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Capítulo 3 Ouro não substitui pulmões

A sala de estudos em Oakwood Hall não era grandiosa, tampouco ornada de dourados e estuques como as dos palácios que Lady Alexandra tanto admirava nos relatos de viagem.

Era, no entanto, funcional: paredes claras, estantes carregadas de volumes didáticos, um globo terrestre com o eixo inclinado e, sobre a lareira apagada, retratos sérios de antepassados que, a julgar pelas expressões, jamais sorriram em vida.

Mary estava sentada à mesa com Sophie, a caçula, ajudando-a a decifrar, com infinita paciência, as letras miúdas de um livro de histórias bíblicas. A menina franzia a testa diante das palavras difíceis, enquanto Mary a corrigia com brandura, apontando com o dedo delicado e sussurrando:

- Aqui não é "berre", querida, mas "bere"- "Bere-shit"... veja? É "Bereshit", o começo de tudo.

Sophie soltou uma risadinha nervosa, mais interessada em brincar com a pena de escrever do que em absorver a lição.

Do outro lado da sala, Catherine presidia as práticas musicais: Eleanor dedilhava as teclas do piano com entusiasmo imprudente, arrancando notas rápidas e trôpegas; Grace, de postura impecável, parecia mais interessada em admirar o reflexo de seus próprios cachos escuros na tampa envernizada do instrumento do que em aprender a compor um acorde decente. Catherine, com paciência, corrigia ambas, batendo o compasso com a régua de marfim.

De repente a porta abriu-se com um estalo dramático.

- Ah, minhas filhas, - exclamou Lady Alexandra, adentrando feito uma rajada de vento - vosso pai é o homem mais impossível de toda a Inglaterra!

Todas pararam. Sophia deixou a pena escorregar no chão, Eleanor errou a nota e produziu um som tão agudo que até Grace se sobressaltou. Catherine ergueu o olhar, severa, mas nada disse. Mary, por sua vez, fitou a mãe com a calma irônica de quem já esperava tempestade.

Lady Alexandra arremessou as luvas sobre uma cadeira. Caminhava de um lado ao outro da sala, gesticulando com as mãos finas.

- Imagine, meninas, vosso pai, ao ouvir que o herdeiro dos Blackwood regressou de Cambridge e está pronto para casar-se, não demonstrou senão tédio! Tédio, vejam só! Estava mais preocupado com... oh, com eleições, reformas, tumultos em Paris, como se alguma dessas coisas tivesse a menor relevância para esta família!

Grace tapou a boca para conter uma risada, mas não resistiu a um comentário:

- Talvez papai queira casar-nos com um francês revoltoso...

Eleanor riu alto, ganhando um olhar de repreensão de Catherine, que tentava manter alguma ordem.

Mary, porém, limitou-se a inclinar levemente a cabeça, observando a mãe.

- Sim, zombem à vontade! - continuou Lady Alexandra, erguendo o indicador - Mas quando virdes as Cavendish dançando nos salões de Blackwood Manor e sendo convidadas para jantares finos, lembrar-vos-eis desta hora em que vossa mãe, em sua infinita sabedoria, vos advertiu!

Sophie, olhos muito abertos, murmurou baixinho:

- Mas, mamãe, eu ainda nem sei ler direito... como poderei dançar no salão?

A frase provocou uma onda de risadinhas entre as irmãs, exceto Catherine, que manteve o semblante sério.

Lady Alexandra lançou-lhes um olhar indignado.

- Ora, basta! Riam, mas hei de arranjar-vos casamentos dignos. Ainda que seja preciso arrastar vosso pai pelas orelhas até Blackwood Manor!

Com isso, atirou-se a uma cadeira estofada, respirando fundo. As filhas trocaram olhares cúmplices, cada uma retornando lentamente à sua tarefa, mas não sem um último risinho abafado que fez Mary esconder o rosto no livro de Sophia.

•••

O quarto das irmãs Whitlock não era vasto, tampouco decorado com exuberância. Duas camas de madeira clara ocupavam as paredes opostas; havia uma pequena cômoda onde descansava um jarro de porcelana com água fresca, ao lado de uma vela que lançava sombras dançantes pelas paredes. As cortinas de linho já haviam sido fechadas, abafando o som distante dos grilos e o ocasional ranger da casa sob o vento.

Mary estava diante do espelho oval, penteando seus longos cabelos escuros com movimentos firmes e pacientes. Catherine, já deitada, com o lençol até o peito, observava a irmã com um meio sorriso, enquanto brincava com a fita azul que usara durante o dia.

- Não acha curioso, Mary - começou Catherine, com aquele tom entre confidência e malícia -, que todos estejam tão excitados com o retorno de Jonathan Blackwood?

Mary arqueou uma sobrancelha, sem desviar o olhar do reflexo.

- Curioso? Não sei se é curioso ou previsível. O herdeiro do condado volta depois de dez anos e de repente todas as mães começam a suspirar como se fosse o príncipe encantado.

- Oh, mas não deixa de ser encantador - insistiu Catherine, apertando a fita entre os dedos. - Ele sempre foi tão distinto...

Mary riu baixo, um riso abafado que se confundiu com o estalar da vela.

- Catherine, tínhamos o quê? Sete, oito anos quando o vimos pela última vez? Nessa idade todos os rapazes parecem distintos, até mesmo quando estão com o nariz escorrendo.

- Você sempre tão mordaz, Mary. Mas convenhamos, já estamos na idade. A mamãe não fala de outra coisa, e, para ser sincera, eu não me importaria em casar-me com qualquer jovem que tivesse aprovação dela e do papai. Desde que fosse adequado.

Mary virou-se lentamente, pente ainda na mão, e fixou a irmã com olhos sérios, azuis como os da mãe, e declarou:

- Eu, por outro lado, não suportaria passar a vida ao lado de alguém que me causasse repulsa. Não digo que precise ser um herói ou um poeta, mas ao menos alguém com quem se possa conversar sem sentir tédio ou desprezo .

Catherine suspirou, apoiando o queixo na mão e resmungou:

- Conversar... sempre você com suas conversas. E se a pessoa for riquíssima, de família impecável, mas sem nenhum assunto?

Mary voltou a sentar-se diante do espelho, recolhendo uma mecha de cabelo e prendendo-a com habilidade.

- Nesse caso, seria como viver numa casa dourada, mas sem ar para respirar. E, por mais valioso que seja o ouro, ainda não ouvi dizer que ele substitua os pulmões.

A irmã riu, rolando na cama igual uma criança.

- Ah, Mary, às vezes penso que você é velha demais para a sua idade.

- E eu penso que você se contenta fácil demais - retrucou Mary, mas havia doçura em sua voz, não reprovação.

O silêncio voltou por alguns instantes, preenchido apenas pelo chiar da vela. Catherine, já sonolenta, murmurou:

- Seja como for, amanhã a mamãe há de falar do senhor Blackwood outra vez. E depois de amanhã também.

Mary sorriu, apagando a chama com um sopro.

- Nesse ponto, não há como escapar.

Isso é tudo que está disponível no momento.

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Lista de capítulos

32 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 Filho do Conde Está de Volta
  2. Capítulo 2Capítulo 2 Sem convite
  3. Capítulo 3Capítulo 3 Ouro não substitui pulmões

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