo tipo de relacionamento que eu mantinha com a mulher que levava pela mão. Talvez houvesse algo além de curiosidade em seu olhar, e perceber isso não me desagradou. Continuei caminhando até alcançar uma parte mais afastada do grande terraço, de frente para o mar. Ali, as conversas se transformavam em um ruído distante, enquanto as luzes de Portofino começavam a se refletir sobre a água. Assim que ficamos longe o bastante dos olhares curiosos, Alina retirou a mão da minha. — Como sabe meu nome? Apoiei-me no parapeito e a observei. — Você beija um desconhecido e só agora se preocupa porque ele sabe seu nome? Ela estreitou os olhos diante do meu sorriso. — Pedi desculpas por isso, mas você também me usou. — Discordo. Nós dois aproveitamos uma oportunidade e podemos continuar aproveitando. — O quê? A confusão voltou imediatamente ao rosto dela, tornando evidente que eu precisaria explicar algo que, para mim, parecia bastante simples. — Se ainda não descobriu quem sou, meu nome é Romeo Ferri. Posso pagar muito bem por sua discrição e pelo seu tempo durante estes dias. Preciso que sustente essa mentira diante da minha família e dos meus amigos. Diga quanto deseja e eu pagarei. A culpa e o embaraço desapareceram do rosto dela, rapidamente substituídos por uma irritação que foi quase fascinante acompanhar. Seus olhos se estreitaram, as sobrancelhas se juntaram e os lábios que estiveram presos aos meus poucos minutos antes se comprimiram em uma linha indignada. Alina ergueu a mão, e segurei seu pulso antes que ela conseguisse me atingir. — Você está louco? Está mesmo me oferecendo dinheiro como se eu estivesse à venda? — Não exagere. Estou oferecendo uma compensação pela sua ajuda e silêncio. Além disso, o que pretende fazer? Voltar para a festa e mostrar ao seu ex que ainda não o superou? Suas bochechas coraram imediatamente. A mudança foi tão rápida que, por um momento, considerei a possibilidade de ter sido direto demais. Mas não estava completamente errado. Eu não havia planejado nada daquilo, porém seria útil para ambos se ela colaborasse. Eu precisava manter minha família satisfeita durante aqueles dias, enquanto Alina precisava sustentar a mentira que havia criado para não parecer abandonada diante do ex-noivo. Não era um acordo complicado. Pelo menos, não deveria ser. — Escute bem: agradeço a ajuda, mas estamos quites. Acabamos por aqui. O lábio dela tremeu ao pronunciar as palavras, embora sua voz permanecesse firme. Provavelmente eu havia sido prático e direto demais, mas ainda estava disposto a argumentar até chegarmos a um acordo quando ela se virou e começou a se afastar. — Alina... Ela interrompeu os passos e olhou para mim por cima do ombro. — Quer saber, Romeo? Quero que você vá se foder. — Levantou o dedo do meio. Alina não esperou minha reação. Apenas seguiu pelo caminho que levava de volta à festa, deixando-me sozinho diante do mar. Dannazione. Eu havia estragado a oportunidade perfeita que o destino colocara em meu colo.
Lista de capítulos
19 capítulos no total
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