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Capítulo 2
O sino na porta do café tilintou assim que empurrei a porta da entrada, trazendo junto uma rajada de vento frio que fez alguns clientes se encolherem. O lugar estava lotado, como sempre. Mesas pequenas, cadeiras de madeira gastas e o cheiro de café recém-moído misturado ao cheiro doce da canela. Harper estava encostada no balcão, mexendo o celular com uma expressão concentrada demais para alguém que dizia não se importar com nada. - Está atrasada. - Ela não levantou os olhos, mas o canto da boca se curvou num sorriso. - Achei que tinha desistido da vida social. - Quase - respondi, puxando um banquinho ao lado dela. - Mas aí percebi que não posso recusar quando minha única amiga me ameace de abandono. - Única e melhor - ela corrigiu, finalmente me encarando. Os cabelos curtos, tingidos de um vermelho que só existia em quadrinhos, caíam para um lado, e o delineador preto nos olhos estava impecável, como se tivesse acordado assim. - E você sabe que eu não ameaço, eu cumpro. Harper Whitman tinha essa habilidade irritante de entrar em qualquer ambiente e se tornar a pessoa mais interessante dali. Não era apenas pela aparência marcante, mas pela forma como falava, como se cada frase fosse parte de uma piada interna à qual você queria pertencer. O barista colocou dois cappuccinos à nossa frente. Harper pegou o dela, deu um gole e fez uma careta dramática. - Está horrível. - Ela empurrou a xícara para longe. - Mas vou beber mesmo assim porque café ruim ainda é café. - Você é uma mártir - falei, mexendo o meu. - E você está diferente - ela disse, inclinando a cabeça para me observar. - O que foi? Mudou de shampoo? Encontrou um amor secreto? Suspirei. Harper era péssima em deixar um silêncio passar sem preenchê-lo. - Achei algo ontem. - Algo tipo... uma promoção na Amazon? - No diário da Margaret. O efeito foi imediato. Harper apoiou os cotovelos no balcão, inclinando-se para mais perto. - Vai me dizer que finalmente temos fofoca do além? - Uma carta. - Tirei o celular do bolso e procurei as fotos que tirei na noite anterior. - Está em sueco. Mostrei a imagem. Ela pegou o telefone das minhas mãos, ampliou a foto e franziu a testa. - Isso é... bonito. Não entendo nada, mas a caligrafia parece de filme antigo. - Não sei por que ela tinha isso. Harper olhou para mim como se eu tivesse acabado de confessar um crime. - Nora, você sabe que não tem como eu não ficar obcecada com isso, certo? - Eu sei. - E você sabe que vai ter que descobrir o que está escrito. - Eu pensei... - Não pense. - Ela interrompeu, levantando o dedo. - Você sempre quis saber de onde veio. Sempre. Só que fingia que não porque tinha medo de machucar a Margaret. Baixei os olhos para a xícara. Ela tinha razão. Margaret sempre foi meu porto seguro, mas também o portão trancado para qualquer coisa antes dela. - Eu conheço um cara na universidade que pode traduzir - Harper continuou. - É sueco. Trabalha no setor de idiomas e vive reclamando que ninguém nunca pede ajuda para nada útil. - Harper... - Sem "Harper". Eu vou mandar mensagem para ele agora. Puxei o celular dela para longe. - Não é tão simples. - É. Você só está complicando porque tem medo do que vai encontrar. Ela acertou de novo. Ficamos em silêncio por alguns segundos, o barulho do café enchendo o espaço entre nós. Um grupo atrás ria alto, e alguém deixou cair uma colher. Eu pensava na carta, na palavra "Uppsala" que tinha reconhecido, e o som à minha volta começou a se dissolver. - Você está pensando nela, não está? - Harper quebrou o silêncio. - Sempre pensei. Mesmo sem querer. Ela esticou a mão e cobriu a minha. - Então está na hora. Não respondi. Olhei para a espuma do café, girando em círculos lentos, como se o movimento pudesse me dar respostas. Harper suspirou e pegou de volta o celular. - Amanhã, você vem comigo na universidade. Eu falei com o Henrik - esse é o sueco - e a gente vê o que ele diz. - E se eu não quiser saber? Ela sorriu de lado. - Mentira. Você quer. Fiquei olhando para ela, tentando encontrar uma brecha, algum argumento que me deixasse no controle. Mas era Harper. E Harper sempre ganhava. Peguei minha xícara e bebi um gole. Estava morno e amargo, mas, de repente, parecia exatamente o que eu precisava. Harper terminou o café com um gole decidido, como se quisesse provar algo para si mesma. - Pronto. Agora não posso mais dizer que não tomo café ruim. É parte do meu currículo de sofrimentos. Revirei os olhos, mas não consegui esconder um sorriso. Ela sempre tinha essa habilidade irritante de me arrancar uma reação quando eu menos queria. - Você acha mesmo que esse Henrik vai querer ajudar? - perguntei, só para sentir se havia uma chance de escapar dessa missão. - Henrik é obcecado por dois tipos de coisa: pão artesanal e traduções. Você não está me dando pão, então... - Ela deu de ombros. - É claro que ele vai querer. A naturalidade dela me deixava inquieta. Para Harper, a vida era um conjunto de portas sempre abertas; para mim, era uma sequência de fechaduras para as quais eu nunca tive as chaves. - E se for algo... ruim? - murmurei. - Então a gente lida. - Ela apoiou o queixo na mão e me encarou. - Mas, pelo amor de Deus, para de viver como se sua vida fosse uma sala de espera. A frase ficou ecoando em mim. Eu não queria admitir, mas ela tinha razão. Era exatamente assim que me sentia nos últimos anos: parada, observando os outros entrarem e saírem de lugares aos quais eu nunca pertenceria. O barista passou por nós recolhendo as xícaras, e Harper aproveitou para roubar o biscoito que veio no meu pires. - Você não ia comer mesmo - disse, antes que eu protestasse. - Eu ia. - Não ia. Suspirei, e ela sorriu vitoriosa. A sineta na porta tocou de novo, trazendo um sopro de ar gelado. Lá fora, a rua estava coberta por uma fina camada de neve, e eu me perguntei se Uppsala se parecia com aquilo. Talvez mais branca, mais silenciosa. Talvez tivesse o mesmo tipo de frio que entra pela roupa e se instala nos ossos. - Então é isso. - Harper se levantou, ajeitando o casaco. - Amanhã, às dez. Não inventa desculpa. - Não prometo nada. - Promete sim. E, como sempre, ela saiu primeiro, deixando-me com a sensação de que uma parte da decisão já estava tomada por mim. Olhei para o lugar vazio ao meu lado, depois para a porta, e senti que a carta estava ainda mais pesada no bolso do meu casaco. O café agora cheirava a canela e café queimado, mas eu mal percebia. Tudo que conseguia pensar era na caligrafia inclinada de Áine e no nome daquela cidade. Uppsala. Soava como uma chave que ainda não cabia em nenhuma fechadura - mas que, de algum jeito, já estava queimando na minha mão.
Lista de capítulos
65 capítulos no total
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