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Capítulo 3
A neve da manhã seguinte parecia mais branca do que de costume, refletindo uma luz que me obrigou a apertar os olhos assim que saí do metrô. Harper andava ao meu lado, falando sem parar sobre uma instalação artística que ela queria fazer com cabides, luzes de Natal e um manequim que, segundo ela, "ia mudar a forma como as pessoas viam o corpo humano". - Você não está ouvindo nada do que eu digo, né? - perguntou, depois de alguns segundos de silêncio da minha parte. - Estou. Cabides, luzes e um manequim. - Viu? Eu sabia que você me amava. Atravessamos a rua e entramos no campus da universidade. Os prédios antigos misturavam tijolos vermelhos e janelas de vidro modernas, como se a história e o presente tivessem feito um acordo frágil para coexistir. A neve acumulada nos degraus rangia sob nossas botas. - O escritório do Henrik é no segundo andar da biblioteca central - disse Harper, consultando o celular. - Mas aviso: ele tem zero paciência para enrolação. - Ótimo, então somos almas opostas. Ela me deu um sorriso cúmplice e empurrou a porta dupla. O calor lá dentro me envolveu como um cobertor repentino, e o cheiro de livros antigos misturado ao de café vindo de uma máquina no canto me fez sentir em casa por um instante. O escritório de Henrik ficava no final de um corredor estreito, com paredes cheias de avisos sobre horários de atendimento e eventos culturais. Harper bateu na porta duas vezes antes que uma voz grave dissesse: - Entre. Henrik era alto, magro, com cabelos grisalhos penteados para trás e óculos retangulares que escorregavam constantemente pelo nariz. Ele parecia o tipo de homem que nunca errou uma gramática na vida. - Harper - ele cumprimentou, com um aceno seco. - E...? - Minha amiga Nora - ela disse, entrando sem cerimônia. - Ela tem algo que você precisa ver. Sentei-me diante da mesa dele, sentindo minhas mãos suarem dentro das luvas. Tirei o celular e mostrei a foto da carta. Henrik pegou o aparelho, ajustou os óculos e inclinou a cabeça, como se a caligrafia estivesse tentando lhe contar um segredo. - É sueco, sim - disse, após alguns segundos. - Mas com uma grafia antiga, talvez de vinte, trinta anos atrás. Meu estômago se contraiu. Ele começou a ler em voz baixa, primeiro para si mesmo, depois para nós. - "Para a criança que não deveria ter partido..." - fez uma pausa e levantou os olhos para mim. - "Uppsala não é mais segura. Há pessoas que fariam qualquer coisa para manter o passado enterrado." A temperatura da sala pareceu cair alguns graus. Harper e eu trocamos um olhar rápido. - Tem mais? - perguntei, tentando manter a voz firme. Henrik olhou de novo para o celular, leu algumas linhas e franziu a testa. - Fala de um nome... Bergström. - Ele pronunciou devagar, como se testasse o som. - E de um encontro que deveria acontecer no final do mês. - Mas... encontro com quem? - Harper se adiantou. Ele fechou os olhos por um segundo, como se estivesse decidindo algo. Então empurrou o celular de volta para mim. - Não posso continuar. - Como assim, não pode? - Harper perguntou, incrédula. - Você começou. - Não quero me envolver. - Ele tirou os óculos e os colocou sobre a mesa. - Esse tipo de coisa... atrai problemas. - É só uma carta antiga - retruquei, mas minha voz soou mais fraca do que eu queria. Henrik me olhou de um jeito que não deixava espaço para dúvidas. - Cartas antigas às vezes são mais perigosas do que notícias de amanhã. Por um instante, a única coisa que ouvi foi o som distante de páginas sendo viradas na biblioteca. Harper estava prestes a dizer algo, mas eu a interrompi. - Tudo bem - falei, guardando o celular no bolso. - Obrigada pelo seu tempo. Levantei-me, e Harper fez o mesmo, embora com relutância. Henrik apenas acenou, já voltando a mexer