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Capítulo 3 Sete Dias Trancada
POV ALICE💖
Sete dias. Foi o tempo que passei confinada naquele quarto do postinho da comunidade. Sete dias seguindo à risca as ordens daquele homem, sem ver ninguém além de dona Dalva, a enfermeira que limpava meus ferimentos em silêncio e ele, que vinha todo dia de madrugada ver se eu realmente ainda estava aqui.
Ele chegava por volta das 1:00AM de acordo com o relógio de parede. Tirava a arma da cintura, sentava na cadeira ao me lado e ficava horas mexendo em papéis, fazendo cálculos silenciosamente.
Eu fingia estar dormindo, porque estava com a rotina toda desregulada, dormia de manhã e passava a noite em claro, assistia TV até perto da hora dele chegar, depois desligava e fingia dormir.
Várias vezes senti o cheiro dele perto demais, tinha certeza que ele estava bem próximo do meu rosto tentando ver se eu estava dormindo mesmo e as vezes, era impossível me controlar, a vontade de rir era enorme. Várias vezes cogitei abrir os olhos e perguntar se ele queria me beijar, mas eu não tava maluca ainda.
Desliguei a TV na velocidade da luz quando ouvi passos do lado de fora, a porta abriu antes da hora e ele entrou. Não era nem meia noite ainda.
Ele entrou analisando e eu forcei meus olhos a ficarem fechados, ouvi a porta abrir e fechar de novo e suspirei abrindo os olhos, crente que ele tinha saído.
Me virei para a porta e ele estava parado em pé, me encarando de braços cruzados.
Droga. Comecei a rir baixo.
- Me pegou. - falei me virando para ele e puxando o lençol para cima.
- Bem queria. - respondeu sério sentando na cadeira. - Você é péssima demais, fingia tão bem tá dormindo que dormia de verdade. - ele falou se referindo aos dias anteriores.
- Você sabia? - pergunto surpresa.
Ele confirmou com a cabeça abrindo as folhas que ele sempre trazia em cima da mesa.
- Porque não falou nada? Era um saco fingir dormir.
- Se tu queria fingir, pô, problema teu. Só venho pra cá porque é silencioso o suficiente pra eu pensar direito.
- Pensar em quê? - pergunto me levantando, indo até a mesa.
- Não é da tua conta. - responde indiferente.
- Ai, grosso. Tô só puxando assunto já que você vem me visitar todo dia. - digo sabendo que é melhor ficar calada.
- Não venho te visitar. - responde analisando os papéis.
Me afasto um pouco da mesa e pego um copo com água, sentando na outra cadeira perto dele.
- Isso é o quê, um mapa? - ele balança a cabeça sem me responder.- De onde? - pergunto já sentindo a raiva dele começar a aparecer.
O homem me olha com a maior cara de tédio, com os olhos verdes extremamente vermelhos, certeza que passa o dia enchendo o cu de maconha.
- Tu quer se alistar pra ser minha soldado também, porra? - ele pergunta baixo.- Aí eu te explico meu plano.
Revirei os olhos levantando da cadeira e voltando pra cama.
Eu estava no tédio.
Meu celular estava quebrado. Eu sabia que a essa altura Felipe deveria estar surtando, tentando esconder o que fez ou inventando uma mentira deslavada para o meu pai.
Mas eu não ligava. Pela primeira vez em meses, eu respirava sem o peso da manipulação dele.
Dormi depois de um tempo ouvindo o homem discutir baixo com ele mesmo sobre o que tinha que fazer, completamente maluco mesmo.
No outro dia, a febre baixou e minhas pernas já aguentavam o meu peso bem melhor. O quarto parecia estar encolhendo ao meu redor e eu estava louca. Esperei dona Dalva sair e saí pelos fundos.
A realidade do Complexo do Alemão me atingiu como um soco. Ruas estreitas, mototaxis rasgando as subidas, uma gritaria danada na quadra.
Eu andava devagar com as roupas emprestadas, uma calça de moletom e uma regatinha pequena, mas meu cabelo, minha pele e o curativo enorme no meu pescoço me entregavam.
