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Capítulo 2 Pietra Vacchiano
Olho para o meu reflexo no espelho por longos segundos. Meus olhos arderam diante do meu devaneio, esqueci até mesmo de piscá-los. Solto um longo suspiro amarrando as duas cordinhas da minha camisa, disfarçando o decote. A calça jeans em cintura baixa marca a minha barriga. Viro minhas costas para checar como está minha aparência. Estou prestes a ouvir uma longa palestra do meu pai, tudo porque resolvi largar a faculdade. Meus saltos ecoaram no chão, saindo do quarto. Passei pelo corredor, revirando os olhos para os milhões de quadros dos ancestrais da minha família: os intocáveis Vacchiano. Seguro no corrimão da escada e desço um degrau por vez, sentindo o cheiro do café da manhã impregnado no ar. O calor do café acalenta meus instintos. Viro o corredor e entro na sala de café da manhã, onde vou logo encontrando com os olhos do meu pai. Ele, que segura uma xícara, arqueia uma sobrancelha na minha direção como se estivesse esperando um parecer meu, um bom motivo para ter largado os estudos. — Bom dia, família — e isso é tudo que eu falo. — Sente-se aqui, Pietra — papai fala, esticando-se um pouco e puxando a cadeira ao seu lado. Contive-me para não revirar os olhos, pois sei que ninguém vai contra uma ordem de Tommaso Vacchiano, a não ser minha mãe. Sentei-me na cadeira de frente para minha mãe, Verena, dona de lindos cabelos loiros, que são a perdição do Don da Cosa Nostra. — Quais são seus planos, filha? — papai deixa a xícara que estava na sua mão sobre a mesa, me concentro na fumaça que sai do líquido fumegante. — Não sei, papai, preciso de planos? — pendo a cabeça um pouco para o lado e solto meu sorriso que sempre funciona para deixar Tommaso comovido. — Planos servem para nos manter focado — Tommaso segue. — Posso pesquisar alguns cursos que me interessem... — Qual era o problema com Design de Moda? — Mamãe pergunta com sua voz doce. — Não sei, nunca vou poder atuar nisso — dei um breve chacoalhar de ombros. — Quem lhe disse tal atrocidade? É minha filha, pode tudo! — Papai ergue sua mão, colocando o meu cabelo atrás da orelha. — Eu sei, eu sei, o problema é que eu quero fazer algo que seja útil ao nosso clã, não somente ser a esposa de um homem — murmuro sentindo repulsa disso pelo simples motivo que o único homem que eu quero nem me vê como mulher. Papai rosna, minha mãe sorri. — Por mim, nenhum homem poderia encostar em você. Se quiser, pode até mesmo envelhecer solteira — ele sempre repete isso. Tommaso não pode nem sonhar que não sou mais virgem, na mente dele sou a imaculada Pietra. Bem, eu fiz dois anos de faculdade. Foram dois anos podendo dar minhas escapadas e ir a festas clandestinas. Não me manteria pura para um homem que sei que não vou amar. Sou boba? Se algum dia terei que me casar com alguém que nem ao menos amo, por que vou manter minha virgindade para ele? Mamãe sempre me ajudou a esconder minhas escapadas do meu pai, ela sempre deixou claro que não queria que eu repetisse os seus passos, em se manter intacta ao meu pai e ser tratada igual verme quando chegou à casa dele. Foram longos meses até papai aceitar que ele era somente mais um homem apaixonado. — Pai... — bufo erguendo a minha mão para pegar o bule de café. — E estou mentindo? Filhas não deveriam se casar — Tommaso em seu modo protetor chega a ser assustador. — Lembre-se que tem dois filhos e eles vão precisar se casar — zombo, lembrando meu pai dos meus irmãos gêmeos. — Posso abrir exceção para as amadas dele — papai responde. — Amadas? — bem nesse momento Valentino entra na sala. — Papai deve ter batido a cabeça ao acordar — Santino entra ao lado. Ambos vão logo puxando cadeiras para se sentar. Franzo meu rosto diante do barulho que eles fizeram, já que são típicos bagunceiros. — Garotos, por favor, ergam as cadeiras — Verena os repreende. — Relaxa, mãe — San fala do seu modo despreocupado. Pelo menos, com eles ali, papai esquece de me pressionar. — Tio Enrico já apareceu por aqui? — Valentino pergunta. — Ainda não — papai responde sem olhar nos olhos do filho, mantendo a sua atenção em algo no seu celular. — Deve estar traçando alguma gostosa — Valen murmura com um sorriso um tanto estranho nos seus lábios, o que me faz revirar os olhos. — Valentino Vacchiano, tenha modos! — Mamãe olha de cara feia para ele. Até mesmo quando Verena tenta fazer uma das suas caretas não se torna assustadora. Valentino não falou nada, apenas se calou. Ele sabe que, se falar, papai dará uma dura nele. Se tem uma mulher que todos respeitam na Cosa Nostra é a minha mãe, e, claro, de mim, ninguém chega perto. Sabem o quanto Tommaso é extremamente