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Capítulo 3 Bae-Te-Mi

Enquanto criava Estrela, também trabalhava muito. Eu havia herdado de papai o dom para o desenho e, enquanto trabalhava como atendente na loja de titia, aproveitava as horas mais tranquilas para desenhar joias. Aos poucos, comecei a mostrar os esboços para algumas clientes da loja. Na verdade, a primeira vez aconteceu por acaso. Em uma tarde de pouco movimento, com a loja vazia, apoiei o caderno sobre o balcão e comecei a desenhar. Estava tão absorta que não percebi quando uma jovem entrou, parou ao meu lado e fixou o olhar no colar que surgia no papel. - Que lindo esse colar! É você quem desenha as bijuterias desta loja? Levantei a cabeça, surpresa com a presença dela. - Não. As mercadorias são compradas de fornecedores. Esse desenho é meu. Herdei esse dom de meu pai e de minha mãe. - Você não deveria guardar esse talento só para si. Esse colar merece se tornar uma joia rara, inédita e maravilhosa. Não tenha medo de empreender. Acredito que você ainda vai revolucionar o mundo das joias. - Obrigada. Fico muito feliz em ouvir isso. Sei que preciso fazer alguma coisa com meus desenhos, mas ainda tenho muitas dúvidas sobre como começar. - Siga sua intuição. No momento certo, você saberá o que fazer. A mulher saiu da loja sem olhar nenhuma bijuteria, mas suas palavras indicaram um novo caminho para mim. Naquela mesma hora, comecei a imaginar o que poderia fazer e como transformaria meus desenhos em um negócio. Meu primeiro ato, alguns dias depois, foi mostrar às clientes alguns esboços que eu já guardava. Minha intenção era contar com a sorte de alguma delas gostar e fazer uma encomenda. Isso, é claro, não aconteceu de imediato. Os primeiros desenhos se transformaram em bijuterias baratas e mais acessíveis, vendidas em grandes quantidades, ainda sem exclusividade ou marca registrada. Foi a primeira ideia que tive. Conversei com titia, ela aceitou a proposta e, juntas, começamos a procurar pessoas especializadas na confecção das peças. Quando Estrela completou cinco anos, começou a estudar. Eu já ganhava bem, agora como gerente das três lojas de titia, e consegui matriculá-la em uma escola particular. Foi ali que tive minha segunda grande ideia. Ao observar as mães, algumas bem mais velhas e muito mais ricas do que eu, percebi que levavam um padrão de vida elevado. Eram mulheres elegantes, que gostavam de peças bonitas e exclusivas. Entendi que poderia aproveitar aquela oportunidade. Em uma reunião de pais, levei minha pasta de desenhos, tudo já pensado. Eu havia chegado mais cedo para conversar com a diretora sobre a possibilidade de apresentar minhas criações. Lembro-me de que, parada diante da porta, antes de bater, senti uma enorme insegurança. Ainda assim, uma força maior me empurrou para a frente. Bati duas vezes. - Entre, por favor. Abri a porta e procurei esconder o nervosismo. - Oi, senhora. Tudo bem? Meu nome é Isabelle. Sou mãe de Estrela. - Tudo bem. Sente-se. A secretária avisou que você queria falar comigo. É algo particular sobre Estrela? Teremos uma reunião com os pais daqui a pouco. - É algo particular, mas não é sobre minha menina. É sobre algumas criações que faço. Sou designer de joias e tenho alguns desenhos. Vim pedir uma oportunidade para mostrá-los às mães. Já percebi que muitas delas gostam de joias, inclusive a senhora - falei, apontando para o belo colar que ela usava. A diretora tocou a peça junto ao pescoço. - Isto é bijuteria, embora seja um pouco mais elaborada. - Eu criaria uma bela peça para a senhora, se me desse essa oportunidade. Preciso de apenas cinco minutos. Ela me observou com interesse. - Posso ver seus desenhos antes? - Claro. Abri a pasta sobre a mesa. Quando a diretora olhou os dois primeiros desenhos, ficou extasiada. - São realmente muito bonitos. Meu coração se encheu de esperança. - Escolha um. O que a senhora escolher, retiro agora mesmo da pasta. Será um desenho exclusivo, criado somente para a senhora. Ela escolheu o primeiro. Depois de sua fala na reunião, concedeu-me a palavra. - Mães, vou conceder cinco minutos para Isabelle, a mãe mais jovem deste lugar. Por favor, venha até aqui. Tenho certeza de que vocês gostarão do que ela tem para falar e mostrar. Com a pasta nas mãos, peguei o microfone. Eu ainda tremia um pouco, mas a mesma força que havia me levado até a sala da diretora me empurrou mais uma vez. - Boa tarde a todas. Primeiro, peço desculpas se eu cometer algum erro em português. Nasci e morei na Coreia do Sul. Sou