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Capítulo 2 O Preço da Liberdade
— Quem disse que eu estava ligando para pedir?
A voz de Alessandro De Luca atravessou o telefone como uma lâmina coberta de veludo. Aurora permaneceu imóvel no banco de trás do táxi, com os dedos apertados ao redor do celular e o olhar preso no carro preto que deslizava pela avenida logo ao lado deles. O veículo era silencioso demais. Escuro demais. Caro demais. Parecia não pertencer àquela rua, àquela cidade, àquele mundo. Parecia pertencer somente a ele.
— Senhorita? — o motorista chamou, olhando pelo retrovisor. — Está tudo bem? Aurora piscou, recuperando o ar. Não, nada estava bem. O bilionário mais temido do país estava ao telefone com ela, seguindo seu táxi e falando como se o futuro dela já estivesse traçado. — Pare o carro — ela ordenou. — Aqui? — Agora.
O motorista hesitou, mas encostou próximo à calçada. Aurora desligou o telefone na cara de Alessandro. Foi infantil, impulsivo e possivelmente muito perigoso. Mas foi delicioso. Ela abriu a porta antes mesmo de o táxi parar completamente, enfiou algumas notas na mão do motorista e saiu apressada, sem esperar o troco. O salto barato que havia usado para o casamento quase prendeu numa falha do cimento, mas Aurora se equilibrou. Não cairia. Não ali. Não naquele dia. Não na frente dele.
O carro preto parou alguns metros adiante e a porta traseira se abriu. Primeiro, ela viu o sapato: preto, impecável, caro de um jeito quase ofensivo. Depois, a calça social perfeitamente ajustada, o paletó escuro e a mão firme apoiada em uma bengala de madeira negra com detalhe prateado. E então, ele saiu.
Alessandro De Luca.
Aurora já tinha visto fotos dele em revistas, em sites de economia e em manchetes sensacionalistas sobre aquisições milionárias e disputas empresariais. Mas nenhuma imagem fazia justiça ao impacto de encará-lo pessoalmente. Ele era alto. Muito alto. O tipo de homem que não precisava levantar a voz para ocupar uma rua inteira. O cabelo escuro estava alinhado com precisão, mas havia algo de selvagem em seus olhos — uma sombra, uma dureza inabalável. Como se ele tivesse aprendido cedo demais que o mundo não dava nada de graça e, em resposta, decidido arrancar tudo com as próprias mãos.
Ele caminhou até ela devagar. A bengala tocava o chão em intervalos ritmados e calculados. *Toc. Toc. Toc.* Cada som parecia um aviso. Aurora ergueu o queixo. — Você costuma perseguir mulheres que não querem se casar com você ou eu sou um caso especial? A boca dele quase se curvou em um sorriso. Quase. — Você é muitas coisas, Aurora. "Especial" talvez seja a menos perigosa delas. Ela estreitou os olhos. — Não finja que me conhece. — Eu conheço o suficiente. — Então sabe que eu não sou daquelas que obedecem a homem rico com complexo de dono do mundo.
Dessa vez, o canto da boca dele se moveu de verdade. Um sorriso mínimo, perversamente atraente. — Ainda bem.
Aurora sentiu raiva de si mesma por notar. Por perceber o timbre denso da voz dele, a postura predatória, o perfume discreto e absurdamente caro que chegou até ela quando ele parou a poucos passos de distância. Madeira escura. Fumaça. Poder. Alessandro De Luca não parecia apenas um homem; parecia uma ameaça embalada em um terno sob medida. — A conversa acabou — ela sentenciou, girando nos calcanhares para ir embora.
A voz dele a alcançou como um bote: — Sua mãe ainda está na Clínica Santa Helena?
Aurora parou de supetão, e o mundo pareceu inclinar sob seus pés. Lentamente, ela virou o rosto. — O que você disse? Alessandro não se moveu um milímetro. — Maria Rossi. Quarenta e nove anos. Internada há oito meses. Tratamento neurológico, fisioterapia três vezes por semana, medicamentos importados e uma dívida que cresce todo mês. O sangue de Aurora gelou. — Cale a boca. — Sua avó também depende de você. — Ela sentiu o golpe no estômago antes mesmo de ele terminar. — Casa de repouso Jardim das Acácias. Mensalidade atrasada há dezenove dias.
Aurora atravessou a distância entre eles em duas passadas furiosas. — Quem diabos você pensa que é para investigar minha família? A expressão dele permaneceu gélida e inalterada. — Um homem que não entra em uma guerra sem conhecer o campo de batalha. — Eu não sou o seu campo de batalha! — Não — ele disse num tom mais baixo e íntimo. — Você é o motivo pelo qual alguns homens vão perder a guerra.
