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Capítulo 3 A gentileza de estranhos
A fome me acordou antes que o despertador pudesse tocar.
Meu estômago se contorceu num nó apertado, roncando alto o suficiente para ecoar no pequeno quarto do motel, enquanto eu olhava para a mancha de água no teto. Por uma fração de segundo, esqueci onde estava, na expectativa de ver o beliche acima de mim no quarto dos funcionários e ouvir as outras empregadas se preparando para o turno da manhã.
Então, o cheiro de fumaça velha invadiu minhas narinas, o colchão irregular se cravou nas minhas costas, e a lembrança da noite anterior me invadiu como um raio.
Nesse momento, não era mais uma empregada, e sim uma fugitiva.
Sentei-me na cama e esfreguei os olhos para afastar o sono. Com a cabeça girando, senti que o quarto se inclinou para um lado por um momento antes de voltar ao normal. Tive que segurar a borda da mesa de cabeceira para me estabilizar.
"Você só precisa comer", disse a mim mesma. "Está fraca porque não jantou."
Peguei minha mochila e tirei a carteira, para contar as notas novamente, que totalizavam trezentos e cinquenta.
Paguei por uma noite, e o check-out era às onze da manhã, me dando apenas quatro horas para encontrar uma maneira de sobreviver.
Sem dúvidas, eu precisava de um emprego, e precisava de um hoje.
Arrastei-me até o pequeno banheiro. O espelho estava rachado e sujo, e quando olhei para meu reflexo, minha pele estava pálida, com olheiras sob os olhos, e meu cabelo era um emaranhado de ondas castanhas.
Joguei água fria no rosto e tentei arrumar meu cabelo com os dedos para fazer um rabo de cavalo.
Eu não tinha nenhuma maquiagem para disfarçar o cansaço, então tive que me contentar com isso.
Após vestir uma camisa limpa e meu único par de jeans, calcei meus tênis e coloquei a mochila no ombro.
Deixei o cartão-chave sobre a cômoda. Não voltaria esta noite, a menos que conseguisse dinheiro.
Lá fora, a cidade estava barulhenta com o trânsito da manhã.
O horário de rush da manhã estava a todo vapor, com carros buzinando e sirenes ecoando ao longe. As pessoas passavam por mim na calçada de cabeça baixa, olhando para seus celulares ou relógios, sem sequer me notar.
Caminhei pela rua principal, procurando placas nas vitrines.
"Precisa-se de funcionários."
"Contratando agora."
Uma ponta de esperança surgiu em mim, já que havia muitos empregos, e eu só precisava que alguém me desse um sim.
Primeiro, entrei numa cafeteria bem iluminada, o cheiro de grãos torrados e açúcar me dando água na boca.
Quando me aproximei do balcão, um gerente com uma prancheta me olhou de cima a baixo.
"Você tem dois documentos de identidade? E um cartão de seguro social válido?", ele perguntou sem que eu sequer tivesse a chance de falar.
"Eu...", comecei, engolindo em seco. "Os deixei em casa. Posso trazê-los amanhã?"
"É a política da loja. Sem identidade, sem documentos... sem emprego", ele disse sem nem sequer olhar para mim.
Com o rosto queimando de vergonha, saí do lugar.
Em seguida, tentei uma loja de roupas, mas eles também pediram identidade.
Depois, foi a vez de um supermercado, que exigiu licença de trabalho.
Por fim, em uma floricultura, o proprietário me pediu referências.
Ao meio-dia, sob um sol escaldante, eu já havia andado dez quarteirões e sido rejeitada seis vezes.
Meus pés latejavam e a bolha no meu calcanhar havia estourado, causando uma ardência contra minha meia, mas a dor física não era nada comparada ao pânico que crescia dentro de mim.
Eu era uma estrangeira ilegal no meu próprio país. Não tinha documentos, nem histórico. Eu era um fantasma.
De repente, meu estômago deu uma reviravolta violenta, e uma onda de náusea me atingiu com tanta força que tive que colocar a cabeça entre os joelhos, enquanto o mundo girava diante dos meus olhos.
Só podia ser estresse... Tinha que ser estresse!
