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Capítulo 3 O Monstro Acorda
O ar ao nosso redor parecia ter se transformado em chumbo líquido. Cada milissegundo que eu passava prensada contra o corpo rígido de Arthur Vance parecia esticar o tempo até o limite da realidade.
Meus sentidos estavam em curto-circuito, bombardeados por uma sobrecarga de informações que meu cérebro de vinte e um anos simplesmente não conseguia processar. Eu sentia a aspereza do tecido do seu terno caríssimo roçando contra a minha bochecha quente. Sentia o cheiro embriagador que emanava do seu pescoço — uma mistura inebriante de madeira de cedro, vetiver, e um aroma almiscarado e puramente masculino que gritava poder. Mas, acima de tudo, eu sentia as mãos dele.
Mãos grandes, imponentes, nuas e absurdamente quentes, cravadas na minha cintura com uma força que me deixava absolutamente paralisada.
A regra. A maldita regra número um. O Sr. Vance nunca deve ser tocado.
O pânico começou a borbulhar na minha garganta, sufocando o oxigênio dos meus pulmões. O "Lorde de Gelo", o homem que não suportava a presença física de outro ser humano, que governava um império de bilhões por trás de luvas de couro e paredes de vidro à prova de som, estava me segurando. E eu estava encostada na pele nua dele.
Ele ia me demitir. Ele ia chamar a segurança. Os advogados dele iriam arrancar até o último centavo que eu não tinha. A imagem da minha avó sendo expulsa do leito do hospital piscou na minha mente, trazendo lágrimas de desespero aos meus olhos.
— S-senhor Vance... me perdoe — eu murmurei, a voz tão embargada que mal soou como minha. Tentei recuar, tentei empurrar o peito largo e duro dele com as minhas mãos trêmulas, que agora estavam espalmadas contra a seda da sua gravata.
A reação dele, no entanto, desafiou toda a lógica do que a Sra. Sterling havia me alertado.
Arthur não recuou com asco. Ele não gritou por socorro ou teve um ataque de pânico. Em vez disso, quando tentei me afastar, os dedos longos dele na minha cintura se contraíram. O aperto se tornou possessivo, afundando na minha pele desprotegida, onde a minha blusa havia subido durante a queda. O calor da palma da mão dele irradiou direto para a minha corrente sanguínea, causando um arrepio violento que desceu direto para o meu baixo-ventre.
Um som baixo, quase animalesco, vibrou fundo no peito dele.
Eu congelei debaixo daquele aperto. Lentamente, ousei erguer o rosto para encará-lo, esperando ver o repúdio desfigurando suas feições aristocráticas. Mas o que encontrei me deixou ainda mais aterrorizada.
Havia uma tempestade cinzenta naquelas íris. O olhar dele desceu da minha testa para os meus olhos, e então caiu pesadamente sobre a minha boca entreaberta. A respiração dele, que antes era rítmica e controlada, agora estava descompassada, batendo pesada e quente contra o meu rosto.
Foram precisos mais três longos segundos para que a mente brilhante do bilionário parecesse "reiniciar". O maxilar de Arthur travou com tanta força que um músculo saltou de forma visível em sua bochecha. Lentamente, como se estivesse lutando uma guerra brutal contra a própria vontade, ele começou a afrouxar o aperto.
Mas ele não me soltou de imediato. Seus dedos deslizaram pela minha cintura, roçando a pele sensível do meu abdômen milímetro por milímetro, antes de finalmente se afastarem.
O atrito deliberado causou uma trilha de fogo que me fez estremecer de forma incontrolável. Quando o ar frio e condicionado do escritório atingiu o local onde as mãos dele estavam, senti uma sensação bizarra e inexplicável de... vazio.
Dei dois passos largos para trás, quase tropeçando nos meus próprios pés novamente. Meu coração martelava contra as costelas como um pássaro enjaulado em pânico.
— E-eu tropecei, senhor. Sinto muito. Foi um acidente! Eu juro que não queria... eu não queria tocar... — disparei, atropelando as palavras, sem ousar olhar para o rosto dele novamente. Eu encarei os sapatos italianos perfeitamente polidos dele.
Caí de joelhos no tapete persa, minhas mãos tremendo tão violentamente que eu mal conseguia agarrar as folhas de papel. Os relatórios de Cingapura estavam espalhados pelo chão como confetes de um desastre anunciado. Gráficos, planilhas, termos de confidencialidade. Eu juntava tudo de forma caótica, amassando as bordas, querendo apenas que o chão se abrisse e me engolisse.
Arthur não disse uma única palavra. O silêncio dele era mil vezes mais opressivo do que um grito. Ele não chamou a segurança. Ele apenas ficou ali, de pé, uma estátua imponente projetando uma sombra densa sobre mim. Sentir a presença dele pairando enquanto eu rastejava no chão me fazia suar frio.
Enfiei os papéis de qualquer jeito dentro da pasta de couro, abracei-a contra o peito como se fosse minha única proteção e me levantei num pulo.
— Os papéis estão aqui, senhor. Para a sua assinatura. Com licença — sussurrei, deixando a pasta na beirada da mesa, o mais longe possível dele, mas ainda dentro do seu alcance.
Virei as costas e praticamente corri em direção à porta de vidro automatizada. Quando ela se abriu com um chiado suave, eu não olhei para trás. Atirei-me no corredor, o ar da antessala batendo no meu rosto febril como um choque de realidade.
Corri até a minha mesa, sentei-me na cadeira de forma desajeitada e escondi o rosto entre as mãos.
Minha respiração saía em soluços curtos e silenciosos. Eu estava tremendo da cabeça aos pés. O formigamento na minha cintura, onde os dedos dele haviam cravado, recusava-se a desaparecer. Parecia que ele havia deixado uma marca invisível ali.
Eu o toquei. A pele dele encostou na minha.
Eu havia acabado de destruir minha vida no meu primeiro dia de trabalho. Fechei os olhos, esperando o telefone na minha mesa tocar com a ordem sumária da Diretora de RH para que eu esvaziasse minhas gavetas e fosse escoltada para fora do prédio por guardas armados.
Passei os próximos vinte minutos em um estado de quase catatonia. Olhava para a tela do computador sem ler uma única palavra dos e-mails. Cada vez que uma luz piscava no painel do telefone, meu estômago despencava.
Mas o telefone não tocou. Ninguém veio.
O silêncio no ambiente continuou pesado, absoluto e assustadoramente calmo. E, no fundo da minha mente, a lembrança dos olhos cinzentos escurecidos de fome continuava a me assombrar, sussurrando que o verdadeiro pesadelo não seria a minha demissão. Seria o que ele faria se eu ficasse.
Isso é tudo que está disponível no momento.
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