A frase a atingiu de um jeito estranho, quase visceral. Não deveria. Era uma afirmação arrogante, absurda e perigosa. Mas havia algo ali; algo na maneira profunda como ele a olhava, como se enxergasse muito mais do que ela permitia que as pessoas vissem. Como se, num piscar de olhos, ele tivesse atravessado a pele, o orgulho, a maquiagem e a raiva, chegando diretamente à parte vulnerável dela que tremia escondida. Aurora odiou isso com todas as forças.
— Eu trabalho desde os dezesseis anos — ela retrucou, a voz ganhando um corte metálico. — Faço plantão em clínica, organizo prontuário, aturo médico arrogante, paciente grosseiro, parente desesperado, chefe abusivo, e ainda chego em casa para cuidar da minha mãe quando consigo tirá-la da internação por algumas parcas horas. Pago remédio, pago fralda, pago exame, pago asilo, pago dívida que nem fui eu que fiz! Então, não venha usar a minha família contra mim como se fosse uma carta na manga.
Ele a observou em um silêncio avaliativo. — Eu não estou usando sua família. — Está, sim. — Se eu estivesse, você já teria entrado naquele carro. Aurora soltou uma risada amarga e incrédula. — Você é inacreditável. — Sou prático. — Não. Você é arrogante. — Também.
Ela piscou, atordoada. Ele não se deu ao trabalho de negar. Homens como Alessandro De Luca nunca negavam seus pecados; eles os vestiam no peito como medalhas de honra. — Eu não vou me casar com você — Aurora repetiu, soletrando as palavras. Alessandro inclinou levemente a cabeça, como se estivesse testando a firmeza daquela recusa. — Vai. — Não vou. — Vai. — Você não manda em mim. — Ainda não.
A eletricidade no ar entre eles mudou. Aurora sentiu o coração bater mais forte e aquilo a irritou profundamente. — Você fala assim com todas as mulheres? — Só com as que fogem do próprio destino no banco de trás de um táxi. — Você é louco. — Já ouvi isso hoje. — Deveria ouvir mais.
Dessa vez, o bilionário sorriu de verdade. Foi um gesto rápido, quase imperceptível, mas que suavizou e mudou o rosto dele por uma fração de segundo. E Aurora entendeu, tomada por uma raiva impotente, por que tantas mulheres se perderiam de bom grado por um homem assim. Ele era um perigo, mas um perigo bonito. Um perigo com voz baixa e aveludada, dono de olhos que pareciam guardar segredos demais. Ela desviou o olhar primeiro. Não por medo, mas por pura e instintiva sobrevivência.
— Por que eu? — a pergunta escapou antes que ela pudesse morder a língua. Alessandro ficou estático. A cidade seguia seu curso frenético ao redor deles: buzinas, passos, vozes cruzadas, motores acelerando. Mas, naquele pequeno espaço invisível que os separava, tudo pareceu ficar em suspensão. — Porque sua família me deve uma noiva. Aurora riu sem o mínimo humor. — Então compre uma. — Eu poderia. — Ótimo. Problema resolvido. — Mas não quero uma mulher comprada. — Quer uma chantageada? Nossa, que romântico. Os olhos dele escureceram imediatamente. — Cuidado. — Com o quê? Ele deu um passo deliberado à frente. Aurora obrigou suas pernas a não recuarem. — Com essa boca. Ela ergueu o queixo, desafiadora. — Ela costuma piorar quando tentam me intimidar.
O olhar dele desceu pesadamente até seus lábios. Foi um instante breve. Mas Aurora viu e sentiu com uma clareza absurda, o suficiente para o sangue subir quente pelo seu pescoço. Alessandro voltou a encará-la. — Você tem duas horas — ele sentenciou. — Para quê? — Voltar ao hotel. — Eu não vou voltar. — Então alguém irá buscá-la. A fúria de Aurora finalmente transbordou. — Tente! — a palavra saltou como um desafio inconsequente, mas do qual ela não se arrependeu.
Alessandro a observou por mais alguns segundos. Depois, enfiou a mão no bolso interno do paletó bem cortado e retirou um cartão preto elegante. Sem pedir qualquer permissão, ele segurou a mão dela e colocou o pequeno retângulo em sua palma. O toque foi brevíssimo, porém firme e quente. Aurora odiou a maneira como seu corpo despertou com aquilo. — Meu número direto — ele disse. — Quando parar de fingir que tem escolha, ligue.
