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Capítulo 3 Procissão de Veludo e Aço
O cheiro de Baía Serena havia se transformado. O aroma habitual de sal, peixe e alcatrão foi subjugado por uma torrente de novos odores, uma cacofonia olfativa que anunciava a mudança. O perfume adocicado e empoado de flores exóticas, jogadas na rua por crianças pagas pela Câmara dos Mercadores. O odor acre de verniz fresco nas fachadas de madeira das lojas, aplicado às pressas. O cheiro pesado de suor de uma multidão excitada e comprimida, misturado com o aroma de óleo de amêndoa e perfume barato usado em uma tentativa de disfarçá-lo. E, pairando sobre tudo, o cheiro metálico e quente do medo e da expectativa. Os sons eram um muro sólido de vibração. O burburinho da multidão era um oceano, com ondas de exclamações e aplausos que quebravam aleatoriamente. O estalo nítido e autoritário das lanças da guarda cityana contra o calçamento de pedra, marcando um ritmo marcial. O troar distante de tambores, crescendo a cada minuto, anunciando a aproximação da procissão. E, por fim, o som que fez todos calarem por um momento: o rugido profundo e quase animal de uma besta mecânica, uma carruagem movida a éter, cujo núcleo de energia cantarolava uma nota baixa e perturbadora. A temperatura subira com o sol do meio-dia e com o calor dos corpos amontoados. O ar estava pesado, difícil de respirar. O sol de Aurion batia implacável nas armaduras dos soldados, fazendo-as brilhar como espelhos cegantes e criando um forno em miniatura em torno de cada homem. O suor escorria pelas têmporas de Elian, e ele sentia a umidade das costas da pessoa pressionada contra ele. Elian não queria estar ali. Fora arrastado pela maré humana, um peixe em um cardume incontável. A Sra. Dora, com uma força insuspeita para uma mulher que lidava com massa, agarrou seu braço e o arrastara para a primeira fila, justificando: "Um jovem precisa ver a história, Elian! Não viva enfiado naquele cubículo escuro!". Agora, ele estava espremido contra uma barricada de madeira, sentindo as lascas na palma de suas mãos, suas roupas simples de linho-uma camisa clara e calças de cânhamo-grudadas no corpo pelo suor. Ele não via a multidão como pessoas, mas como um tecido vivo e pulsante. Observou os vestuários: camponesas com seus vestidos remendados mas limpos, lavadeiras com os braços nudos cruzados, marinheiros com seus coletes sujos de alcatrão, todos com os rostos iluminados por uma curiosidade rara. E entre eles, os mais abastados: mercadores com seus gibões de veludo (trabalho de seus concorrentes mais caros, notou ele), suas esposas com vestidos de seda justos e chapéus emplumados, abanando-se com leques com expressões de tédio estudado. Então, a procissão chegou. Primeiro, a Guarda Cityana de Aurion. Eles marchavam com uma precisão rígida, suas armaduras de bronze polido não eram para a guerra, mas para a exibição. Cada peça era gravada com runas de brilho suave, e eles carregavam gladiums reluzentes. Mas o que mais chamou a atenção de Elian foram os dispositivos em seus pulsos: braçadeiras de latão com cristais azuis embutidos que projetavam um campo de força quase invisível, um escudo térmico que mantinha o calor e a multidão à distância, criando uma distorção no ar à sua volta. Era tecnologia mágica ostentatória, cara e impressionante-a assinatura de Aurion. Atrás deles, vieram os nobres de Aurion. Montados em cavalos escuros e poderosos, cujos cascos eram ferrados com metal prateado que faiscava contra as pedras. Seus trajes eram uma explosão de cores e arrogância. Veludos profundos, brocados pesados com fios de ouro e prata, sedas que mudavam de cor sob a luz. Muitos usavam lentes monóculo com engrenagens minúsculas que giravam sozinhas, provavelmente artefatos de visão ampliada ou de detecção de magia. Um homem particularmente obeso, com um chapéu enfeitado com uma pena de falcão-das-tormentas (uma criatura mágica), carregava um bastão onde um pequeno elemental de ar, parecendo um redemoinho brilhante, estava preso, soprando uma brisa fresca constantemente em seu rosto ruborizado. Elian sentiu um frio na nuca ao ver aquilo-o Sussurro da pequena criatura era de angústia e confinamento. O contraste não poderia ser mais gritante. Em seguida, marchou o Séquito de Valeriana. Não havia bestas mecânicas, nem campos de força ostensivos. Apenas um silêncio repentino que caiu sobre a multidão, seguido por um sussurro de admiração temerosa. Primeiro, as Guardiãs da Coroa. Mulheres. Todas. Altas, esguias e movendo-se com uma graça felina que era ao mesmo tempo mortal e elegante. Suas armaduras não eram de metal