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Capítulo 2 O reino submerso

Morrer não era como eu imaginava.

Eu sempre pensei que, quando chegasse a minha hora, haveria dor.

Talvez fogo.

Talvez frio.

Talvez apenas um último suspiro antes de tudo desaparecer.

Nunca imaginei que morreria com os olhos abertos.

Nunca imaginei que continuaria enxergando.

E, principalmente, nunca imaginei que conseguiria respirar.

Abri a boca.

Água entrou.

Meu corpo inteiro entrou em pânico.

Tentei gritar.

Não saiu som algum.

Debati-me.

Minhas mãos procuraram alguma coisa para segurar, qualquer coisa que pudesse me puxar para cima.

Mas não havia cima.

Nem baixo.

Apenas escuridão.

E aqueles olhos.

Os olhos azuis da criatura.

Ele estava me segurando.

Eu podia sentir seus braços ao redor do meu corpo, mantendo-me junto ao peito enquanto afundávamos.

Afundávamos.

Afundávamos.

Eu queria lutar.

Queria me afastar.

Queria voltar.

Mas meus pulmões queimavam.

Minha visão começou a escurecer.

Então alguma coisa tocou meu rosto.

Uma garra.

Abri os olhos.

O monstro estava me observando.

Ele não parecia preocupado.

Aquilo me enfureceu.

Eu estava morrendo.

E ele parecia tranquilo.

Tentei empurrá-lo.

Ele não se moveu.

Então, quando achei que meus pulmões finalmente explodiriam, senti algo pressionar minha boca.

Um calor percorreu meu corpo.

E eu respirei.

Não água.

Ar.

Ar de verdade.

Meu peito se expandiu violentamente.

Puxei outra respiração.

E outra.

E outra.

O pânico não desapareceu.

Apenas mudou.

Eu conseguia respirar.

Debaixo do oceano.

Aquilo era impossível.

Olhei ao redor.

A escuridão havia desaparecido.

Ou talvez nunca tivesse sido escuridão de verdade.

Havia luzes.

Centenas.

Milhares.

Pequenos pontos azuis brilhavam nas profundezas.

Plantas gigantescas se moviam lentamente com a correnteza.

Peixes transparentes nadavam ao meu redor.

Alguns possuíam olhos enormes.

Outros não tinham olhos.

Vi uma criatura passar ao longe.

Era comprida.

Muito comprida.

Seu corpo parecia uma serpente coberta de espinhos.

Ela desapareceu em meio à escuridão.

Eu quis gritar.

Dessa vez, consegui.

- O que...

Minha voz saiu estranha.

Abafada.

Mas audível.

O monstro olhou para mim.

- Respire.

- Você...

Puxei o ar.

- Você me fez respirar.

- Sim.

- Como?

- Como você respira na superfície.

- Eu sei como eu respiro!

Minha voz ecoou na água.

Ele piscou.

Eu não sabia se criaturas como ele piscavam.

- Eu quis dizer...

Parei.

Ele me observava.

Esperando.

- Você fez alguma coisa comigo.

- Sim.

- O quê?

- Dei-lhe a capacidade de respirar aqui.

- Você pode fazer isso?

- Sim.

- Então por que não fez antes?

Ele pareceu pensar.

- Você não estava aqui antes.

Fechei os olhos.

- Eu odeio você.

- Eu sei.

Abri os olhos.

- Você sabe?

- Você disse.

- Eu poderia ter mudado de ideia.

- Não mudou.

- Como sabe?

Ele apontou para meu rosto.

- Você ainda está olhando para mim como se quisesse me matar.

Olhei para a mão dele.

Depois para o rosto.

- Talvez eu queira.

- Você é pequena demais.

Fiquei indignada.

- Pequena demais?

Ele assentiu.

- Para me matar.

- Eu poderia encontrar uma maneira.

- Talvez.

- Com certeza.

- Talvez.

- Pare de dizer talvez!

- Por quê?

- Porque é irritante.

- Entendo.

- Você não entende.

- Entendo que você está irritada.

Eu fiquei em silêncio.

Ele continuou me encarando.

- Isso não significa que eu entenda por quê.

A criatura era impossível.

Eu estava sendo carregada por um monstro no fundo do oceano.

E estava discutindo com ele.

Aquilo provavelmente significava que eu tinha enlouquecido.

Ou que já estava morta.

Talvez aquilo fosse o inferno.

Talvez o inferno fosse exatamente assim.