Aurora encarou o cartão. Depois olhou para o rosto dele. Em um movimento rápido, rasgou o papel ao meio bem na frente dele. Uma parte caiu no chão sujo da calçada, e a outra permaneceu esmagada entre seus dedos. Os seguranças gigantes próximos ao carro pareceram prender a respiração, esperando uma explosão. Alessandro não. Ele apenas olhou para o cartão destruído, e depois de volta para os olhos dela. — Melhor — murmurou. Aurora franziu a testa, confusa. — Melhor? — Eu teria me decepcionado se você aceitasse fácil.
Antes que ela pudesse rebater a provocação, seu celular tocou. O nome *Clínica Santa Helena* surgiu iluminando a tela e o coração de Aurora deu um salto doloroso. Ela atendeu imediatamente. — Alô? A voz da enfermeira soou apressada e tensa do outro lado. — Aurora? Você precisa vir agora. — O que aconteceu? — É sua mãe.
O mundo ao redor encolheu de repente. — O que houve com ela? — Ela teve uma crise forte. O médico está tentando estabilizá-la, mas precisamos falar sobre a continuidade urgente do tratamento. Aurora fechou os olhos com força. *Não. Não agora. Por favor, não hoje.* — Eu estou indo. Ela desligou, com a respiração ofegante. Quando levantou o olhar, Alessandro ainda a observava. Havia algo diferente na feição dele agora. Não era pena — homens como ele não conheciam esse sentimento —, mas algo mais quieto, observador e muito mais perigoso. Como se uma engrenagem fria dentro dele tivesse acabado de tomar uma decisão.
— Meu motorista vai levá-la — ele ofereceu. — Eu não preciso de você. — Hoje, precisa. — Eu disse que não!
Ela começou a andar rápido, praticamente fugindo sem olhar para trás. Imediatamente, ouviu o baque da bengala acompanhando seus passos na calçada. *Toc. Toc. Toc.* — Aurora. Ela continuou marchando. — Aurora. — Me deixe em paz! — ela explodiu, girando nos calcanhares no meio da multidão. — Você não entende? Eu não tenho tempo para joguinhos de bilionário entediado! Minha mãe está doente. Minha avó depende de mim. Eu tenho trabalho amanhã às sete da manhã, tenho contas vencidas, aluguel atrasado e um chefe miserável que vai descontar meu salário se eu faltar mais uma vez. Eu não sou uma boneca para você colocar num altar e chamar de esposa!
Pela primeira vez, Alessandro ficou completamente sério. Não ostentava a aura fria ou arrogante. Estava sério, como se cada palavra desesperada dela tivesse acertado um alvo intocável que ele não permitia que ninguém acessasse. — Entre no carro — ele instruiu de forma branda. — Não. — Eu posso levá-la à clínica em exatos nove minutos. — Eu pego outro táxi. — O trânsito está travado na avenida principal.
Aurora olhou ao redor, buscando uma saída, e percebeu que ele tinha razão. Claro que tinha. Homens como ele sempre detinham as informações vitais antes de todo o resto do mundo. Ela puxou o ar com força, pensando na mãe. Na ligação. Na voz trêmula da enfermeira. Pensou na mensalidade atrasada e no armário de remédios quase vazio lá em casa. Pensou na sua tão defendida dignidade. E, no segundo seguinte, concluiu que dignidade nenhuma seguraria a mão da sua mãe naquela cama de hospital.
— Eu vou com você — ela cedeu, derrotada. — Mas isso não muda nada. Alessandro abriu a pesada porta traseira do carro. — Tudo muda, Aurora. Ela travou o passo antes de entrar. — Por que você fala meu nome desse jeito? Os olhos escuros dele prenderam os dela. E, por um segundo fugaz, a máscara de ferro rachou. Só um pouco; apenas o suficiente para que ela visse alguma coisa antiga e não resolvida ali dentro. Alguma coisa que não fazia o menor sentido. — De que jeito? — Como se já o tivesse dito antes.
O silêncio caiu entre eles, mais pesado do que chumbo. Aurora sentiu a respiração prender na garganta, esperando uma resposta, mas Alessandro se limitou a não responder. Apenas indicou o interior confortável do veículo. — Entre.
