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Capítulo 2 Fios Simples
Um póleo de luz âmbar, espesso com motas de poeira de linho e lã, cortava a penumbra da oficina, iluminando o universo particular de Elian. O cheiro aqui era íntimo e reconfortante: o aroma terroso de tecidos crus empilhados, o perfume limpo da cera de abelha usada para encerar a linha, o faint e metálico odor das agulhas e tesouras de aço, e por baixo de tudo, o cheiro suave e um pouco amargo de sua tisana de ervas, esquecida e esfriando num canto da bancada. O som era uma tríade ritmada e hipnótica. O primeiro, o shhh-shhh suave da lâmina de sua tesoura de alfaiate, a mais valiosa de todas as suas posses, deslizando através de um veludo azul-marinho como um barco cortando águas calmas. O segundo, o estalido seco e preciso do giz de alfaiate marcando o tecido, um som que era quase um pensamento audível. O terceiro, o suspiro quase inaudível de sua própria respiração, concentrada, e o rangido ocasional do assoalho de madeira sob seus pés quando se movia. A temperatura na oficina era perfeita. Lá fora, o sol de Aurion começava a aquecer as pedras das ruas, mas aqui dentro, a espessa madeira das paredes e as pilhas de tecido agiam como isolantes, mantendo um frescor sereno, vital para as mãos firmes e o trabalho minucioso. O único calor vinha de um pequeno braseiro de carvão onde um ferro de passar repousava, esperando sua vez, exalando um faint cheiro de metal quente. Elian vestia roupas simples e práticas, uma extensão de seu ofício. Calças de algodão macio, lavadas tantas vezes que a cor marrom original havia se tornado uma memória pálida. Uma camisa de linho de mangas compridas, com os punhos meticulosamente enrolados até os cotovelos para não arrastar no trabalho. Um avental de couro macio, não de ferreiro, mas de artesão, manchado de giz e com uma profusão de bolsos que abrigavam alfinetes, dedais e pedaços de fita métrica. Seus cabelos escuros, um pouco longos, estavam presos para trás num rabo-de-cavalo simples, mantendo o rosto desimpedido para a tarefa que exigia toda a sua atenção. Sua mão esquerva planava sobre o tecido, os dedos longos e ágeis alisando o veludo, sentindo a sua nap, a direção do pelo. Ele não via apenas um pedaço de tecido; sentia a sua história. O Sussurro do veludo era suave e profundo, como o murmúrio de um rio noturno. Ele contava de ovelhas pastando em colinas distantes, do tear que o teceu, das mãos que o tingiram com índigo. Sua mão direita, empunhando a tesoura, não se movia até que ele sentisse o caminho certo, até que o Sussurro do tecido se alinhasse com a imagem perfeita do colete que existia apenas em sua mente. Então, a lâmina descia, decisiva e perfeita. Ele não media e remedia obsessivamente como outros; confiava neste estranho instinto, neste pressentimento que sempre o guiava verdadeiro. Um gemido baixo e rouco ecoou do pequeno aposento nos fundos da oficina. O ritmo de Elian quebrou. Ele colocou a tesoura para baixo com uma suavidade que beirava a reverência e se virou. O cheiro no pequeno quarto era diferente. O aroma das ervas medicinais – losna, tomilho e um unguento de alcatrão – dominava o ar, uma tentativa corajosa, mas falha, de mascarar o odor adocicado e nauseante da doença, da pele suada e do mingau de aveia que resfriava num prato ao lado da cama. Seu pai, Loras, era um vulto pálido sob um cobertorem remendado. O homem outrora robusto, cujas mãos largas podiam carregar fardos de lã que faziam outros homens tropeçarem, estava agora reduzido a uma respiração ofegante e irregular. O rosto, ossudo e afundado, estava molhado de suor. Elian molhou um pano limpo numa bacia de água fresca e passou-o gentilmente pela testa do homem, sentindo o calor febril que emanava dele. "O... o barão... o colete..." sussurrou Loras, seus olhos vidrados focando em algum ponto do teto. "Está quase pronto, pai", murmurou Elian, sua voz suave, um contraste com a agulha fina que usava para dar os pontos minuciosos na barra do colete. "O forro de seda está cortado. Só falta o acabamento." "Bom... bom...", o homem