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A Ala 17
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Capítulo 3 Uma crise

Pov — Emely

O despertador tocou às 6h da manhã, mas eu já estava acordada há horas.

A luz do quarto ainda era azulada, madrugada resistindo em sair. Meu celular estava embaixo do travesseiro , eu tinha dormido com ele ali, esperando.

Nenhuma mensagem.

Levantei e fui direto para a cozinha. A chaleira apitou. Café. Caneca azul. A mesma de sempre.

Ligue para sua mãe pensei. Vai, Miller. Só para saber.

Apertei o contato da mãe primeiro. Nada.

Depois de dois toques alguém atendeu e não era a minha mãe.

- Enfermaria renal, bom dia.

- Sou filha de Antonella Miller. O que aconteceu com ela? A voz da enfermeira hesitou.

- A Sra. Miller foi admitida na emergência às 3h da manhã. Teve uma crise. Está estabilizada agora, mas ficará em observação.

O mundo girou um pouco.

- Eu... e ninguém me ligou.

- Ela pediu para não acordar ninguém. Disse que a filha trabalha muito.

Fechei os olhos. Claro que disse.

- Vou para aí agora.

- A sua mãe estará recebendo alta amanhã se não houver complicações. Não precisa vir correndo.

Não precisa vir correndo.

Como se eu conseguisse fazer qualquer outra coisa.

Peguei o ônibus das 7h20.

Não para o Blackwood. Para o Santa Lúcia.

No caminho, mandei mensagem para o Dr. Harrison:

"Emergência familiar. Não consigo ir hoje. Peço desculpas."

Ele respondeu três minutos depois. Um ok seco. Harrison não era do tipo que perguntava "está tudo bem?".

O hospital Santa Lúcia cheirava a flores artificiais e desinfetante agressivo. Subi para o terceiro andar. Corredor branco, macas, carrinhos de soro.

Mãe estava na cama 12.

Antonella Miller sempre foi uma mulher forte cabelo ruivo desbotado pelo tempo, mãos que trabalharam a vida inteira. Mas naquela cama, com o soro pendurado e olheiras fundas, ela parecia pequena.

- Não era para você vir - ela disse, sem abrir os olhos.

- Pois eu vim.

Sentei na cadeira ao lado. Pega na mão dela. Fria. Sempre fria .

- Foi só uma oscilação. A médica disse que meus níveis...

- Mãe!

...Estão piores, sim!

O nó na garganta apertou.

- Vamos encontrar um doador - falei a mesma frase que repetia há meses.

- Vamos.

Ela finalmente abriu os olhos. Claros. Cansados.

- Emely, você não precisa carregar isso sozinha.

- Quem mais vai carregar?

Ela não respondeu.

Ficamos assim o resto da manhã. Silêncio. Mãos dadas. O barulho da máquina de soro pingando.

Às 13h, a enfermeira trouxe comida. Comi sem sentir gosto.

Minha mãe dormiu e eu fiquei olhando pela janela.

Matthew.

O nome veio sem aviso. A imagem dele sentado na cama, olhos cinzentos me medindo.

"Você parece exatamente o tipo de pessoa que faria algo pior que isso."

Hoje eu estava afundando em algo que eu não sei se um dia vai mudar.

Saí do hospital de Santa Lúcia às 18h. E a noite já tinha caído.

No caminho de volta, passei em frente ao Blackwood. As luzes do estacionamento estavam acesas. Dava para ver as janelas da Ala 17 do outro lado do pátio e as grades, sempre grades.

Ele estava lá dentro.

Matthew.

Eu não devia pensar nele. Não hoje.

Mas pensei.

E o pior: uma parte de mim queria estar ali. Na cadeira de plástico. Com a prancheta. Com ele me olhando como se me desmontasse peça por peça.

"Você tem medo de mim?"

"Tenho medo de começar a não ter mais."

Peguei o ônibus para casa.

Naquela noite, dormi com o celular na mão.

E sonhei com aqueles olhos cinzentos.

Isso é tudo que está disponível no momento.

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Lista de capítulos

74 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 O paciente novo
  2. Capítulo 2Capítulo 2 Emely
  3. Capítulo 3Capítulo 3 Uma crise

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