Ela entrou. O carro cheirava a couro novo, perfume masculino importado e dinheiro. Alessandro acomodou-se ao seu lado; não perto demais, mas perto o suficiente para que sua simples presença parecesse sugar todo o oxigênio do ambiente. Quando o carro arrancou suavemente, Aurora fixou os olhos na janela, tentando inutilmente organizar o furacão de pensamentos. A voz dele quebrou a quietude. — Seu chefe se chama Ronaldo Monteiro. Ela virou o rosto devagar, espantada. — Você pesquisou tudo sobre mim? — O suficiente. — Isso deveria me assustar? — Deveria. Ela engoliu em seco. — Pelo menos você é honesto. — Sempre que a mentira não é mais útil. Aurora soltou uma risada ríspida, sem acreditar no que ouvia. — Você é o homem mais perturbador que eu já conheci. — Ainda não me conheceu.
Aquilo não soou como um aviso, mas como uma promessa letal. Ela desviou o olhar para as próprias mãos. De repente, o celular vibrou de novo em seu colo. Dessa vez, era uma notificação de mensagem de um número desconhecido. Quando Aurora abriu a tela, todo o ar saiu de seus pulmões. Era uma foto sua. Dela mesma, de pé na frente do hotel, usando o vestido simples que havia separado para o casamento da prima. A legenda vinha logo abaixo da imagem: *"Você achou mesmo que podia se casar com outro homem e eu não saberia?"*
O sangue nas veias dela congelou instantaneamente. Uma segunda mensagem chegou logo em seguida: *"Você é minha, Aurora."*
Alessandro, como um predador treinado, percebeu a mudança corporal brusca dela antes mesmo que ela abrisse a boca. — Quem é? Ela apagou a tela em desespero e encolheu os ombros. — Ninguém. A mão dele surgiu como uma garra — rápida e absurdamente firme — sobre a dela. Não apertou para machucar, mas exerceu a força exata para impedir que ela escondesse o aparelho. — Aurora. — Não é da sua conta. Os olhos de Alessandro ficaram mais escuros, mais vazios e absurdamente mais letais. — Quando alguém ameaça a minha esposa, o assunto passa a ser meu. Aurora riu de nervoso. — Eu não sou sua esposa. — Ainda não.
O celular vibrou outra vez, zumbindo contra a palma deles. Dessa vez, a mensagem carregava uma foto da faixada da Clínica Santa Helena. Acompanhando a imagem, uma única frase: *"Estou mais perto dela do que você imagina."*
Aurora parou de respirar, o pânico tomando conta de cada célula do seu corpo. Alessandro, sem cerimônia, puxou o celular da mão dela e leu o conteúdo na tela iluminada. A temperatura dentro do carro pareceu cair abaixo de zero em questão de segundos. O rosto dele não demonstrou surpresa e, muito menos, medo. Havia apenas uma calma terrível. Aquela tranquilidade perturbadora que sempre antecede os piores desastres naturais. Sem dizer uma palavra a ela, ele ergueu os olhos frios para o retrovisor, buscando o motorista. — Mude a rota.
Aurora entrou em desespero absoluto. — O quê? Não! Minha mãe está na clínica! Alessandro não se virou para ela. — Justamente por isso. — Para onde você está me levando?! Ele devolveu o celular para o colo dela lentamente. Então, virou o rosto na direção dela e, pela primeira vez desde que se encontraram naquela rua, Aurora viu o verdadeiro Rei de Ferro. Não o homem polido, não o bilionário estratégico, nem o noivo indesejado e impositivo. O predador no topo da cadeia alimentar. — Para o único lugar onde ele não poderá tocar em um fio do seu cabelo. — Que lugar? Alessandro segurou o olhar aterrorizado dela com posse. — Minha casa.
Aurora sentiu o coração despencar ladeira abaixo. Antes que conseguisse articular qualquer protesto, uma nova notificação apitou na tela do aparelho. Mas, dessa vez, não era o número desconhecido do stalker. Era uma mensagem de sua tia: *"Volte para o hotel agora. Sua mãe será transferida hoje. Alessandro De Luca comprou a clínica."*
Aurora leu as palavras brilhando na tela uma vez. Depois, leu de novo. E mais uma vez. O carro continuava em movimento suave, os pneus deslizando no asfalto enquanto a cidade passava borrada pela janela. Lentamente, movida por uma incredulidade anestesiante, ela virou o rosto para Alessandro. — Você... comprou a clínica da minha mãe?
Ele não desviou o olhar e muito menos negou. Apenas continuou a encará-la, respondendo com uma calma que beirava a mais pura crueldade: — Eu disse que não estava pedindo.
Lista de capítulos
11 capítulos no total
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