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Capítulo 2 O Toque e o Caos
O restante da minha primeira manhã na Vance Enterprises foi um borrão de ansiedade e tarefas mecânicas. Eu tentava desesperadamente focar nas planilhas de custos e na organização da caixa de e-mails, mas a cada cinco minutos, meus olhos traidores deslizavam na direção do aquário de vidro no centro da sala.
Arthur Vance havia escurecido a divisória novamente logo após aquele contato visual esmagador, me deixando com a sensação perturbadora de que eu havia imaginado toda a intensidade do momento. Mas o frio na barriga ainda estava lá, um lembrete físico de que o monstro estava na jaula ao lado.
Por volta das duas da tarde, a Sra. Montgomery finalmente apareceu. Ela era uma mulher de quarenta e poucos anos, com uma postura impecável, usando um terninho azul-marinho que gritava eficiência e falta de humor. Ela não me deu nem "bom dia". Apenas caminhou até a minha mesa e jogou uma pasta de couro preta pesada, selada com um fecho de metal, bem em cima do meu teclado.
- Estes são os relatórios de fusão da filial de Cingapura - ela disse, a voz seca. - Precisam da assinatura do Sr. Vance imediatamente. Os investidores asiáticos estão em uma videoconferência na linha dois, esperando pela confirmação.
Pisquei, olhando para a pasta e depois para ela.
- A senhora quer que eu... leve lá dentro?
Sra. Montgomery estreitou os olhos, suspirando como se a minha existência fosse um fardo exaustivo.
- Não, Srta. Martins. Eu quero que você use telepatia para transferir os papéis. É claro que é para você levar lá dentro! Eu tenho uma crise com o setor de Relações Públicas no andar de baixo para resolver. Você é a assistente dele agora. Assuma a função.
- Mas as regras... a Sra. Sterling disse... - tentei argumentar, meu coração já acelerando.
- Coloque a pasta na mesa dele, dê dois passos para trás e saia. Não é difícil, garota. Apenas não o toque e não o encare. Vá. Agora!
Ela girou nos calcanhares e desapareceu no corredor, me deixando sozinha com a bomba-relógio de couro nas mãos.
Engoli a seco, pegando a pasta e apertando-a contra o peito como se fosse um escudo. Levantei-me, alisei minha saia modesta e caminhei em direção à fortaleza de vidro. Cada passo parecia ecoar ensurdecedoramente na minha cabeça. Não olhe. Não toque. Fique em silêncio.
Parei diante da pesada porta de vidro automatizada. Havia um pequeno painel na lateral. Aproximei meu crachá recém-impresso. Um bipe suave soou, e a porta deslizou para o lado com um chiado quase inaudível.
O ar dentro do escritório do CEO era diferente. Era mais frio, talvez uns três graus abaixo do resto do prédio, e tinha um aroma inebriante, uma mistura de madeira de cedro e algo puramente masculino. O cheiro de Arthur Vance.
Lembrei-me da regra número dois e mantive meus olhos fixos no chão de mogno polido, caminhando a passos curtos e silenciosos. O escritório era imenso. Havia estantes repletas de livros encadernados em couro, um bar de cristal em um canto e uma área de estar com sofás de couro negro. Mas o centro de comando era a grande mesa em formato de "L", voltada para a janela panorâmica.
Eu não o vi de imediato. Quando finalmente ergui o olhar, apenas até a altura do peito dele, para não quebrar a regra do contato visual , percebi que ele não estava sentado. Arthur estava de pé ao lado da mesa, inclinado sobre um enorme painel digital inclinado, que parecia um protótipo de tela sensível ao toque de altíssima tecnologia. Ele deslizava os dedos pela tela, manipulando gráficos complexos tridimensionais que flutuavam no vidro.
E foi aí que eu notei o detalhe que me fez prender a respiração.
Ele estava sem as luvas.
As famosas luvas de couro, sua marca registrada, repousavam esquecidas sobre a mesa de mogno. Suas mãos estavam nuas. Eram mãos grandes, de dedos longos e elegantes, as veias levemente saltadas sob a pele pálida. Vê-lo assim, expondo algo que o resto do mundo considerava proibido, parecia um vislumbre de uma intimidade que eu não tinha o direito de presenciar.
A atração foi tão súbita e hipnótica que eu hesitei. Meus pés pararam no meio do tapete felpudo.
O movimento no escritório cessou. Arthur parou de deslizar os dedos pela tela. Ele não se virou, mas sua voz, rouca e absurdamente autoritária, cortou o silêncio.
- Eu não me lembro de ter autorizado ninguém a entrar, Srta. Montgomery.
A voz dele enviou um choque térmico direto para o meu baixo-ventre. Tentei engolir o nó na garganta para responder, mas o pânico me emudeceu por um segundo longo demais. Ele girou o corpo lentamente. Quando percebeu que não era a assistente sênior, sua postura mudou. Seus olhos cinzentos recaíram sobre mim, tão afiados que poderiam cortar vidro. A expressão de aborrecimento deu lugar a uma frieza calculista.
- Quem é você e o que faz na minha sala? - ele exigiu, o tom perigosamente baixo.