filha de pai brasileiro, descendente de coreanos, e de mãe coreana. Durante muitos anos, falei apenas coreano. Estou reaprendendo o português, mas ainda me atrapalho com algumas conjugações verbais. - Estamos entendendo tudo. Pode continuar - disse uma mãe, curiosa. Respirei fundo e prossegui: - Desde que coloquei Estrela nesta escola, observo mães lindas, chiques e elegantes. Contudo, senti que faltava alguma coisa. É isso que posso oferecer a vocês: desenhos de joias exclusivos, criados de acordo com o rosto, o corpo e até o modo de cada mulher se vestir e caminhar. Vou mostrar alguns. Entreguei a pasta à primeira mãe, que imediatamente olhou os desenhos com admiração. - Aprendi a desenhar ainda pequena. Meu pai sabe confeccionar as peças, e eu sei desenhá-las. Estes esboços nasceram de inspirações que tive observando vocês, suas roupas, seus gestos e seus sorrisos. - Isabelle, essas peças são lindas. Você trabalha por encomenda? - perguntou uma delas. - Sim. - Quero encomendar esta. Parece ter sido criada para mim - disse uma mãe, vestida com um elegante vestido de seda vermelho. - Esta pulseira. Sorri, porque ela tinha razão. - E foi. Observei a senhora e percebi que gosta muito de pulseiras. Saí da escola com três encomendas. Para mim, aquilo significava muito mais do que três vendas. Era a confirmação de que minhas ideias poderiam conquistar espaço. Ao chegar em casa, contei a papai o que havia feito. - E sua tia, filha? Ela lhe deu emprego e, em cinco anos, entregou a gerência das lojas a você. - Pai, já conversei com ela. Não estou fazendo nada escondido. Quero crescer, dar o melhor para Estrela e mostrar meu talento por meio de belas criações. - E o que sua tia disse? - Mandou que eu ganhasse dinheiro porque ela está cansada. Pensei que estivesse brincando, mas falou sério. Disse que, apesar do cansaço, só vai parar quando puder vender as lojas para mim. Somente para mim ela fará isso. Papai permaneceu em silêncio por alguns segundos, até sorrir. - Bom, então vamos trabalhar. Eu confecciono as peças, e você desenha. - Quanto vai me cobrar, papai? - Nada. Só quero que cresça como deseja e crie sua filha para ser uma pessoa maravilhosa, bem diferente do fraco do pai dela. - Sim, senhor. E pare de falar dele. Parece que o senhor e mamãe fazem questão de ficar me lembrando. - Não consigo nem imaginar que você ainda sinta alguma coisa por aquele rapaz. - Aff, pai! Vou dar banho em Estrela. E não enrole, porque temos prazo para entregar as peças. - E onde vai arranjar dinheiro para comprar o ouro e as pedras? - Vou dar um jeito. Aguarde. Encontrei Estrela dentro da banheira, brincando e dando banho em sua boneca. Ela cantarolava baixinho, distraída, enquanto enchia um pequeno recipiente de água e o despejava sobre os cabelos da boneca. Sentei-me perto dela, pronta para ajudá-la, quando minha filha soltou uma pergunta que eu jamais esperava ouvir naquele momento. - Mamãe, quem é o meu papai? Minha voz ficou presa na garganta, e minhas pernas começaram a tremer. Por alguns segundos, não soube o que dizer. Lembrei-me de Sung-Ji e de tudo o que havia acontecido. A vontade era de xingá-lo, esmagá-lo com toda a raiva que ainda guardava dentro de mim. - Filha, por que está me perguntando isso? Ela parou de brincar e me encarou com seus olhos curiosos. - Porque, na escola, todo mundo tem papai. Menos eu. Aquelas palavras apertaram meu coração. Procurei uma resposta que não machucasse uma menina de apenas cinco anos. - Filha, lembra que a mamãe já contou que sofreu um acidente, ficou dormindo por muito tempo e, quando acordou, não se lembrava de muitas coisas? - Sim, mamãe. - Então... a mamãe não se lembra. Era a desculpa mais esfarrapada da face da Terra, e eu sabia disso. Porém, por ora, teria que bastar. Estrela voltou a brincar, talvez satisfeita apenas por ter recebido uma resposta, mas eu não consegui afastar o peso daquela pergunta. Mais tarde, no quarto, abri uma gaveta e peguei a última foto que havíamos tirado juntos. Naquele dia, ainda fizemos juras de amor eterno. Sorríamos abraçados, acreditando que nada seria capaz de nos separar. Poucos dias depois, porém, Sung-Ji me disse palavras tão duras que rasgaram meu coração e mudaram para sempre o rumo de nossas vidas.

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Lista de capítulos

12 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 SOLIDÃO DO PARTO
  2. Capítulo 2Capítulo 2 Bae-Te-Mi
  3. Capítulo 3Capítulo 3 Bae-Te-Mi

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