possessivo com a única filha mulher dele, e eu, em muitos momentos, me aproveito dessa situação. — Não terminamos a nossa conversa — papai volta a chamar a minha atenção. — Prometo que vou pesquisar outros cursos — pisco algumas vezes e ouço meus irmãos bufarem, pois sabem que eu tenho muitas táticas para convencer Tommaso. — Tudo bem — papai finalmente fala em meio ao seu suspiro — mas enquanto isso não acontece, eu a quero sob os meus olhos. Assinto sabendo que os olhos dele se estendem aos da minha e sabendo que ela sempre encoberta. Levo minha xícara de café à boca, dando um pequeno gole. Ao devolvê-la para a mesa, sinto aquele cheiro masculino que já me fez até mesmo comprar o mesmo perfume e não surtir o mesmo resultado. Ao virar o rosto, avisto Enrico Ferrari, o motivo dos meus sonhos mais impuros. Ah, como eu já me imaginei nos braços dele de diversas maneiras... Seu caminhar é decidido e tem olhos esverdeados com aquele brilho ladino de quem acabou de acordar com uma mulher em sua cama. Maldição! Odeio o simples fato de saber que ele compartilha a cama com diversas mulheres. — Fala, tio, é hoje que vamos treinar? — San vai logo falando. — Sim, seu pai deixou? — Enrico coloca a mão no seu bolso da calça social. — Ainda acho isso uma idiotice — Verena bufou — não podem ter hobbies normais igual a qualquer garoto de 17 anos? — Isso não tem graça, mãe — Valen responde um tanto alterado, levantando-se da sua cadeira sem terminar de comer — imagino que já tenha comido, Enrico. Podemos ir? — Ele sempre come bem — Santino leva a frase para o duplo sentido, fazendo mamãe olhar para ele de cara feia. — Sim, eu já me alimentei. De comida. — ele frisa a última parte de sua resposta, piscando um olho para Verena, que é como uma amiga para ele. Enrico nem ao menos olhou na minha direção desde que chegou. Estava com a sua atenção em meus irmãos. Os três vão para a pista de pilotagem, Enrico está ensinando os dois a pilotarem motos. Porque lidar com armas não é perigo o suficiente, agora querem viver sobre duas rodas. Enrico é o subchefe do meu pai, seu braço direito, ambos são como irmãos, e papai confia nele cegamente. Sabe que o subchefe nos vê como sobrinhos. O problema é que eu não o vejo assim. Desde que completei quinze anos, os garotos da minha idade já eram sem graça para mim, como se não tivessem o brilho necessário. Em muitos momentos me vi analisando Enrico, sua desenvoltura, os primeiros botões da camisa que, às vezes, ele usava abertos, os cabelos dourados às vezes bagunçados. Ah, como eu queria ser a pessoa que bagunça o cabelo dele! Mas a nossa idade sempre será o muro que nos divide, e o fato dele me ver como uma sobrinha torna o muro maior ainda. Solto um longo suspiro e viro meus olhos para frente encontrando os olhos da minha mãe na minha direção, recebendo um chute de baixo da mesa que me fez morder o lábio com força. Arregalo meus olhos para ela, e Verena deixa explícito no seu olhar que eu precisava disfarçar mais, ou, então, papai perceberia. — Pai? — Valentino chama. — Sim, já estou indo — ele se levanta da sua cadeira — mas, lembrem-se, é apenas no período da manhã. Enrico e eu temos muito para resolver à tarde, e vocês dois vão participar. — Espero que tenhamos ação — Valem esfrega uma mão na outra. Tommaso se abaixa na direção da minha mãe, segurando no queixo dela, e dá um selinho de despedida. Ele nunca foi de disfarçar seu amor por ela, o que me faz revirar os olhos. Enquanto os homens saem da sala, fico olhando para as costas do subchefe que estava ao lado do meu pai. — Precisa disfarçar mais, Pietra — mamãe me chama. — Papai nunca vai perceber... — Seus irmãos também nunca iriam perceber e perceberam. Você sabe que os dois agem sempre no impulso e podem acabar falando sem querer. — Nada vai acontecer, afinal, Enrico ainda me olha como se eu tivesse dois anos — murmurei desanimada. — Precisa entender que ele tem idade para ser seu pai. Ali estava o maior empecilho. — Relaxa, mãe... — Só vou relaxar quando vê-la de vestido branco se casando, assim terei completa certeza de que seu pai nunca vai descobrir o seu amor pelo subchefe. — Prefiro morrer solteira a me casar com um homem que, com certeza, babará o ovo do meu pai. Enquanto isso, sigo enrolando. — O que me faz lembrar que precisamos decidir sobre a sua faculdade — Verena volta a focar no assunto. — Podemos dar uma volta no shopping enquanto conversamos sobre isso, o que acha? — Pietra, Pietra, é uma bela trapaceira — mamãe sorri. Nossa relação sempre foi muito maleável, além de mãe e filha, somos ótimas amigas.
Lista de capítulos
12 capítulos no total
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