- Papo reto, tu tá moscando forte, patricinha.
Um homem alto, moreno e com um cordão fino de prata no pescoço, bloqueou meu caminho. Ele portava um rádio na cintura e um fuzil enorme nas costas e me avaliava com uma seriedade que me fez travar.
- Eu só estava caminhando - gaguejei.
- Caminhando sem autorização do patrão, né? Ele mandou tu segurar o passo lá no postinho - ele deu um meio sorriso seco e fez um sinal com a cabeça para dois rapazes armados atrás dele. - Vamo dar um rolê até a boca, o Alemão vai querer saber por que tu tá perambulando.
O trajeto até a ''boca'', seja lá o que for isso, foi rápido. Depois de um entra e sai danado numa porrada de beco, ele sobe uma pequena escadaria que dá na frente de uma casa mais ou menos. Ele entra caminhando em direção ao homem que tá de costas escorado na janela, olhando a vista, porque aqui é alto pra caramba.
- Pensei que tinha sido claro quando disse que não queria que tirassem meu sossego hoje, Taliba. - a voz ecoa pela sala, grossa, rouca, carregada de raiva. Dou dois passinhos pra dentro, ficando o máximo que eu posso atrás do tal Taliba, como se ele fosse me proteger.
- Ah, qual é Alemão, ta de tiração? Sou teu amigo antes de ser teu soldado.
- Isso não quer dizer que possa desrespeitar minhas ordens. - Alemão responde ainda de costas.
Taliba anda pela sala e se senta no sofá, todo jogado, enquanto eu permaneço estática no mesmo lugar.
- Que porra você quer? Dá teu papo logo que eu já mandei sair uma vez, se eu tiver que repetir não vou entender legal.
- Encontrei a dondoca batendo perna perto da subida. - O moreno falou.
Alemão se virou devagar. Seus olhos perfuraram os meus. Tentei ao máximo segurar o olhar dele, mas não deu, desviei, não sei porque me sentia extremamente sem graça.
- Tu não sabe ouvir uma ordem, né? - a voz dele saiu baixa, um sussurro perigoso.
- Eu precisava sair dali, já tô boa. - respondi, tentando sustentar o olhar. - Eu tenho uma vida.
Alemão não bateu boca. Ele apenas olhou para Taliba e estendeu a mão.
- Chave do Lancer.
Taliba jogou o chaveiro. Alemão pegou no ar, guardou no bolso e voltou os olhos frios para mim.
- Desce lá pros cria, vou trocar uma idéia com a paty. - Taliba confirma saindo da sala.
Encaro o homem guardando a arma na cintura enquanto aguardo pacientemente.
- Você vai me deixar sair daqui, né? - pergunto começando a me desesperar.
Ele me encara e não responde, apenas ri pouco.
- Por favor, promete que vai me deixar ir, eu sumo, não falo nada pra ninguém, nunca mais você vai me ver. - Ele me encara e balança a cabeça negativamente rindo como se estivesse desacreditado.
- Que pena, então, pô. - Ele responde.
Pena por quê? Não entendi nada mas permaneci calada enquanto ele recolhia suas coisas pela sala.
- Não sou homem de promessas, mas se eu quisesse te matar, como você acha que eu quero, tu já tava cavando a cova, patricinha - ele anda devagar até chegar pertinho de mim.
Me encara e eu permaneço estática, encarando o sorrisinho sem vergonha na cara dele.
A mão dele sobe passando levemente o dedo no meu pescoço negando com cabeça.
- Que tipo de namorado maltrata uma mulher que nem tu? E pior, que tipo de mulher é tu, que apanha de namorado? - eu não sei se ele estava julgando ou só confuso, a pergunta era genuína e o interesse dele também.
Em vez de responder alguma coisa, não consegui controlar o choro. Ele tinha razão, que tipo de mulher me tornei?
Ouço ele andar enquanto limpo o rosto. Ele passa por mim e segue para fora.
Sigo sem discutir.
Ele entrou num carro preto de películas escuras e eu entrei também, sentando do seu lado, no banco do carona.
