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Capítulo 3 A Fortaleza do Rei de Ferro
Aurora não falou uma única palavra durante o restante do trajeto. Também não olhou para Alessandro, pelo menos não diretamente, mas era impossível ignorar sua presença. Ele ocupava espaço sem fazer esforço. Não porque fosse grande, mas porque tudo ao seu redor parecia girar em torno dele. O motorista mantinha os olhos fixos na estrada, os seguranças obedeciam sem questionar e até o silêncio parecia respeitá-lo. Aurora odiava homens assim: homens acostumados a controlar tudo, que acreditavam que dinheiro era sinônimo de autoridade. Homens como Gabriel. Seu ex.
A simples lembrança fez seu estômago revirar. Ela apertou o celular dentro da bolsa, sabendo que a mensagem ainda estava ali: *"Você é minha"*. O maldito tinha enlouquecido. Ou talvez sempre tivesse sido louco e ela demorara demais para perceber.
O carro atravessou os portões de ferro e Aurora ergueu os olhos, ficando sem palavras. Não era uma mansão; era praticamente uma fortaleza. Muros altos, portões eletrônicos, câmeras por todos os lados, jardins impecáveis e seguranças armados. Parecia a residência de um chefe de Estado, ou de alguém que tinha muitos inimigos.
O veículo parou diante da entrada principal, onde uma escadaria de mármore conduzia a enormes portas escuras. Alessandro saiu primeiro, como se esperasse que ela o seguisse, mas Aurora permaneceu sentada no carro.
- Não vou morar aqui. Ele apoiou uma das mãos sobre a porta aberta. - Eu não pedi sua opinião. Ela soltou uma risada sem humor. - Está vendo? É exatamente por isso que eu não gosto de você. - Você me conhece há menos de um dia. - Foi suficiente.
Um brilho divertido surgiu nos olhos dele. - Desça, Aurora. - Não. - Está fazendo birra. - Estou preservando minha sanidade. - Mesma coisa.
Aurora revirou os olhos, mas acabou saindo. Não porque ele mandou, mas porque precisava descobrir o que estava acontecendo e, principalmente, precisava falar com a mãe.
A enorme porta se abriu antes mesmo que alcançassem a escadaria. Um homem de cabelos grisalhos surgiu. Elegante, de postura impecável e olhar atento. - Senhor De Luca. - Augusto. - Tudo foi preparado. - Os olhos do homem se voltaram para Aurora. Havia curiosidade ali, mas nenhum julgamento, o que já o tornava mais agradável do que metade das pessoas que ela conhecia. - Senhorita Rossi. - Oi.
Augusto pareceu surpreso; talvez esperasse algo mais sofisticado. Azar o dele. - Seu quarto está pronto - ele anunciou. Aurora franziu a testa. - Meu quarto? - Sim. - Eu não vou dormir aqui. - Vai.
Ela virou-se imediatamente para Alessandro. - Pare de decidir coisas por mim. - Pare de dificultar as coisas. - Pare de agir como dono do mundo. - Pare de agir como se o mundo não estivesse tentando te destruir.
O silêncio caiu entre eles. Por um segundo. Apenas um segundo. Mas foi suficiente para Aurora perceber que ele não estava brincando. Havia algo muito sério por trás daquela frase, algo que ela ainda não compreendia. Ela desviou o olhar primeiro.
- Quero falar com minha mãe. - Já providenciei. - Como é?
Alessandro tirou o celular do bolso, fez uma ligação, esperou alguns segundos e então entregou o aparelho a ela. Aurora levou-o ao ouvido. - Filha? Os olhos dela se encheram de lágrimas imediatamente. - Mãe.
A voz da mulher estava fraca, mas estável. Graças a Deus. - Você está bem? - Aurora perguntou. - Estou. E você? Aurora lançou um olhar desconfiado para Alessandro. - Já estive melhor. A mãe riu baixinho. - O senhor De Luca mandou os melhores especialistas me examinarem.