Avistei um restaurante decadente escondido entre uma oficina mecânica e um armazém abandonado. A placa acima da porta estava sem várias letras, com apenas "DIN R" visível.
Havia um cartaz escrito à mão colado no vidro.
"Precisamos de lavador de pratos. Pagamento em dinheiro."
Pagamento em dinheiro...
Essas três palavras foram como uma tábua de salvação para mim.
Quando abri a porta, um sino tocou suavemente.
O lugar estava praticamente vazio, e o ar estava carregado com o cheiro de bacon frito e café velho. Um homem grande com um avental sujo de gordura estava atrás da chapa, mas meus olhos se desviaram para a garota sentada no balcão perto do caixa.
Ela era impressionante, com tranças roxas brilhantes presas num coque alto, uma pele de um marrom profundo e um piercing no nariz que brilhava sob a luz. Sua camiseta dizia "Not Today Satan".
Quando entrei, ela ergueu a cabeça, e vi seus olhos extremamente afiados, como se ela pudesse ver através de tudo.
"Estamos fechados para o intervalo do almoço. Volte às cinco", disse o homem na chapa.
"Vim por causa do emprego. A placa diz que vocês precisam de um lavador de pratos", eu disse, em um tom de voz firme.
Ele me olhou de cima a baixo, observando minhas roupas limpas e meu rosto jovem.
"Já trabalhou numa cozinha comercial, princesa?"
"Sim", menti. "Sou trabalhadora e rápida."
"É um trabalho sujo. Caixas de gordura, pratos sujos. Dez por hora. Pagamento em dinheiro."
"Aceito", respondi rapidamente.
Ele fez uma pausa, prestes a dizer não, o que eu podia ver claramente em seus olhos.
"Dê uma chance a ela, Sal", disse a garota de cabelo roxo, sua voz suave como veludo.
Ela pulou do balcão e caminhou até mim, parando a um metro de distância.
Ela não estava me farejando como um lobo faria, mas definitivamente estava me inspecionando. Seus olhos escuros se fixaram nas minhas mãos, que ainda estavam vermelhas por anos esfregando o chão da casa da matilha.
"Ela tem mãos de trabalhadora", disse ela, olhando para Sal. "E parece estar com fome. Você sabe que odeio lavar louça quando Marco falta."
Sal resmungou, apontando com a espátula em direção à sala dos fundos. "Tudo bem. Se Zoe diz que você pode ficar, então pode ficar. Os aventais estão lá atrás. Não quebre nada."
Olhei para a garota. "Obrigada."
Ela piscou. "Não me agradeça ainda. Espere até sentir o cheiro da caixa de gordura. A propósito, sou Zoe."
"Aria", eu disse.
"Prazer em te conhecer, Aria." Ela baixou a voz para que Sal não pudesse ouvir. "Está fugindo de um namorado ou da polícia?"
Fiquei paralisada com a pergunta. "O quê?"
"Relaxe. Ninguém vem para um lugar como este pedindo um emprego com pagamento em dinheiro, a menos que esteja fugindo de algo. Não me importo com o que seja, desde que você lave os pratos", disse ela, dando um tapinha no meu ombro.
Seu toque caloroso me trouxe uma sensação de segurança.
"A cozinha é por ali", ela apontou. "Grite se precisar de ajuda."
Quando entrei na cozinha, me deparei com um verdadeiro pesadelo. O lugar era minúsculo e quente, com o vapor da máquina de lavar louça deixando o ar pesado. Havia uma montanha de pratos sujos empilhados na pia.
Após amarrar um avental de plástico na cintura, comecei a trabalhar.
A água fervente e o sabão ressecaram minhas mãos instantaneamente, mas não me importei com isso. Eu tinha um emprego e uma aliada!
Trabalhei por quatro horas seguidas, enquanto minhas costas doíam e meus pés ficavam dormentes, e o calor na cozinha me deixou tonta.
Às cinco horas, o rush do jantar começou.
Zoe era um turbilhão de energia, carregando três pratos de uma vez, encantando os clientes e gritando os pedidos para Sal.
A cada vinte minutos, ela aparecia na cozinha para ver como eu estava.
