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Capítulo 3 O orgulho
Ponto de vista de Perséfone. Contendo o choro, o meu filho continuou sentado em sua cadeira. O rostinho estava vermelho, os olhos marejados e com aquele soluço que me consternava. A professora Léa ajeitou os óculos sobre o nariz e o observou. Suas roupas, discretas e impecáveis, pareciam gritar sua adequação ao universo opulento e frio de Apolo. — Hoje faremos algo diferente, Ícaro — disse ela, pousando um livro ilustrado diante dele. — Você escolhe a história. Ele olhou para a capa e, em seguida, para o fundo da sala, onde eu estava. Nossos olhos se encontraram por um instante. O meu filho buscava refúgio em mim, mas eu só podia observá-lo de longe. — Eu estou aqui! — Balbuciei, esperando que a professora não me ouvisse. — Quer esperar mais um pouco? — perguntou Léa, sentando-se ao lado dele. Ele assentiu, calado. “Meu menino. Sempre tão contido. Sempre se contendo pelo medo dos adultos.” Poucos minutos depois, o som conhecido da bengala ecoou pelo corredor. “Ah não, lá vem ele”, olhando para a porta, pensei. Aquele homem era a personificação de Hades e causava medo não só a mim, mas aos funcionários que trabalhavam naquela casa. Apolo surgiu na porta. Erguido sobre a própria autoridade, com o rosto impenetrável, o corpo ainda mais rígido do que de costume. — Professora Léa — chamou, com aquela voz que nunca se alterava, nem para o bem, nem para o mal. Ela se levantou depressa. Os passos dela eram suaves, quase reverentes. Aproximou-se demais. — Ele ainda está muito abalado — disse Léa, num tom doce. — E me perdoe se me excedi, monsieur Apolo, mas... por que esse apego tão intenso de Ícaro pela babá? Ele parece buscar nela algo que… — Ela parou. “Diga. Diga o que pensa, vadia”. Apolo ergueu uma sobrancelha como se estivesse escutando os meus pensamentos. — As crianças se apegam a quem cuida delas — ele respondeu. — Perséfone cuida dele desde que nasceu. É isso o que eu sou? Uma babá, não uma mãe. — Ela o acolhe como se fosse a mãe do seu filho — insistiu Léa. — E o senhor parece permitir. O que é curioso vindo do senhor. O canto da boca dele se ergueu. “Ah, Léa… você não faz ideia do que provoca quando toca o orgulho dele.” — O seu horário terminou, professora — disse Apolo, seco. — Mas eu nem consegui dar a aula. — Volte amanhã, no mesmo horário, madame Roux. — Praticamente ordenou e se virou, mancando. Léa o acompanhou com os olhos semicerrados. Eu juro que vi fascínio. “Você acha que entende, professora Léa, mas não conhece o abismo de onde ele veio.” Quando ele desapareceu no corredor, ela sorriu. Virou-se para Ícaro, tentando recompor a doçura. — Você está liberado, Ícaro. Amanhã, vou contar uma história sobre dragões… Ícaro assentiu, com o queixo apoiado nas mãos. — Vamos. — Estendi a mão para ele. Ele levantou-se sem protestar. Quando chegamos à porta, senti um toque em meu ombro. Virei-me para Léa. — Amanhã, a sua presença não será permitida durante a aula. — A professora enfatizou. “Vadia!” Quis responder. As palavras queimavam na língua. Mas as câmeras estavam ali, penduradas como olhos que jamais piscavam. Contida, eu dizia para mim mesma, “‘Não dê a ele motivo. Fica quieta.” — Vamos, mamãe! — Ícaro me chamou, de longe. Léa arqueou as sobrancelhas, surpresa. “É isso aí, sou a mãe e não a babá do meu filho” Saí da sala com as mãos cerradas e o coração latejando. O som dos passos de Ícaro era leve e saltitante. Fui atrás dele, guardando a raiva no fundo da garganta, junto de tudo o que me proíbo de sentir.
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Ao cair da tarde, eu quis ficar um pouco no jardim, já que a casa inteira parecia respirar ódio. Minhas mãos estavam entrelaçadas no colo, os olhos perdidos entre as flores lilases e o meu filho que brincava com o carrinho no meio das pedras. Anos atrás, Apolo se recuperou, mas com ajuda do pai, ele me impediu de ir embora com Ícaro. Numa manhã de verão em Atenas, o meu filho foi tirado de mim e levado por uma decisão judicial quando Apolo exigiu a guarda total de Ícaro. Era óbvio que ele usou a influência de Eros Velentzas para tomar a única coisa mais preciosa que eu já tive na vida. A mim, ele concedeu apenas um trabalho de ser a babá do meu filho e dormir na ala dos empregados. Não houve um dia que não amaldiçoasse Eros por ter mandado Apolo pra aquela casa na França. E O rosto se contraiu por um instante, e uma lágrima escorreu. Sentia o gosto salgado da dor ao tocar o queixo. Após secar o meu rosto com as costas das mãos, tomei um gole do meu chá preto, que já estava completamente frio. Foi então que ouvi o som ritmado dos passos e o toque seco da bengala. Nem precisava olhar pra saber que era Apolo. — Está no seu horário de folga? — perguntou, a voz grave e rude. Não me virei. — Sim, senhor. Ele caminhou até ficar ao meu lado, com o olhar voltado para o mesmo jardim onde o sol tocava o rosto dele de lado, acentuando o seu rosto com queixo proeminente mandíbula quadrada. — O que disse para a professora do Ícaro? — Ele perguntou, sem me encarar. Virei o rosto só o suficiente para vê-lo de relance. A barba sombreava-lhe o maxilar. Os olhos profundos ainda estavam fixos no jardim onde o nosso filho brincava.
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