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Capítulo 2 Patricinha Enigmática
POV ALICE 💖
Eu sempre fui uma menina tranquila, nunca dei trabalho nenhum aos meus pais. Embora tenha crescido num berço de ouro, não suporto a vida de depender deles.
Minha mãe é brasileira mesmo e conheceu o meu pai em uma das viagens dele a negócios aqui no Rio. Meu pai, um Italiano rico que deu a sorte de encontrar uma mulher que faz de tudo e mais um pouco por ele, vulgo: minha mãe.
Quando eu tinha por volta dos três anos, vim morar aqui no Rio, e fiquei lá e cá por anos mas, apesar de ser Italiana, de lá só tenho a língua e a aparência porque de gosto, prefiro tudo que for do Brasil, tradições e tudo mais não é comigo.
Meu pai é um empresário bem sucedido, minha mãe, apesar de ter formação vive para ele, já que ele disse que ela não precisa trabalhar.
Hoje em dia, eles moram lá, a empresa do meu pai precisava de um punho forte na capital então eles retornaram, me deixaram aqui simplesmente porque, pasmem, eles confiam no Felipe.
Implorei pra ficar porque não queria me separar dele, e meu pai sempre gostou muito da pessoa que ele era, até eu gostava. No início, ele era um amor, me tratava bem, era um príncipe, mas de uns tempos pra cá, mais especificamente quando fiquei sozinha no Rio, ele mudou da água pro vinho. Tenta me agredir sempre que brigamos e eu até acostumei com isso mas dessa vez, foi o fim, nunca havia visto ele desse jeito, e nunca tinha apanhado assim também.
Me joguei do carro sem pensar muito e sabia que ia me foder por isso.
O primeiro sentido que me trouxe de volta à realidade foi o olfato. O ar ali tinha um aroma suave de desinfetante misturado com algo que lembrava café da manhã.
Tentei me levantar em um sobressalto, mas uma pontada na lateral do meu pescoço me fez soltar um gemido e cair de volta na cama.
- Calma, menina. Não força, ou os pontos vão abrir.
Abri os olhos devagar, piscando contra a claridade que entrava pela janela.
Eu não estava em um hospital, era muito acabado pra ser um, o quarto era pequeno mas extremamente limpo.
Sentada em uma cadeira ao meu lado estava uma senhora de cabelos brancos e olhar cansado, segurando uma bacia com água morna e gazes.
- Onde... onde eu estou? - Minha voz saiu como um sussurro. Minha garganta tava seca.
Olhei para baixo e vi meus braços e mãos cobertos por faixas brancas.
- Você tá no postinho. No Alemão - a senhora respondeu com uma voz mansa, mas firme. - Sou a enfermeira daqui. O chefe te trouxe ontem nos braços, um trapo só. Lavamos seus cortes e costuramos o pescoço. Você deu sorte, o corte foi feio, mas não pegou a artéria.
O chefe?
A palavra ecoou na minha mente, trazendo de volta um turbilhão de memórias fragmentadas. O soco de Felipe. A lâmina do punhal brilhando. O asfalto frio contra o meu corpo e, depois aqueles olhos lendo a minha alma no meio da escuridão do beco.
Ia perguntar mais alguma coisa mas a porta do quarto abriu.
Ele entrou.
O homem que eu lembrava como uma assombração da noite anterior materializou-se na minha frente.
Alto, vestindo uma camiseta preta da Lacoste e cheiroso pra caralho.
Ele não carregava armas visíveis, mas não precisava. A forma como ele andava, o silêncio dele, tudo nele gritava perigo absoluto.
Ele com certeza era o patrão aqui.
Ele olhou pra mim varrendo o meu rosto inchado e as minhas mãos enfaixadas com uma frieza cirúrgica, calculando cada pedaço da minha vulnerabilidade.
- Deixa a gente a sós, dona Dalva. - ele disse. A voz era baixa, rouca, mas carregava a autoridade invisível de quem manda e desobedece o resto do mundo.