Um monstro enorme, azul e escamoso, carregando você para algum lugar desconhecido enquanto responde às suas perguntas como se estivesse entediado.

- Para onde está me levando?

- Para casa.

- Sua casa?

- Sim.

- Não vou ficar lá.

Ele continuou nadando.

- Vai.

- Não vou.

- Vai.

- Você não pode decidir isso!

Ele finalmente parou.

A água ao redor de nós continuou se movendo.

Ele me virou para que eu pudesse olhar diretamente em seus olhos.

- Então para onde você vai?

Eu abri a boca.

Nada saiu.

Eu não tinha resposta.

Vespera.

Não podia voltar.

Minha mãe...

Meu coração apertou.

Eu havia fugido.

Talvez ainda estivesse viva.

Talvez Elias tivesse feito alguma coisa.

Talvez...

- Minha mãe.

O monstro ficou imóvel.

- O que tem sua mãe?

- Ela ficou lá.

- Sim.

- Eu preciso voltar.

- Não.

- Ela precisa de mim.

- Você não pode voltar.

- Por quê?

- Porque eu não permitirei.

A raiva voltou.

- Você não manda em mim!

Ele me soltou.

Meu corpo imediatamente começou a afundar.

Eu gritei.

Ele me segurou novamente.

- Você está tentando provar alguma coisa?

- Estou tentando não morrer!

- Eu disse que você pode respirar.

- Eu não sei nadar!

Ele ficou em silêncio.

Eu também.

- Isso teria sido útil saber antes.

- Eu imaginei que soubesse.

- Por quê?

- Você vive perto do mar.

- Viver perto do mar não significa saber nadar!

- Então os humanos são estranhos.

- Você é um monstro!

- Já estabelecemos isso.

Eu o encarei.

Ele me encarou.

E, contra minha vontade, quase ri.

Quase.

Então me lembrei de onde estava.

E do que ele havia dito.

- Você disse que eu sou a escolhida.

- Sim.

- O que isso significa?

Ele começou a nadar novamente.

- Significa que você é minha.

- Não.

- Mara.

- Não sou sua.

Ele parou.

- Você tem um nome?

- O quê?

- Um nome.

- É claro que tenho um nome.

- Qual?

- Mara.

Ele repetiu.

- Mara.

Meu nome soou diferente na voz dele.

Mais grave.

Mais antigo.

Como se aquela palavra pertencesse àquele lugar.

- E você?

Ele ficou em silêncio.

- O quê?

- Seu nome.

Mais silêncio.

- Você não tem?

- Tenho.

- Então qual é?

Ele desviou o olhar.

Aquilo foi estranho.

- Diga.

- Não.

- Por quê?

- Você não consegue pronunciá-lo.

- Posso tentar.

- Não.

- Você é muito irritante.

- Você também.

- Então estamos empatados.

Ele olhou para mim.

- Meu nome é Vael.

A palavra pareceu vibrar dentro da água.

Vael.

Eu não sabia por quê, mas senti um arrepio.

- Vael.

As marcas azuis sob a pele dele acenderam.

Ele ficou completamente imóvel.

- O que foi?

- Nada.

- Eu disse seu nome.

- Eu sei.

- E daí?

- Nada.

- Então por que está me olhando assim?

- Você não deveria saber meu nome.

Franzi a testa.

- Por que não?

Vael não respondeu.

- Vael.

As marcas brilharam novamente.

Ele fechou os olhos.

- Pare.

- Por quê?

- Porque você está dizendo errado.

- Você acabou de dizer que eu não poderia pronunciá-lo.

- Não pode.

- Então como estou dizendo errado?

Ele abriu os olhos.

Havia alguma coisa diferente neles.

Algo que não compreendi.

- Você está dizendo meu nome como se fosse uma palavra.

- E não é?

- Não.

- Então o que é?

Vael se aproximou.

- É uma promessa.

Meu coração bateu mais rápido.

- Não entendi.

- Eu sei.

Ele continuou nadando.

Eu fiquei olhando para ele.

Uma promessa.

Aquilo não fazia sentido.

Mas, pela primeira vez desde que havia sido arrastada para o oceano, senti algo diferente de medo.

Curiosidade.

E eu odiei isso.

---

Demorou muito para chegarmos.

Ou talvez pouco.

Era impossível saber.

Debaixo da água, o tempo parecia não existir.

A única coisa que eu conseguia fazer era observar.

O mundo que Vael me mostrava era absurdo.

Havia torres.

Palácios.

Ruínas.

