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Capítulo 2 Finalmente livre
O quarto dos empregados girava ao meu redor.
Sentei-me na beirada do meu colchão estreito e agarrei os lençóis finos e cinzentos. Cada vez que eu respirava, era como se estivesse inalando cacos de vidro, de tanta dor que sentia. A rejeição não era apenas emocional, mas também física, e o vínculo rompido parecia uma ferida aberta no meio do meu peito, sangrando continuamente.
Ainda conseguia ouvir o som grave da música vindo da casa principal, ecoando pelas paredes, uma batida cruel que zombava do meu coração.
Tum. Tum. Tum.
Lá em cima, eles estavam comemorando. Provavelmente, Damon estava erguendo um copo de uísque, e Tiffany ria e se agarrava ao seu braço, enquanto os acionistas aplaudiam o novo CEO.
Aqui embaixo, eu estava morrendo.
Olhei para o relógio digital na minha mesa de cabeceira rachada, que marcava duas da manhã.
Damon havia me dito para ir embora até o meio-dia, pois queria que eu estivesse fora de vista para poder bancar o Alfa feliz com sua nova Luna perfeita.
"Não", sussurrei para o ar vazio. "Não vou esperar até o meio-dia."
Se eu o visse de novo, certamente desmoronaria. Se eu sentisse aquele cheiro de chuva e baunilha mais uma vez, acabaria implorando para que ele me aceitasse de volta, e eu não podia fazer isso. Por mais que eu tivesse pouco orgulho, tinha o suficiente para saber quando não era desejada.
Eu não precisava muito tempo para arrumar minha mochila, já que não tinha muita coisa para levar.
Peguei três calças jeans, quatro camisetas, minha escova de dentes e a pequena foto emoldurada dos meus pais antes do acidente. Enrolei a foto cuidadosamente num suéter, a única coisa que me restava da vida em que eu era importante para alguém.
Abrindo a gaveta de cima da minha cômoda, tirei um envelope colado na parte de trás da madeira, que continha meu dinheiro de emergência, economizado com as gorjetas dos últimos cinco anos.
Quando contei, vi que havia quatrocentos.
No mundo dos Alfas bilionários como Damon, isso era menos do que o custo de uma única garrafa de vinho. Já no meu mundo, era tudo, e teria que durar até que eu encontrasse um emprego.
Fechei o zíper da mochila, que parecia tão pequena para conter toda a minha vida, pesando menos de cinco quilos.
Olhei para o meu celular sobre o travesseiro, um modelo antigo fornecido pela matilha para comunicação de trabalho.
"Deixe ele aí. Eles podem te rastrear", uma voz na minha cabeça sussurrou.
Peguei o aparelho e meu polegar pairou sobre a tela.
Uma parte de mim queria enviar uma mensagem para Damon, gritar com ele, xingá-lo e dizer que ele havia cometido o maior erro da vida, mas o silêncio era uma arma mais poderosa.
Então, coloquei o celular de volta na cama e deixei meu cartão-chave ao lado. Depois, coloquei a mochila no ombro e abri a porta, revelando um corredor vazio.
Como a maioria dos funcionários ainda estava trabalhando na festa, mantive a cabeça baixa e fui rapidamente em direção à saída de serviço.
Meus sapatos rangiam suavemente no linóleo, me fazendo estremecer a cada som. Eu me sentia como uma criminosa fugindo de uma cena de crime, mas, na verdade, eu era a vítima ali.
Quando abri a pesada porta de aço nos fundos da cozinha, o ar frio da noite atingiu meu rosto, com cheiro de fumaça e asfalto úmido, ajudando a dissipar a névoa na minha cabeça.
Saí para a área de carga e descarga.
A propriedade era enorme, ocupando cinquenta acres de um terreno privilegiado nos arredores da cidade. Para chegar à estrada principal, eu precisaria passar pelas garagens e descer a longa entrada até o portão de segurança.
Mantendo-me nas sombras, passei pela garagem de seis carros e avistei o elegante Bugatti preto de Damon, que brilhava sob as luzes de segurança, parecendo uma fera pronta para atacar.
Parei, e uma nova onda de lágrimas ameaçou cair dos meus olhos. Lembrei-me de ter limpado aquele carro na semana passada. Eu havia esfregado as rodas até meus dedos sangrarem, pois queria que ele ficasse orgulhoso do seu veículo, e também havia polido os bancos de couro na esperança de que ele notasse o cheiro do limpador de limão e abrisse um sorriso.
Infelizmente, ele nunca notou nada disso, e nunca sequer me viu.
Afastando-me daquele carro, voltei a caminhar.
A entrada tinha um quilômetro de extensão e era ladeada por carvalhos antigos que projetavam sombras longas e assustadoras. O vento aumentou e atravessou meu casaco fino, me fazendo estremecer.
A cada passo que eu dava para longe da casa principal, meu peito doía cada vez mais. O vínculo estava tentando me puxar de volta, como uma força magnética me arrastando em direção ao Alfa, e minha loba choramingava na minha mente, querendo seu companheiro, sem entender por que estávamos indo embora.
"Ele não nos quer. Precisamos ir", sussurrei para ela.
Ela uivou de tristeza, mas parou de me puxar.
Quando avistei as luzes da guarita à frente, notei que os portões de ferro estavam fechados. Dois guardas armados estavam na cabine de controle, ocupados verificando as credenciais de uma limusine que acabara de chegar.
Eu conhecia os guardas. Um deles era Steve, um Beta gentil que às vezes me dava barras de chocolate às escondidas.
Se ele me visse, certamente quereria saber por que eu estava saindo às três da manhã com uma mochila. Ele poderia até mesmo ligar para a casa principal para verificar se eu tinha permissão para sair.