A enfermeira apenas assentiu, recolheu suas coisas em silêncio e saiu, fechando a porta atrás de si. Ficamos apenas nós dois. O chefe do tráfico do Complexo do Alemão e eu, a filha de um magnata italiano, trancados olhando um pra cara do outro.
Ele caminhou até o pé da cama e tirou a arma da cintura, colocando em cima da mesa, cruzou os braços, mantendo uma distância calculada.
Ficou me encarando por longos segundos, um silêncio torturante que me fez encolher o corpo sob o lençol, já estava quase questionando que porra era que ele tinha quando ele resolveu falar.
- Qual é o teu nome? - perguntou, direto ao ponto.
- Alice... Bianchini - respondi, engolindo o choro que ameaçava entalar na minha garganta. Meu sotaque italiano se misturava ao pânico.
- Bianchini. - Ele repetiu quase rindo amargo, sabia que não era um nome comum pra quem tava na favela. - Tuas roupas rasgadas ontem valem mais do que a casa de muito trabalhador aqui embaixo - ele comentou - O que uma dondoca do asfalto tava fazendo na minha quebrada às três da manhã?
As lágrimas finalmente venceram, escorrendo quente pelas minhas bochechas e ardendo nos arranhões do meu rosto.
- O meu namorado... Ex- namorado.. Nós brigamos, eu descobri que ele estava me traindo e ele... enlouqueceu. Ele me bateu, puxou um punhal... Sei lá, ele tentou me matar. Eu tive que pular do carro em movimento pra sobreviver. Eu não sabia pra onde estava indo, só vi as luzes do morro e corri.
Ele não moveu um único músculo do rosto. Não houve pena, não houve choque. Mas percebi um brilho sombrio, quase imperceptível. Ele parecia processar a informação como um general montando uma estratégia.
- Esse teu namorado. Quem ele é lá embaixo? É polícia? Milícia? Filho de político? - o tom dele subiu um milímetro, mais afiado. - Porque se esse merda meter a Rota aqui dentro atrás de tu, tu vira um problema pra mim. E eu odeio problemas, patricinha.
O aviso implícito me fez tremer.
- Não. Ele não é da polícia. O pai dele é um grande empresário, ele trabalha com o meu pai. Eles são da alta sociedade, Felipe tem pavor de escândalos. Ele deve estar achando que eu morri na pista ou escondendo o que fez. Ele não vai chamar a polícia.
Ele descruzou os braços e deu um passo à frente. Instintivamente, prendi a respiração. Ele se inclinou levemente na minha direção, e o cheiro de perfume masculino misturado com um cheiro de maconha me atingiu.
- Tu deu o maior golpe de sorte da tua vida ontem. Se cai na mão de outro, teu corpo já tava em um saco preto - a voz dele era um sussurro gélido - No asfalto, teu namorado pode achar que é dono do mundo. Mas aqui em cima, a lei sou eu ele não pisa aqui.
Ele se virou para sair, dando o assunto por encerrado, mas meus olhos se desviaram dele por um segundo e pousaram em cima de uma pequena cômoda de madeira no canto do quarto. Tinha apenas um objeto pessoal ali, a porra do meu celular.
Olhei da cômoda para as costas dele. Ele parou com a mão na maçaneta e olhou sobre o ombro, me pegando encarando o celular.
Seus olhos se estreitaram, voltando a ficar impenetráveis.
- Tu vai ficar nesse quarto até teus pontos fecharem e tu conseguir andar. Dona Dalva vai cuidar aí dos bagulho, mas não inventa de passar daquela porta sem a minha ordem. Entendeu, patricinha?
- Entendi - sussurrei.
A porta se fechou com um estalo firme, e o silêncio voltou a inundar o quarto. Soltei o ar, sentindo meus músculos relaxarem minimamente contra o colchão. Eu estava trancada no coração de uma das maiores favelas do Rio de Janeiro, sob o teto de um completo desconhecido. Mas, olhando para as minhas mãos enfaixadas, percebi algo que me deu um arrepio estranho, pela primeira vez em muito tempo, eu sabia que Felipe Varella não conseguiria me tocar.
Lista de capítulos
11 capítulos no total
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