Aurora congelou. Claro que mandou. Era exatamente o tipo de coisa que ele faria: resolver problemas antes que alguém pudesse reclamar, manipular a situação até parecer que ela não tinha escolha. - Não se preocupe comigo, querida - a mãe pediu. - Como não vou me preocupar? - Porque estou bem.
Aurora fechou os olhos. Ela conhecia aquela voz, conhecia aquela tentativa desesperada de tranquilizá-la. A mãe fazia isso desde que a doença começara. Sempre escondendo a dor. Sempre tentando protegê-la, mesmo quando era ela quem precisava de proteção.
Depois de alguns minutos, a ligação terminou. Aurora devolveu o celular. - Obrigada. A palavra escapou antes que pudesse impedir. Alessandro arqueou uma sobrancelha. - Isso foi um agradecimento? - Não se acostume. - Que pena. Ela ignorou. Ou, pelo menos, tentou.
O interior da mansão era ainda mais impressionante. Mas não parecia uma casa; parecia um hotel de luxo ou um museu. Tudo estava perfeitamente organizado, perfeitamente limpo e perfeitamente frio. Nenhuma fotografia de família, nenhum objeto pessoal, nenhuma bagunça. Nada. Era bonito, mas sem vida. Aurora percebeu isso imediatamente e, por algum motivo, aquilo a deixou triste. Porque homens como Alessandro costumavam ter tudo, menos o que realmente importava.
Augusto a conduziu até o segundo andar. - Este será seu quarto. Aurora entrou e quase engasgou. O quarto era maior que seu apartamento inteiro. Uma cama enorme ocupava o centro, as janelas davam vista para a cidade e havia uma sala privativa, um closet e um banheiro que parecia pertencer a um spa. Aquilo era ridículo.
- Não preciso disso tudo. - O senhor De Luca acredita que precisa. - O senhor De Luca acredita em muitas coisas erradas. Augusto escondeu um sorriso. Aurora gostou dele imediatamente.
Depois que ficou sozinha, ela caminhou até a janela. A cidade brilhava lá embaixo, pequena e distante. Por um instante, sentiu-se presa, como um pássaro trancado numa gaiola dourada.
Então, ouviu o celular vibrar. Uma mensagem. Número desconhecido. Seu coração acelerou ao destravá-lo. Não era Gabriel. Era uma foto. Uma foto antiga. Muito antiga. Nela, aparecia uma garota de cerca de dezesseis anos, sentada em um banco de praça, sorrindo. Aurora.
O sangue sumiu de seu rosto. Ela conhecia aquela fotografia, mas ela deveria ter desaparecido anos atrás, junto com várias coisas daquela época. Os dedos começaram a tremer quando uma nova mensagem chegou:
"Você deveria perguntar ao seu marido por que ele guarda isso."
Aurora sentiu o coração disparar. Como alguém tinha aquela foto? E, mais importante... por que a mensagem dizia que Alessandro a guardava?
Antes que pudesse pensar melhor, ouviu um alarme soar pela mansão. Luzes vermelhas acenderam no corredor. Passos pesados ecoaram do lado de fora, misturando-se a vozes, ordens e seguranças correndo. Aurora abriu a porta de supetão e encontrou Augusto caminhando rapidamente pelo corredor. - O que aconteceu? O rosto dele estava sério. Muito sério. - Alguém invadiu o sistema de segurança da mansão.
Aurora sentiu um frio cortante percorrer sua espinha. - O quê?
Augusto não respondeu, porque, naquele mesmo instante, todas as televisões espalhadas pela residência ligaram sozinhas. Uma imagem apareceu nas telas e Aurora parou de respirar.
Era ela. Saindo da Clínica Santa Helena naquela mesma manhã.
Alguém estava observando. Alguém estava gravando. Alguém queria que Alessandro soubesse da invasão. E, no canto inferior da tela, uma única frase surgiu tremeluzindo em letras vermelhas:
"Ela sempre foi minha."
Isso é tudo que está disponível no momento.
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