- Bota teu endereço aí. - ele apontou pro GPS do carro e eu me movi, escrevendo meu endereço na Barra enquanto ele avalia cada movimento que eu faço. Aperto em iniciar e ele liga o carro.
As vezes eu fico me perguntando se tenho algum juízo. Literalmente acabei de dar meu endereço pra um traficante e como se só isso não fosse o bastante, tô levando ele lá.
O caminho de volta para a Zona Sul foi dominado por um silêncio absoluto. Ele dirigia com uma mão no volante e a outra na arma em cima da perna dele. O perfil rígido e a mandíbula travada.
Ele não ligou o rádio. Não fez perguntas. Ele simplesmente agia como se eu fosse uma carga que precisava ser entregue.
Mas ele vigiava.
Eu percebia os olhos dele pelo espelho retrovisor e sempre que o trânsito parava, ele desviava o olhar diretamente para mim avaliando tudo o que eu tava fazendo, era difícil até respirar.
Ele fazia uma análise lenta, que começava na minha boca, descia pelo curativo no pescoço e parava no meu corpo antes de voltar para a pista. Ele não dizia nada, mas a intensidade do olhar fazia meu estômago ficar louco.
Aquela energia masculina, pesada e silenciosa me atingia de um jeito avassalador. Olhando para o perfil dele, percebi o quanto eu estava anestesiada. Felipe passou os últimos anos me destruindo psicologicamente, me humilhando e me controlando.
Na cama, já fazia uma eternidade que eu não sentia absolutamente nada com ele, o sexo tinha virado uma obrigação que não me satisfazia. Eu sabia, naquele momento, que o que me prendia ao Felipe não era amor, era a maldita dependência emocional. O medo de ficar sozinha, a manipulação que ele exercia sobre a minha mente.
Mas olhando para esse homem, aquela dependência parecia evaporar, dando lugar a um desejo, puramente físico. Eu queria sentir alguma coisa de verdade de novo. E pelo jeito que ele me olhava, ele também queria.
Alemão não era cego e eu não era feia apesar de estar toda remendada, ele só queria transar, saciar um instinto, e eu também.
Depois de alguns minutos de puro desconforto, com olhares entrelinhas, o carro para. Ele me olha, mantendo seus olhos nos meus por tempo demais, parece que já sacou que isso me deixa nervosa.
- Por que tá me olhando assim? - Pergunto.
- Só admirando, relaxa, gatinha. - Ele responde sério.
Senti até tremerem as pernas, tive medo de andar e cair depois disso, o efeito da voz rouca dele me atiçava descaradamente.
- Tá entregue, paty. Desce e some da minha frente. - disse, sem me olhar nos olhos. Uma ordem seca para manter a distância que ele mesmo estava tentando não quebrar.
Eu não me movi. Segurei o braço dele. O músculo sob a minha mão tencionou imediatamente.
- Sobe comigo - falei, a voz doce, sem hesitação. - Quero te agradecer.
Ele virou a cabeça devagar estranhando e entregando que ele tinha pensado besteira. Seus olhos faiscaram, avaliando a minha audácia.
- Não costumo entrar onde não conheço.
- Ah vai, por favor? Como vou te agradecer se você não colaborar? Eu posso fazer algo para você comer. É o mínimo.
Ele me encarou por longos segundos. Dava para ver as engrenagens da mente dele calculando o risco, o território, o absurdo da situação. Mas o desejo venceu a lógica. Com um suspiro pesado, ele desligou o carro e eu desci pra ele não ter tempo de desistir.
- Gosta de brincar com o perigo - murmurou baixo negando com a cabeça enquanto a boca sorria levemente quase imperceptível.
O meu apartamento parecia grande demais, luxuoso. Ele entrou com passos lentos, os olhos escaneando os móveis caros e a vista como um predador em território estranho. Ele não se sentou. Caminhou até o balcão da cozinha americana e se escorou ali.
Demorei coisa de segundos pra tomar banho, troquei de roupa pondo uma confortável de ficar em casa mesmo. Voltei pra sala e o vi sentado no sofá, parecia cansado pois estava de olhos fechados.