- C-Clara... Clara Martins, senhor - gaguejei, amaldiçoando minha própria voz trêmula. Lembrei-me de desviar o olhar dos olhos dele, focando no nó da sua gravata de seda escura. - Sou a nova assistente júnior. A Sra. Montgomery teve uma emergência. Eu... eu trouxe os relatórios de Cingapura para assinatura. Os investidores estão na linha.
Apontei estupidamente para a pasta em minhas mãos. Arthur me avaliou por um longo instante. O peso da sua atenção era quase físico, como se me pressionasse contra o chão. Ele olhou para minhas roupas baratas, para meus sapatos sem graça, e então voltou ao meu rosto. Senti minhas bochechas queimarem.
- Deixe na mesa e saia - ele ordenou, virando-se de volta para a tela interativa, descartando minha existência tão rapidamente quanto a notara.
Senti uma pontada de irritação se misturar ao meu medo. Máquina programada para facilitar a vida dele. Era assim que eu devia agir.
Respirei fundo e apressei o passo para cruzar os metros que faltavam até a mesa. Eu só queria largar aquela maldita pasta e sair correndo para o ar seguro do corredor. Mas, na minha pressa cega, meu sapato esquerdo - cujo salto eu já havia colado duas vezes com supercola - prendeu na borda do espesso tapete persa.
O mundo pareceu entrar em câmera lenta.
Meu tornozelo virou. O impulso me jogou para frente. A pasta de couro voou das minhas mãos, batendo na quina da mesa de mogno e explodindo em uma chuva de documentos confidenciais. Mas isso era o menor dos meus problemas.
Eu estava caindo de mau jeito, e diretamente na minha trajetória estava a borda afiada da pesada mesa de centro de vidro temperado.
Fechei os olhos com força, encolhendo os ombros e erguendo os braços para proteger o rosto, preparando-me para a dor aguda do impacto. O som dos papéis se espalhando pelo chão foi ensurdecedor.
Mas o impacto com o vidro nunca veio.
Em vez disso, uma força brutal e incrivelmente ágil me interceptou no ar.
Ouvi um grunhido áspero. Um par de braços fortes envolveu minha cintura e a parte superior dos meus braços com uma precisão assustadora. O movimento foi tão abrupto que o ar foi expulso dos meus pulmões. O momento da queda foi interrompido por um peito largo e musculoso, firme como uma parede de pedra.
Meu cérebro demorou um segundo inteiro para processar a mudança de trajetória. Abri os olhos, ofegante.
Arthur Vance estava me segurando.
Ele havia se movido com uma rapidez letal para evitar que eu esmagasse o rosto no vidro. Suas mãos... suas mãos largas e descobertas estavam cravadas na minha cintura.
No momento da queda, minha blusa de botões havia escorregado levemente para cima. Os dedos longos e nus do bilionário estavam pressionados diretamente contra a pele sensível e desprotegida do meu abdômen lateral, enquanto a outra mão apertava meu braço com firmeza. Pele com pele.
O tempo não apenas parou. Ele deixou de existir.
Eu esperava que ele me empurrasse com violência. Esperava que ele gritasse, que tivesse um ataque de pânico, que os seguranças entrassem correndo porque a assistente estúpida havia quebrado a regra número um e encostado no "Lorde de Gelo".
Mas nada disso aconteceu.
Arthur congelou no lugar. Eu estava prensada contra ele, meu rosto a centímetros de seu pescoço. Pude sentir a respiração dele falhar. Os músculos de seus braços ficaram tensos, duros como aço ao meu redor.
Aos poucos, ousei erguer meu rosto.
Ele não estava olhando para mim com repulsa. Ele estava olhando para o vazio, a mandíbula travada, as pupilas dilatadas de uma forma que devorava o cinza da sua íris. Sua respiração, antes controlada, agora saía em arfadas curtas e pesadas, batendo contra o topo da minha cabeça.
A pele dele, onde tocava a minha, era absurdamente quente. Não havia nojo. Não havia o menor indício de asco. O que estava irradiando do toque dele era uma corrente elétrica violenta, uma faísca crua que enviou um calor denso direto para o meu centro.
- S-senhor... - sussurrei, minha voz tão fraca que mal passou de um sopro. Tentei me afastar, ciente de que estava encostada em um homem que não suportava o toque humano.
Mas no instante em que movi meu corpo para trás, os dedos dele se apertaram na minha cintura, afundando na minha pele. Não foi um toque de quem queria soltar. Foi um toque de possessividade absoluta. Um reflexo instintivo e predatório de quem acabara de encontrar algo que não queria largar.
Arthur finalmente baixou o olhar para o meu rosto. A distância entre nós era perigosamente íntima. O cheiro de cedro dele me envolveu, entorpecendo meus sentidos. Os olhos dele, agora tempestuosos e sombrios, varreram meus lábios entreabertos antes de se fixarem nos meus olhos.
O silêncio do escritório foi quebrado apenas pelo som alto e descompassado dos nossos corações.
Ao tocar a minha pele, o monstro de Arthur Vance não encontrou o medo ou o nojo de sempre. O que brilhava naqueles olhos cinzentos naquele momento era algo muito pior.
Era fome.
E ele estava olhando para mim como se eu fosse a única refeição que ele teve na vida inteira.
Lista de capítulos
46 capítulos no total
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