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Capítulo 3 Enrico Ferrari

Pendo minha cabeça para o lado e torço minha boca ao ver a curva desajeitada que Valentino fez. — Ah, garoto... — murmuro para mim mesmo. — Nem todo mundo tem a sua praticidade para andar sobre duas rodas — Tommaso declara ao meu lado, ouvindo o meu suspiro. — Se ele não se deitar mais na curva, nunca vai fazer com precisão. Estamos em uma via pouco movimentada, a pista de moto estava muito longe e não queríamos perder uma hora de treino no caminho até lá. Chegando aqui cada um passou o comando da moto para os garotos. Tommaso deu a dele ao filho, enquanto eu dei a minha para o outro menino. As motos já são deles, mas Tommaso ainda não tem confiança em deixar os filhos pilotarem sozinhos. As árvores se movem ao nosso redor, denunciando que em breve poderíamos ter uma das poucas chuvas que temos no verão: a maldita chuva vinda do mar Mediterrâneo. — Temos que ir logo — Tommaso olha para o céu e imagina o mesmo que eu. — Ainda vai demorar para chover — murmuro, com a mão em meu bolso da calça. — E por um acaso virou meteorologista agora? — meu amigo zomba. Descendo um pouco o morro, estavam dois carros. Eram soldados que protegiam o Don da Cosa Nostra, seus filhos e a mim. Um Subchefe da máfia nunca fica à frente do perigo, assim como o Don, somos a peça principal. O ronco da moto de Santino vai se fazendo mais presente até ele pará-la na nossa frente. O moleque tira seu capacete, revelando um dos seus sorrisos zombeteiros, uma característica herdada de seu pai. — E aí? Sou melhor que Valentino? Sim ou claro? — Esses garotos viviam em competição constante. — Você é convencido, o que tem uma grande diferença — zombo, caminhando na direção dele, disfarçando ao dar um soco em seu braço, em meio à brincadeira, vendo-o reclamar de dor. — Porra, tio Enrico, tem a mão pesada — Por trás da mãe, eles falam o vocabulário que aprenderam com o pai. — Muito exercício — deixo um sorriso escapar. — Sim, imagino os seus exercícios — Santino revira os olhos, esfregando o ombro — onde está o Valen? — Voltou a subir a curva — aponto com a cabeça vendo a moto do outro moleque fazer a curva. Ele fez a manobra com precisão, mas cometeu o mesmo erro. Se ele quer adquirir mais estabilidade em uma curva, precisa deitar mais a moto dele. — Cometendo o mesmo erro — o pai deles murmura. — O bunda frouxa ao invés de deitar mais a moto dele — Santino declara orgulhoso, como se entendesse do assunto. — O que você entende? Está cometendo o mesmo erro que o dele — retruco o moleque — vocês dois estão tendo a impressão de que estão fazendo certo, mas não estão. Balanço minha cabeça. Tommaso sempre me deu total liberdade com seus filhos, e, como sou padrinho dos gêmeos, tenho abertura para lhes puxar a orelha quando é conveniente. Talvez os filhos de Tommaso sejam o que terei mais próximo de filho. Eu vi os três crescerem e daria minha vida por cada um deles. Até mesmo por Pietra, que, desde que se tornara mocinha, passou a se manter mais distante de mim. Agora ela já é uma mulher, não a mesma menininha que eu pegava em meu colo e que adorava que eu brincasse de avião com ela. Seus gostos mudaram, e os assuntos também. Tenho uma boa relação com Pietra ainda, mas em nada se compara com os irmãos dela. A liberdade que tenho com os gêmeos é mais forte. Pela garota eu sinto um carinho, talvez algo entre pai e filha? Sei lá, eu nunca tive uma filha para saber o que é isso. E nunca vou ter. Meu destino é morrer sozinho, assim como meu tio Fillipo. Uma morte rápida e solitária e um longo legado de histórias na Cosa Nostra. O ronco da moto de Valentino vai se tornando mais lento conforme ele se aproxima, balançando a cabeça. Ele para ao lado do irmão, tirando o seu capacete. — Mas que caralho, não estou conseguindo fazer essa maldita curva — ele praguejou mil palavrões. Se Verena estivesse aqui nesse momento, mandaria o filho morder a língua. A forma como Valentino não desiste dos seus objetivos deixa claro que ele será um bom Don caso ele herde a Cosa Nostra em algum momento da sua vida. — Estou percebendo que os dois estão fraquejando — olho de um para o outro. — Qual a dica tio? — Santino pergunta. — Não tem dica, apenas prática. Tommaso não é muito fã de motos, está apenas nos acompanhando. A verdade é que dificilmente o Don pilota motos. Essa sempre foi a minha praia, o meu passatempo depois que o chefe da máfia se casou e tornou a sua esposa o seu passatempo. Posso ter a mulher que quero todas as noites em minha cama, mas isso é apenas algo corporal, não existe ligação. Durante o dia não gosto de ninguém rondando a minha casa, muito menos pernas femininas caminhando em meu assoalho. Não gosto de precisar conversar com mulheres, muitas vezes suas vozes me irritam, aquele timbre feminino me deixa inquieto, por isso apenas as uso, meu prazer em troca dos dela, e, assim, todos saem felizes. — Vem, Valentino, vou pilotar a sua moto, fique na minha garupa e verá o que é fazer uma curva — pego o meu capacete no chão. — Podemos deixar isso para outro momento? — Tommaso pede, coçando a barba, sabendo que gostaria de estar em seu escritório fechando outro negócio ilícito. — Só mais essa tentativa e podemos ir, pai — Valen pede animado. O pai suspira confirmando. O garoto pula para o banco de trás conforme me sento à sua frente. Dou a partida na BMW M1000 RR, das duas, essa é a mais potente. Pode deixar apenas o rastro de pó na rua. Acelero subindo o morro fazendo a curva fechada, praticamente encostando o meu joelho no asfalto da rua. No banco traseiro Valentino dá um grito de satisfação. — Porra, tio! — ele gritou admirado. Vamos até o topo, dou a volta e refaço o percurso descendo o morro. A curva é fechada e não podemos ver o que vem no sentido oposto. Tomo uma velocidade alta para fazer o ponteiro lamber o último número do painel. Um sorriso se faz presente em meus lábios. Essa adrenalina aquece a minha alma e revigora meus instintos. Faço a curva pronto para fazer tudo certo e ensinar ao garoto que está atrás da moto sentado. Isso até ver um caminhão vindo na nossa direção. Estou rápido demais para parar, ou até mesmo frear. Mas que porra!!! É tudo o que eu penso até agir e jogar a moto contra o gramado, fazendo ela perder o rumo e descer o morro curto. Valentino não grita, não emite som algum, e, nesse momento, só penso em salvar a vida dele. Vendo que a moto em breve se chocará em alguma árvore, aviso: — Se agarre a mim! — berro e sinto os braços dele em minha cintura, o que é o suficiente para me jogar e fazer do meu corpo um escudo para proteger a vida do moleque. Tudo parece acontecer em câmera lenta, e, de todas as mortes que planejei para mim, de longe essa nem se passou na minha cabeça.

Isso é tudo que está disponível no momento.

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Lista de capítulos

12 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 PRÓLOGO
  2. Capítulo 2Capítulo 2 Pietra Vacchiano
  3. Capítulo 3Capítulo 3 Enrico Ferrari

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