Algumas estruturas pareciam ter sido construídas por humanos.

Outras, não.

Passamos por uma cidade.

Ou o que restava dela.

As construções eram enormes.

Colunas cobertas por corais.

Estátuas de criaturas que eu não reconhecia.

Portões destruídos.

No centro havia uma praça.

E, no meio dela, uma estátua.

Era Vael.

Eu soube imediatamente.

Mesmo sem conhecer sua história, reconheci aqueles olhos.

A criatura representada na pedra possuía os mesmos chifres.

As mesmas garras.

A mesma postura.

Mas havia algo diferente.

Na estátua, Vael parecia...

Rei.

- Você construiu isso?

Ele olhou.

- Não.

- Então quem construiu?

- Meu povo.

- Seu povo?

- Sim.

Olhei novamente para a estátua.

- Onde estão eles?

Vael não respondeu.

Eu esperei.

- Vael.

- Mortos.

Meu peito apertou.

- Todos?

- Quase todos.

- O que aconteceu?

Ele continuou nadando.

- Uma guerra.

- Contra quem?

- Humanos.

Eu fiquei quieta.

Aquilo parecia importante.

- Humanos fizeram isso?

- Alguns.

- Por quê?

- Medo.

- Só isso?

- O medo faz os humanos destruírem coisas que não entendem.

A frase me incomodou.

Talvez porque fosse verdade.

- E você?

- O que tem eu?

- Você matou humanos?

Vael parou.

Olhou para mim.

- Sim.

Eu engoli em seco.

- Quantos?

- Não sei.

- Você não sabe?

- Foram muitos.

- Então você é um assassino.

- Sim.

A resposta foi tão simples que me deixou sem palavras.

Eu esperava uma justificativa.

Uma defesa.

Qualquer coisa.

Ele não ofereceu.

- Você não vai tentar dizer que eles mereciam?

- Alguns mereciam.

- E os outros?

Vael desviou o olhar.

- Não.

Meu estômago se revirou.

Eu queria odiá-lo.

Era mais fácil quando ele era apenas um monstro.

Quando era uma história.

Uma criatura sem rosto que habitava as profundezas.

Agora eu tinha um nome.

Vael.

E uma história.

E um passado cheio de mortos.

Talvez minha mãe estivesse certa.

Talvez eu devesse ter medo.

- Por que você não me matou?

Ele voltou a nadar.

- Eu já disse.

- Não.

- Disse.

- Você disse que eu era a escolhida.

- Sim.

- Isso não responde.

Vael não falou nada.

- Por que eu?

Silêncio.

- Por que minha família?

Silêncio.

- Por que esperou trezentos anos?

Ele parou.

Dessa vez, sua expressão mudou.

As marcas luminosas desapareceram.

- Porque ela prometeu.

- Quem?

- Elyra.

O nome fez alguma coisa dentro de mim.

Uma sensação estranha.

Como se eu já tivesse ouvido aquela palavra.

- Quem é Elyra?

Vael me encarou.

- Você realmente não sabe.

- Não.

- Sua mãe nunca contou?

- Contou o quê?

Ele aproximou o rosto do meu.

- Que você é a última.

Meu coração acelerou.

- Última o quê?

Vael não respondeu.

Eu segurei seu rosto com as duas mãos.

Ou tentei.

Minha palma alcançou apenas parte de sua mandíbula.

- Responda.

Ele olhou para minhas mãos.

Depois para mim.

- A última da linhagem.

- Qual linhagem?

- A dela.

- De Elyra?

- Sim.

- Quem era ela?

Vael fechou os olhos.

Quando os abriu novamente, havia algo parecido com dor.

- Minha noiva.

Eu parei de respirar.

- Sua...

Não consegui terminar.

Vael me soltou.

Comecei a afundar.

Dessa vez, ele não me segurou imediatamente.

Eu tentei nadar.

Foi um desastre.

Agitei os braços.

Bati as pernas.

Afundei mais.

- Vael!

Ele me agarrou.

- Você disse que não queria que eu tocasse em você.

- Eu não quero morrer!

- Então pare de afundar.

- Eu não sei como!

Ele me puxou contra seu peito.

- Fique quieta.

- Não me dê ordens!

- Você prefere continuar afundando?

- Não.

- Então fique quieta.

- Você é impossível.

- Você já disse.

Ele começou a nadar novamente.

Mas eu não conseguia parar de pensar naquilo.

Sua noiva.

Elyra.

Minha ancestral.