Eu não podia arriscar, então entrei na densa vegetação.
Os arbustos eram espessos e espinhosos, arranhando meu jeans e prendendo meu casaco. Mordi o lábio para conter um grito quando um galho atingiu minha bochecha.
Agachada, me movi paralelamente à cerca.
A cerca de cem metros do portão, havia um ponto fraco no perímetro, uma pequena fenda entre as barras de ferro e um carvalho antigo. Os paisagistas sempre diziam que iriam consertá-la, mas nunca o faziam.
Passei pela fenda, e o metal pressionou fortemente minhas costelas. Por um segundo, pensei que estava presa, o que fez o pânico se instalar no meu peito. Se eu fosse pega agora, seria uma humilhação tremenda.
Soltando todo o ar dos meus pulmões, me empurrei e logo consegui sair do outro lado. Após descer o barranco gramado, acabei caindo na calçada da rodovia pública.
Eu estava livre!
Levantei-me e limpei a sujeira dos meus joelhos, olhando para a propriedade uma última vez. A mansão estava no topo da colina como uma fortaleza de luz, com uma aparência bela e cruel.
"Adeus, Damon..." Minha voz estava embargada.
Dando as costas para a Matilha Lua de Sangue, comecei a caminhar em direção ao horizonte da cidade, que brilhava em um tom alaranjado à distância.
A caminhada foi brutal.
Levei quatro horas para chegar aos limites da cidade, e meus pés estavam cheios de bolhas por conta dos meus tênis baratos. A exaustão física era a única coisa que mantinha a dor emocional sob controle. Se eu parasse de me mover, as lembranças me consumiriam.
O sol começou a nascer quando cheguei ao centro da cidade, e o céu se transformou em um tom roxo e cinza azulado.
A cidade estava acordando. Caminhões de entrega passavam por mim, e passageiros engravatados corriam em direção às estações de metrô com copos de café nas mãos.
Aqui, eu me sentia invisível de uma forma diferente. Na casa da matilha, eu era invisível porque era uma empregada. Aqui, eu era invisível porque era apenas mais uma na multidão.
Quando passei por uma padaria, o cheiro de pão fresco fez meu estômago roncar, e percebi que não comia desde o almoço do dia anterior. Por mais que eu quisesse comprar um pãozinho, apertei a alça da minha mochila com mais força.
Só tinha quatrocentos...
Eu não podia me dar ao luxo de gastar dinheiro com comida. Eu precisava de um lugar para dormir.
Vaguei por mais uma hora até encontrar um bairro que parecia decadente o suficiente para ser acessível. Os prédios eram de tijolos e cobertos de grafites, e os carros estacionados na rua estavam enferrujados.
De repente, avistei uma placa de neon piscando acima de uma porta estreita.
Motel do Viajante. Tarifas semanais.
Quando abri a porta de vidro, um sino tocou.
O saguão cheirava a fumaça de cigarro e água sanitária. Um homem de cabelos oleosos estava sentado atrás de uma janela de acrílico, assistindo a um programa de jogos em uma pequena TV.
Ele ergueu a cabeça e percorreu com os olhos meu cabelo bagunçado e o arranhão na minha bochecha. "Carteira de identidade?"
Meu coração parou. Eu não tinha carteira de motorista, e minha identidade da matilha revelaria quem eu era, o que me impedia de usá-la.
"Eu... a perdi", menti, com a voz rouca. "Tenho dinheiro e posso pagar adiantado."
O homem estreitou os olhos, olhando para o dinheiro na minha mão e depois para o meu rosto desesperado. Por fim, deu de ombros.
"Cinquenta por noite. Sem convidados. Sem drogas. Se quebrar algo, paga."
"Está bem. Só preciso de uma noite", respondi rapidamente.
Deslizei uma nota de cinquenta sob o vidro, e ele me entregou um cartão-chave.
"Quarto 204. Lá em cima."
Peguei a chave e subi as escadas correndo.
O quarto 204 era bem pequeno. O papel de parede estava descascando nos cantos, com um carpete de um tom suspeito de marrom. Havia uma única janela que dava para uma parede de tijolos.
Era um quarto feio, sujo, mas, para mim, perfeito.
Afinal, era meu.
Larguei minha mochila no chão e me joguei na cama. O colchão era irregular e cheirava a poeira.
Deitada ali, fiquei olhando para o teto manchado de água.
Eu tinha dezoito anos, e estava sozinha numa cidade humana, com trezentos e cinquenta no bolso. Eu não tinha uma loba, nem família, nem companheiro.
Foi então que a realidade da minha situação desabou sobre mim como um tsunami.
Virei-me de lado e puxei os joelhos para o peito. A dor no meu coração se transformou em uma pontada surda, um lembrete constante do que eu havia perdido.
Porém, enquanto estava deitada ali, observando as partículas de poeira dançarem no raio de luz da manhã, senti algo a mais.
Eu estava livre.
Não precisava esfregar o chão, nem me curvar diante de Tiffany, nem ver Damon me ignorar como se eu fosse invisível.
"Vou superar isso", sussurrei, fazendo uma promessa a mim mesma. "Vou encontrar um emprego, ganhar dinheiro e me tornar alguém."
Com esse pensamento em mente, fechei os olhos, e o cansaço me dominou, me levando a um sono agitado, onde sonhei com olhos cinzentos e o cheiro de chuva.
Na época, eu não sabia, mas na verdade não estava tão sozinha quanto pensava.
No fundo do meu ser, uma pequena faísca de vida estava surgindo — um segredo que mudaria o destino de todo o mundo dos lobos.
Embora fosse apenas um aglomerado de células, já era forte e se mantinha resiliente, assim como sua mãe.
Lista de capítulos
201 capítulos no total
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