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Capítulo 2 Emely
Pov — Matthew
O silêncio da noite na Ala 17 era diferente do silêncio da Rússia.
Lá fora, em São Petersburgo, o silêncio significava que algo estava prestes a explodir. Aqui, significava apenas que os seguranças estavam entediados e os pacientes dopados.
Eu ficava acordado de propósito. Não por insônia , por estratégia. O homem que dorme em território inimigo é o homem que morre primeiro.
A cama era desconfortável. O lençol, áspero. O travesseiro cheirava a amaciante barato e desespero.
E ainda assim eu pensava nela.
Emely.
O nome ecoava no teto baixo do quarto de isolamento. Eu o repetia em silêncio, testando as sílabas.
E-me-ly.
Ela tinha mãos que tremiam, mas uma voz que não quebrava. Olhos castanhos escuros que tentavam ser duros e falhavam miseravelmente.
Ela não era como os outros.
Os outros funcionários entravam no meu quarto como quem entra num campo minado. Andavam nas pontas dos pés. Falavam devagar. Fugiam com qualquer desculpa.
Ela entrou, trancou a porta (erro amador), sentou na cadeira mais próxima (erro maior ainda) e me encarou como se eu fosse um problema a ser resolvido, não uma ameaça a ser evitada.
Isso era... refrescante .
Na manhã seguinte, eu já sabia o horário dela.
Chegava às 7h43. Dezessete minutos antes do turno oficial. O cabelo preso de um jeito diferente a cada dia, mas sempre com alguns fios soltos.
Naquela quarta-feira, ela apareceu no corredor às 7h46.
Eu estava sentado no chão do meu quarto a cama era desconfortável demais para qualquer coisa além de dormir. Os braços repousavam sobre os joelhos dobrados. Posição relaxada.
Mentira. Tudo em mim era ameaçador. Eu só sabia disfarçar.
- Bom dia, Sr. Volok.
- Matthew.
Ela suspirou. A pasta foi parar no chão ao lado da cadeira.
- Bom dia, Matthew. Hoje temos entrevista de rotina. Vinte minutos.
- Pode ser mais.
- Não pode.
- Você não quer ficar mais tempo comigo? Ela me olhou por cima da prancheta.
- Não.
Mentira.
Sentei na cama. Ela ficou na cadeira. Um metro e meio de distância. Ar condicionado ligado. Porta trancada novamente.
- Porquê psiquiatria? - perguntei, antes que ela abrisse a primeira pergunta do formulário.
- Eu quem faço as perguntas.
- E eu quem não responde se não receber uma resposta antes.
Ela hesitou. Os olhos castanhos piscaram duas vezes rápidas tique nervoso. Morder o lábio inferior. Caneta girando entre os dedos.
- Um familiar - respondeu por fim. - Alguém próximo precisou. Não conseguiu ajuda boa.
- E você quer ser a ajuda boa.
- Quero ser melhor do que a que ele teve.
Havia uma história ali. Uma cicatriz recente, pelo jeito como ela desviou o olhar. Não era o momento de cutucar. Ainda.
- E você? - ela perguntou, recuperando o controle. - Porquê não está na Rússia?
- Férias forçadas.
- Sua ficha diz que você é chefe de uma organização.
- Diz?
- Você nega?
- Você acreditaria se eu negasse? Ela anotou alguma coisa.
- Não
O resto da entrevista foi tedioso. Perguntas sobre infância (privilegiada, solitária, violenta), sobre sintomas (nenhum), sobre medicações (recuso todas). Ela anotava tudo com uma letra miúda e organizada. Perfeccionista.
Quando o cronômetro apitou vinte minutos exatos ela se levantou.
- Até amanhã.
- Emely.
Ela parou. A mão na maçaneta.
- Você tem medo de mim?
A pergunta saiu mais baixa do que eu planejei.
Ela não virou o rosto. Só respondeu:
- Tenho medo é de começar a não ter mais.
A porta fechou.
Fiquei olhando para o espaço vazio onde ela esteve.
Começar a não ter mais medo.
Ela não sabia o perigo que isso representava. Para ela.
Nem para mim.
Mais tarde, o segurança careca Dmitri, ucraniano, ex-militar, fácil de ler , veio trazer o jantar. Bandeja com purê, carne cinzenta e um copo d'água.
- Gostou da novata? - ele perguntou, empurrando a bandeja pela abertura.
- O que você sabe sobre ela? Dmitri deu de ombros.
- Não muito afinal ela é apenas uma estagiária. Mas ao que parece a mãe está doente precisa de um rim, alguma coisa assim.
Meus dedos pararam no meio do caminho até o copo.
- Como você sabe disso tudo.
- Nós ouvimos algumas coisas . Ele saiu e trancou a porta.
Comi o purê em silêncio.
Mas se meu plano desse certo , se eu saísse daqui antes do previsto eu precisaria de toda a informação possível.
Lista de capítulos
74 capítulos no total
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