A mulher que havia existido trezentos anos antes.

A mulher que, de alguma maneira, havia prometido alguma coisa à criatura que agora me carregava.

- Vael.

- O quê?

- Você a amava?

Ele não respondeu imediatamente.

Apertei os lábios.

- Não precisa responder.

- Sim.

A palavra veio baixa.

Simples.

Crua.

Meu peito apertou.

Não sabia por quê.

Talvez fosse absurdo sentir qualquer coisa.

Talvez fosse apenas culpa.

Mas ouvir aquilo doeu.

- O que aconteceu com ela?

Vael ficou imóvel.

A água continuou passando ao redor de nós.

- Ela morreu?

Ele fechou os olhos.

- Não.

Meu coração acelerou.

- Então onde ela está?

Vael olhou para mim.

- Não sei.

- Você não sabe?

- Ela desapareceu.

- Quando?

- Na noite em que deveria vir até mim.

Meu corpo ficou rígido.

- O que aconteceu?

- Ela nunca chegou.

O silêncio entre nós se tornou pesado.

- E você esperou?

- Sim.

- Por trezentos anos?

- Sim.

Eu olhei para aquele monstro.

Para Vael.

Para a criatura que todos em Vespera chamavam de demônio.

E, pela primeira vez, uma pergunta diferente surgiu em minha cabeça.

E se ele estivesse dizendo a verdade?

- Então você não queria um sacrifício.

Vael me encarou.

- Não.

- Você queria Elyra.

- Sim.

- E quando ela não veio...

- Esperei.

- E depois enviaram outras mulheres.

- Sim.

- Você matou alguma delas?

- Não.

- Então o que aconteceu com elas?

Vael não respondeu.

- Vael.

- Não chegaram ao meu reino.

- O quê?

- Nenhuma delas.

Eu franzi a testa.

- Mas elas foram entregues.

- Foram.

- Eu não entendo.

- Eu sei.

- Então me explique!

Vael me olhou.

Dessa vez, sua expressão estava diferente.

Havia algo quase humano em seus olhos.

Algo que me fez esquecer, por um instante, que eu estava nos braços de um monstro.

- O pacto nunca exigiu uma morte.

Meu coração parou.

- Então o que exigia?

Vael se aproximou.

Sua voz caiu para um sussurro.

- Uma escolha.

Antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa, o oceano ao nosso redor mudou.

Vael ficou tenso.

Seus músculos se contraíram.

- O que foi?

Ele não respondeu.

Olhei para trás.

Algo se movia na escuridão.

Uma sombra.

Depois outra.

E outra.

Vael me puxou contra o peito.

- Não olhe.

- Por quê?

- Mara.

Foi a primeira vez que ouvi medo na voz dele.

Eu olhei.

E me arrependi.

Havia dezenas de criaturas ao nosso redor.

Algumas possuíam corpos longos e finos.

Outras tinham bocas enormes.

Uma delas não possuía rosto.

Apenas uma abertura vertical cheia de dentes.

Elas nos cercaram.

Vael rosnou.

O som fez a água vibrar.

As criaturas recuaram.

Todas, exceto uma.

A maior.

Ela se aproximou.

Vael me colocou atrás dele.

Eu agarrei seu braço.

- O que são elas?

- Predadores.

- E por que estão aqui?

A criatura sem rosto abriu a boca.

Um som horrível atravessou a água.

Vael se virou para mim.

- Porque sentiram você.

- Sentiram o quê?

Seus olhos azuis encontraram os meus.

- Seu sangue.

Meu coração disparou.

- O que tem meu sangue?

Vael me segurou com uma das mãos.

- Muito.

- Vael...

Ele olhou novamente para as criaturas.

E eu percebi que as marcas em seu corpo estavam brilhando.

Intensamente.

Ele estava com raiva.

Não.

Aquilo era mais do que raiva.

Era posse.

Proteção.

Instinto.

- Fique atrás de mim.

- O que você vai fazer?

Vael abriu a boca.

As presas apareceram.

- Vou lembrar a elas quem governa este lugar.

A criatura avançou.

Vael também.

E, naquele instante, percebi que talvez eu tivesse cometido um erro.

Eu não havia sido levada para o reino de um monstro.

Eu havia sido levada para o reino de um rei.

E alguma coisa naquele lugar queria me devorar.

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Lista de capítulos

107 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 O tributo
  2. Capítulo 2Capítulo 2 O reino submerso
  3. Capítulo 3Capítulo 3 Rei das profundezas

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