A camisa de botão dele não tinha um sequer fechado, e por estar aberta, a visão do seu peitoral era perfeita, a arma na cintura só deixava mais sexy ainda aquele pedaço de mau caminho.
Tossi para que ele olhasse pra mim e ele abriu os olhos me encarando.
Eu fui até a geladeira, tentando manter a calma enquanto pegava alguns ingredientes. Mas o silêncio dele era esmagador.
Alemão não desviava os olhos de mim. Cada movimento que eu fazia, cada passo, eu sentia o peso do olhar dele acompanhando as curvas do meu corpo. Ele estava me despindo mentalmente, e aquela análise silenciosa estava acelerando a minha respiração, me deixando completamente malucas das idéias.
Deixei os ingredientes de lado. A comida era só uma desculpa e nós dois sabíamos disso. Virei para ele, apoiando as mãos no balcão, ficando a poucos centímetros dele que já tinha levantado do sofá e voltado para o balcão da cozinha. Parecia que ele não confiava em mim e precisava ficar de olho o tempo inteiro.
- Você não fala muito, né? - perguntei, a voz saindo mansa, um convite claro.
Ele descruzou os braços, deu um passo à frente, eliminando o espaço entre nós. O cheiro dele de fumaça e Bvlgari inundou meus sentidos.
Ele não respondeu com palavras. Sua mão grande subiu devagar, tocando a pele do meu ombro e subindo até o meu queixo, forçando-me a olhar diretamente para ele. Seus olhos estavam escuros, cheio de pensamentos impuros.
Ele se inclinou, o rosto a milímetros do meu, e sua voz saiu num sussurro que arrepiou cada centímetro do meu corpo
-Tu quer mermo que eu fale, Alice? Ou quer que eu faça o que tu tá me pedindo com os olhos desde que me conheceu?
Fiquei totalmente desnorteada.
Alemão colou seu corpo ao meu, prensando-me contra o balcão da cozinha com uma força possessiva. Ele me beijou, me colocando em cima do balcão. Não tinha a hesitação ou a fraqueza covarde de Felipe. O toque dele era bruto e gostoso.
Ele me encarou e não sei dizer quantas putarias pensei quando vi aquele olhar marcante pedindo permissão pra tocar em mim. Eu sabia que tava provocando ele, sabia que era perigoso, mas eu gostei de ser desejada.
Ele me pega no colo rapidamente e eu já consigo sentir o volume roçando em mim. Me joga no sofá levantando devagar meu vestido.
A mão dele sobe, acariciando meus seios, dando atenção aos dois antes de descer beijando minha barriga e parando na minha intimidade completamente molhada.
Ele afasta minha calcinha de lado e cai de boca em mim, minha mente fica completamente nublada. Aquela visão dele me chupando enquanto olha pra mim foi a coisa mais sexy que eu já vi na vida, me senti completamente possuída de desejo por ele.
Com certeza ele já fez muito isso, porque fazia muito bem.
Quando eu senti que ia gozar, fechei as pernas e ele parou, subindo para me beijar, tirando a camisinha do bolso.
Levanto puxando ele pela mão até meu quarto, onde ele me joga na ponta da cama e roça o pau massageando o meu clitóris, me fazendo revirar os olhos.
Ele me olha sério, dando beijos pelo meu pescoço com cuidado e mete pra dentro me fazendo gemer baixinho. A sensação dele me preenchendo é a melhor do mundo.
A cada estocada funda que ele dava eu sentia minha barriga contrair mais, eu já estava no limite pelo oral, queria gozar, mas via ele negando com o olhar, me proibindo de gozar.
Ele me levantou sentando comigo na cama, encachei de novo e sentei devagar, sentindo o hálito quente dele no meu ouvido. Encarei seus olhos, enquanto sentava nele do melhor jeito que eu podia, dada as condições do meu pescoço. Ele me encarava sério segurando minha cintura, me fazendo ir mais fundo, vez ou outra acariciando e chupando meus seios.