polido, mas de cuir boulli-couro fervido e moldado-escurecido e embutido com padrões complexos que lembravam galhos de árvores ou veias de folhas. Era mais leve, mais silencioso, e, intuía Elian, tão resistente quanto o aço. Não usavam elmos pesados, mas diademas de ferro prateado que não escondiam seus rostos sérios e impassíveis. Seus mantos eram de um verde-floresta profundo, presos por broches de prata em forma de crescente lunar. Elas não carregavam escudos tecnomágicos. Em vez disso, cada uma portava uma lança de ashwood longa e reta, com uma ponta de aço prateado que parecia sorver a luz ao invés de refleti-la. Nas costas, um escudo circular leve e uma espada curta. Sua magia não estava na ostentação, mas na postura. Elas pareciam parte do ambiente, seus passos quase não faziam ruído no calçamento, e seus olhos, sharp e vigilantes, scanneavam a multidão não como uma ameaça, mas como parte da paisagem a ser protegida-ou, se necessário, podada. O Sussurro delas era de terra firme, raízes profundas e uma paciência antiga e imutável. E então, no centro desse quadrado de quietude e força, estava ela. A Princesa Lyra de Valeriana. Elian prendeu a respiração. Não por reverência, mas pela pura força do que estava vendo. Ele, o alfaiate, o artesão, viu primeiro o conjunto. Ela não estava numa carruagem dourada. Montava uma égua cinzenta, alta e de linhas nobres, sem adornos ou armaduras, apenas uma sela simples de couro escuro trabalhado com os mesmos padrões de seu séquito. Seus vestuários eram de uma simplicidade devastadora. Sobre calças de linho branco imaculado, ela usava uma túnica longa de um azul profundo, quase noturno, feita de uma lã finíssima que caía como um líquidade. Não havia bordados de ouro, nem jóias reluzentes. Na cintura, um cinto de prata martelada com um único cristal azul no fecho-o único indício de sua posição. Sobre os ombros, um manto leve da cor de vinho, preso por um simples fíbula de ferro. Mas então, os olhos de Elian, treinados para ver o que outros perdiam, captaram os detalhes. A linha do pescoço da túnica era cortada com uma precisão geométrica perfeita, um feito de alfaiataria que ele sabia ser incrivelmente difícil. O modo como o manto caía sobre os flancos do cavalo, sem um vinco sequer, falava de um tecido de qualidade inimaginável, tecido em tear mágico. Sua beleza não era do tipo delicado das donzelas dos contos de Aurion. Era uma beleza estrutural. Seu rosto era oval, com maçãs do rosto altas e uma mandíbula determinada. Seus cabelos, da cor de ébano, estavam trançados em uma coroa complexa ao redor da cabeça, practical e regal. Seus olhos, mesmo à distância, pareciam ser de um cinza claro, como o céu antes de uma tempestade, e eles percorriam a multidão com uma calma avaliação, sem sorrir, sem acenar, apenas absorvendo. Ela não estava ali para ser amada pelas massas. Estava ali para observar. E para ser respeitada. O Sussurro que emanava dela era diferente de tudo que Elian já sentira. Não era quente como o ferro na forja, nem úmido como o mar. Era como o ar no topo de uma montanha: frio, claro, imenso e potente. Um vento cortante que carregava a autoridade das eras. Por um breve instante, aqueles olhos cinza percorreram a multidão e pousaram nele. Não foi um reconhecimento, não poderia ser. Ele era apenas um rosto entre milhares. Mas naquele microssegundo, Elian sentiu que ela o viu. Não o jovem plebeu, mas o artesão que analisava cada ponto de sua roupa, o observador que notava a diferença entre a ostentação vazia de Aurion e o poder contido de Valeriana. Então, o momento passou. Seu olhar seguiu adiante, analisando a arquitetura do porto, as expressões das pessoas, o posicionamento dos guardas. A procissão moveu-se para frente, a algazarra recomeçou, mas Elian ficou parado, a impressão daquela figura de azul e prata queimada em sua retina. Ele não pensou em princesas ou política. Pensou no corte impecável daquela túnica. No tecido que parecia beber a luz. No contraste absoluto entre o brilho ruidoso de Aurion e a quietude soberana de Valeriana. Ele mal notou o homem ao seu lado, um mercador gorducho, cuspindo no chão e murmurando para seu companheiro: "Matriarcas. Acham que podem governar melhor que um homem. Dão frio na espinha." Elian não sentiu frio. Sentiu... curiosidade. A curiosidade de um artesão diante de uma obra-prima. E uma pergunta, pequena e insistentemente, começou a ecoar em sua mente: Como seria fazer uma roupa para alguém assim? Ele não tinha ideia de que, muito em breve, não estaria fazendo roupas para ela. Estaria tentando salvar a vida dela.
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