em alguns papéis como se estivéssemos a quilômetros de distância. Ao sair do escritório, o corredor pareceu mais estreito. A luz fria das lâmpadas de teto realçava o peso na boca do meu estômago. - Ele sabe mais do que disse - Harper murmurou, enquanto descíamos as escadas. - Eu sei. Lá fora, a neve caía em flocos pequenos, quase preguiçosos. Apertei o casaco contra o corpo, sentindo o papel da carta como um peso invisível no bolso interno. O que quer que estivesse escrito no restante daquelas linhas, Henrik não queria ser o mensageiro. E agora, mais do que nunca, eu precisava descobrir o porquê. Harper empurrou a porta da biblioteca com mais força do que o necessário, fazendo o sino tilintar atrás de nós. O ar gelado me atingiu de imediato, cortando minha pele. - Ele é um covarde - ela disse, ajustando o cachecol enquanto andávamos pela calçada coberta de neve. - Ficar com medo de uma carta? Por favor. - Não acho que seja só medo - murmurei. - Então o quê é? Olhei para o chão, onde nossas pegadas se misturavam com as marcas antigas de outras pessoas que passaram por ali. - Acho que ele reconheceu alguma coisa. Harper bufou, mas não respondeu. O som dos carros passando lentamente na rua preenchia o silêncio entre nós. - E se essa carta não for sobre você? - ela perguntou de repente. - E se for outra pessoa? - Ela estava no diário da Margaret - respondi, como se isso fosse argumento suficiente. - Mas você não sabe como foi parar lá. - Não, mas... - hesitei - a primeira frase fala de uma criança que não deveria ter partido. Harper me lançou um olhar de lado. - E você acha que é essa criança. - Eu sei que sou. Falar aquilo em voz alta fez algo se mover dentro de mim. Não era apenas uma suspeita; era uma certeza que crescia como um nó no estômago. Paramos na esquina para esperar o semáforo. A neve caía com mais força agora, pousando nos cabelos de Harper e derretendo rápido contra o tecido do meu casaco. - Então o que a gente faz agora? - ela perguntou. - Procura outra pessoa para traduzir o resto. - Conheço gente - ela disse, o tom mais determinado. - Mas antes, você vai me explicar quem é Bergström. - Eu não sei. - Pois então vamos descobrir. O sinal abriu, e seguimos andando. Cada passo parecia mais pesado, como se a rua estivesse inclinada contra nós. Eu sentia a carta no bolso, o celular com as fotos na minha bolsa e, acima de tudo, uma estranha urgência de não deixar que essa história esfriasse. Quando chegamos à entrada do metrô, Harper segurou meu braço. - Não deixa isso morrer, Nora. Você faz isso às vezes: chega perto e recua. - Não vou recuar. Ela me soltou, satisfeita, e desceu as escadas primeiro. Eu fiquei parada por um segundo, observando as luzes vermelhas dos carros se afastando pela rua. No fundo, sabia que Henrik não era só um obstáculo. Ele era um aviso. E, se ele tinha razão sobre cartas antigas poderem ser perigosas, talvez eu já estivesse atrasada demais para me proteger. Peguei o metrô para casa, encostando a testa na janela fria. Cada túnel que passávamos deixava meu reflexo mais distorcido. Por um momento, imaginei Margaret sentada à minha frente, com aquele sorriso calmo que escondia tanto. - O que você fez, Margaret? - murmurei, mas a pergunta se perdeu no barulho metálico do vagão. Quando cheguei ao apartamento, joguei as chaves sobre a mesa e tirei a carta do bolso. Abri-a novamente, passando o dedo sobre as palavras como se pudesse sentir a voz de quem as escreveu. E, bem no canto inferior, quase apagado pelo tempo, percebi algo que não tinha notado antes: uma pequena marca, como um carimbo borrado. Era um símbolo circular, com uma letra no centro. A letra K. E eu sabia, sem entender por quê, que aquilo era importante.
Isso é tudo que está disponível no momento.
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