Eu não tava mais aguentando e agarrei o pescoço dele, aumentando a velocidade, ouvi o gemido rouco dele no meu ouvido enquanto ele acariciava meu cabelo e beijava meu pescoço, senti minhas pernas tremerem e gozei sentindo ele terminar também.
Encarei o rosto dele morrendo de vergonha e dei um selinho rápido, saindo de cima dele.
Ele tira a camisinha e caminha até o meu banheiro. Deito na cama extremamente cansada esperando ele voltar.
Quando voltou, sentou do meu lado mexendo no celular, recusando as ligações que estava recebendo de uma mulher chamada Gabrielli.
Eu achei o clima estranho, mas não falei nada. Estava cansada e acabei dormindo profundamente, um sono pesado e sem sonhos que eu não tinha há meses. Ao meu lado, ele seguiu acordado fazendo sei lá o quê, o relógio biológico de um homem caçado nunca desliga.
Acordei com uma movimentação sutil na escuridão do quarto. Abri os olhos devagar e vi a silhueta dele contra a luz fraca da janela. Alemão estava de pé, vestindo a calça escura em silêncio absoluto.
- Já vai? - perguntei, a voz rouca pelo sono, puxando o lençol contra o peito.
Ele nem se virou. Terminou de abotoar a calça e pegou a camisa no chão.
- Já. Se cuida, paty.- respondeu, a voz gélida de sempre retornando, sem qualquer resquício da intimidade. Pra ele o momento tinha acabado. O chefe do Alemão estava de volta.
Ele vestiu a camiseta e caminhou em direção a sala sem olhar para trás. Levantei rápido, vestindo meu vestido e segui. Queria dizer algo, mas ele já estava perto da porta de entrada, pronto para sumir da minha vida da mesma forma que tinha entrado.
Mas antes que ele abrisse a porta, a tranca girou pelo lado de fora.
A porta foi empurrada com violência, batendo contra a parede. Do corredor do prédio, Felipe invadiu o meu apartamento. Ele estava em surto, os olhos vermelhos de puro ódio. Ele vinha bufando, mas travou o passo no segundo em que deu de cara com Alemão parado no meio da minha sala.
O silêncio que se instalou foi aterrorizante.
- Mas que porra é essa? - Felipe gritou, a voz falhando de raiva, olhando de Alemão para mim, que aparecia no corredor do quarto. - Então você estava aqui? Eu feito um idiota tentando limpar a merda que você fez, achando que você tinha morrido na pista, e você está aqui dando pra um noiado qualquer?
A audácia de Felipe era inacreditável. O homem que quase me matou com um punhal sete dias atrás agora entrava na minha casa exigindo satisfações, o ego dele sangrando por me ver viva e com outro.
- Sai da minha casa, Felipe! - gritei, a voz ecoando pelas paredes altas. - Você quase me matou. Sai daqui agora antes que eu chame a polícia.
- Chamar a polícia? Você não vai chamar ninguém, sua vadia idiota. - ele berrou, avançando na minha direção com o dedo apontado, o rosto vermelho. - Você vai calar a porra da boca, você sumiu por uma semana e agora tá querendo bancar a santinha? Esqueceu que tem namorado, porra?
Eu batia boca com ele, o ódio e o trauma dos últimos anos transbordando em gritos, descarregando tudo o que estava preso na minha garganta. E no canto da sala, o gostoso posturado apenas olhava. A expressão completamente imutável, os olhos fixos em Felipe como um cientista observa um inseto insignificante antes de esmagá-lo. Ele não se moveu, não piscou. Só calculava.
Felipe, cego pela própria fúria e pela falta de reação do homem no meio da sala, virou pra ele.
- E você, seu merda? Tá olhando o quê? - Felipe cuspiu as palavras, avançando um passo na direção dele. - Quem porra é esse pau no cu, Alice? Pega as tuas coisas e rala do apartamento da minha mulher.
O erro de Felipe foi fatal. No mundo do crime, desrespeito se pagava com sangue.
Vi a mandíbula dele travar por um milímetro. Ele não levou o desaforo para casa.