resmungou, fechando os olhos. "Não podemos... decepcionar. A encomenda do Castelo..." Elian não respondeu. Seu pai vivia num passado onde ainda recebiam encomendas diretamente da nobreza do Castelo de Áurea, não dos mercadores e capitães de segunda categoria que eram sua clientela atual. A doença havia levado não só sua força, mas também sua noção do presente. De volta à bancada, Elian sentiu uma mudança no ar. Não era uma mudança física, mas uma alteração no Sussurro do mundo exterior. A sinfonia habitual da rua – o pregão dos vendedores, o trotar dos cavalos – ganhou uma nova nota: uma vibração de excitação, um burburinho acelerado. Ele não ouviu palavras claras, mas sentiu o tom: expectativa, curiosidade, um pouco de ansiedade. A campainha na porta tilintou, e a porta de carvalho rachado se abriu, deixando entrar uma rajada do mundo exterior. Era a Sra. Dora, a padeira da rua de baixo, seu rosto rubicundo sob um lenço branco imaculado, seu avental ainda polvilhado de farinha. "Ele ouviu? Todo mundo está comentando!" ela disse, sua voz um sopro ofegante de notícias quentes. Elian ergueu os olhos, uma alfinete entre os lábios. "Ouvir o quê, Sra. Dora?" "O barulho lá fora, menino! A Princesa! A princesa de Valeriana, a terra das rainhas-guerreiras! Dizem que ela vem pessoalmente! Que sua frota já está a caminho do porto! Uma visita de estado!" Ela falava como se cada palavra fosse um doce raro. Elian pegou um novelo de linha de seda cor de creme. Ele passou os dedos sobre ele, sentindo seu Sussurro suave e resistente. Era a escolha certa para os botões. "Isso é... interessante", disse ele, sua mente já calculando se a agitação significaria mais clientes ou se a guarda da cidade fecharia as ruas, atrapalhando os negócios. A política dos grandes senhores era como o clima: algo que acontecia lá em cima e que você suportava aqui embaixo. "Acham que é para uma nova aliança, contra os bárbaros de Krazakh, talvez", a mulher especulava, os olhos brilhando com a perspectiva do drama. "Talvez", Elian concordou absorto, não com a política, mas com o modo como a luz da manhã atingia o veludo, revelando tons profundos de safira que não eram visíveis na sombra. Ele sentiu uma pressão familiar atrás dos olhos, uma leve dor de cabeça que não anunciava uma enxaqueca, mas uma mudança. Ele olhou pela pequena janela com vidro embaçado. O céu estava quase sem nuvens, de um azul claro. "Vai chover", ele murmurou, mais para si mesmo. "A chover? Olha esse céu, Elian! Está lindo!", riu a Sra. Dora. "Mais tarde", ele disse, confiante. Ele não sabia como sabia, apenas sabia. O ar sussurrava para ele, tinha uma peso úmido e elétrico que ninguém mais parecia notar. "Uma tempestade forte. Você deve recolher as toldagens do seu balcão antes do meio-dia." A Sra. Dora balançou a cabeça, achando graça da previsão absurda do jovem. "Você e seus pressentimentos, menino. Bem, vou lá embaixo ver se vendo uns pães para a multidão que já começa a se aglomerar. Grandes eventos são bons para os negócios!" Ela saiu, levando consigo o burburinho exterior. A oficina mergulhou novamente na sua paz sonora, perturbada apenas pelo rangido do assoalho, pelo shhh-shhh da tesoura e pelo Sussurro dos fios. Elian pegou o ferro de passar do braseiro. O metal aquecido cheirava a calor puro. Ele o pressionou contra um pano úmido sobre o veludo, e um grande baforo de vapor explodiu silenciosamente, carregando o cheiro de lã quente e umidade. Ele via o vapor subir, torcer-se na faixa de luz solar, e por um momento, pareceu-lhe ver formas – navios com velas desconhecidas, uma multidão animada, o clarão de armaduras ao sol. Ele piscou, e a visão se foi. Era apenas vapor. Apenas um pressentimento. Voltando ao trabalho, suas mãos, guiadas por um conhecimento profundo e silencioso que ia muito além do treinamento, continuaram a dar forma ao futuro, um ponto perfeito de cada vez, completamente alheio ao fato de que o futuro que se aproximava era muito maior do que um simples colete de veludo para um barão.
Lista de capítulos
52 capítulos no total
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