"Está tudo bem aqui, novata?", ela perguntou, enquanto me entregava um copo de água gelada.
"Estou bem", respondi, enxugando o suor da minha testa.
"Beba. Você está pálida."
Tomei um gole da água, que atingiu meu estômago vazio como uma pedra.
De repente, o cheiro de cebola frita da chapa chegou até a pia, pungente e oleoso.
Meu estômago se revirou violentamente.
Larguei a esponja e, antes de ter tempo de me afastar da pia, vomitei. Não havia nada no meu estômago para ser expelido, mas meu corpo se contorcia em espasmos violentos.
"Uau!", exclamou Zoe, chegando ao meu lado num piscar de olhos e esfregando minhas costas. "Calma. Respire."
Quando vomitei novamente, meus joelhos cederam, mas Zoe, surpreendentemente forte para seu tamanho, me segurou e me ajudou a me sentar no chão.
"Desculpe", ofeguei. "Por favor, não me demita."
"Ninguém vai te demitir", disse Zoe, pegando uma toalha molhada e a colocando no meu pescoço. "Você só está com calor."
Então, ela me olhou atentamente, seus olhos se estreitando. Ela olhou para meu rosto pálido e depois para minha barriga lisa, e uma expressão estranha surgiu em seu rosto — não era de julgamento, mas sim de reconhecimento.
"Quando foi a última vez que você comeu?", ela perguntou suavemente.
"Ontem", sussurrei.
Zoe xingou baixinho, se levantando e indo até a chapa.
Pude ouvi-la gritando com Sal.
Um minuto depois, ela voltou com um sanduíche de queijo grelhado e um refrigerante de gengibre.
"Coma. Devagar."
Dei uma mordida. O pão estava quente e amanteigado, descendo para meu estômago.
"Obrigada", agradeci com lágrimas nos olhos.
Eu não estava acostumada a ser tratada com gentileza. Na casa da matilha, se você estivesse doente, seria punida por faltar ao trabalho.
"Não há de quê", disse Zoe, se sentando num engradado de leite virado ao meu lado. "Escute, onde você vai ficar esta noite?"
Hesitei por um momento antes de responder: "No Motel do Viajante, na rua de baixo."
Zoe fez uma careta. "Aquele lugar é um motel de quinta categoria e custa uma fortuna."
Ela me olhou por um longo momento, como se estivesse tomando uma decisão.
"Tenho um sofá-cama na minha casa. Não é grande, mas é limpo e gratuito."
Meus olhos se arregalaram. "Não posso aceitar. Você nem me conhece."
"Já conheço o suficiente. Você é trabalhadora, está com medo e precisa de um descanso", disse Zoe, apontando sua unha pintada para mim.
Então, se levantou e estendeu a mão.
"Além disso, moro em cima de uma padaria. O cheiro é bem melhor do que o daqui", acrescentou ela com um sorriso.
Olhei para sua mão, que era como uma tábua de salvação. Eu tinha duas opções: voltar para o quarto solitário do motel e ficar olhando para a parede, ou simplesmente confiar nessa garota de cabelo roxo e olhos gentis.
Por fim, peguei sua mão.
"Tudo bem. Obrigada, Zoe."
"Amigos ajudam amigos", ela disse simplesmente.
Repeti para mim mesma: Amigos...
Essa palavra era estranha para mim, pois nunca tive um amigo de verdade, apenas mestres e carrascos.
Quando terminei meu turno, Zoe e eu saímos para o ar fresco da noite.
"Venha. Vamos te levar para casa", disse ela, entrelaçando seu braço no meu.
Enquanto caminhávamos pela rua, senti um estranho movimento na minha barriga novamente: algo suave e quase imperceptível.
Coloquei a mão sobre minha barriga, pensando que eu tinha um emprego, uma amiga, e que tudo ficaria bem.
Eu não sabia na época, mas Zoe seria mais do que uma amiga. Ela seria a tia que minha criança precisaria.
E quanto ao movimento na minha barriga? Não era só um bebê, mas o estopim de uma revolução.
Isso é tudo que está disponível no momento.
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