Felipe ignorou o perigo iminente e deu meia-volta, partindo para cima de mim com o braço estendido, pronto para me agredir novamente, tomado pelo mesmo surto do carro.
Ele apertou meu pescoço forte até demais, me fazendo tossir... Me levou até a parede onde me prendeu contra ela e o corpo dele, enquanto olhava dentro dos meus olhos.
Vi de relance Alemão andar sacando a arma.
- Felipe, para. - gritei, esticando as mãos para mantê-lo longe, tentando desesperadamente evitar que os dois se matassem ali dentro. Eu estava em pânico, dividida entre o medo do que Felipe faria comigo e o terror do que o homem silencioso atrás dele era capaz. - Fica longe de mim.
O movimento do cara foi rápido demais para o olho humano acompanhar. A paciência dele, que já era curta, evaporou.
Em um segundo, o brilho do metal preto surgiu na mão dele. Um estampido seco e ensurdecedor ecoou pelo apartamento.
Ele realmente atirou, mas não foi em mim, eu não senti dor nenhuma, em compensação ouvi os gritos de Felipe.
O impacto do tiro o jogou direto no chão. Ele caiu segurando o pé direito, onde o sangue começava a empoçar rapidamente no meu tapete claro. Ele chorava e se contorcia como um verme, toda a pose de playboy imponente sumindo em segundos.
Eu dei três passos para trás, as costas batendo contra a parede da cozinha, as mãos cobrindo a boca em choque. Olhei para a arma na mão do Alemão e depois para Felipe, que gemia alto no chão.
Apesar de tudo o que Felipe tinha feito comigo, ver um homem baleado no meio da minha sala ativou um reflexo automático de pânico e aquela maldita dependência que ainda deixava sequelas na minha mente.
Era o choque de ver a violência crua do morro se materializar diante dos meus olhos.
- Meu Deus. - olhei para ele, os olhos arregalados, a voz trêmula vendo ele abrir a porta pra sair. - Você não vai levar ele no hospital? Foi você quem atirou, porra. Ele vai sangrar até morrer na minha sala.
Alemão abaixou a arma devagar, guardando de volta na cintura por baixo da camiseta. Ele me encarou e o olhar que ele me deu naquele momento foi o mais gélido, ríspido e cortante que já tinha direcionado a mim. Tinha um desprezo profundo ali. Ele viu a minha hesitação, viu o meu instinto de dar um passo na direção do homem que quase tirou a minha vida sete dias atrás.
Para um homem como ele, lealdade e sobrevivência eram regras absolutas, ver uma mulher defender o próprio caçador era o cúmulo da fraqueza.
- Eu quero mais é que ele se foda. Por mim teria metido uma bala na cabeça em vez do pé.- ele respondeu, a voz cortante como uma lâmina, desprovida de qualquer sentimento. - Se tu quer cuidar do verme que tentou rasgar teu pescoço, o problema é teu, otária.
Ele deu meia-volta com passos firmes, sem olhar para trás uma única vez. A porta do apartamento se fechou com um estrondo seco.
Eu já fiz muita burrada na vida, mas dessa vez eu me superei. O cara simplesmente atirou, sem remorso nenhum. Ele saiu do apartamento igual fumaça, sumiu.
- Então você dormiu mesmo com ele né, sua vagabunda? - gritou - Eu preocupado com você, e você transando com a porra do bandidinho. - atuação nota dez.
- Me poupa Felipe, se estivesse preocupado mesmo comigo não teria tentado me matar. Falei sério quando disse que terminamos, e eu não sou vagabunda, estou solteira, transo com quem eu quiser.
- Filha da puta. - sinto a tapa arder no meu rosto. É isso, chega dessa porra.
Choro e grito ao mesmo tempo, empurrando ele pra fora com pé machucado e tudo, fiquei cega de ódio.
Felipe sai, sem dizer nada pra mim, acho que ele percebeu que eu explodi de vez, nunca tinha gritado com ele assim.
Ele que se foda, eu acordei.
Isso é tudo que está disponível no momento.
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