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Capítulo 2 A casa da tia
A casa de Beatriz ficava em um bairro tranquilo, afastada do movimento do centro. Era uma construção ampla, de dois andares, com paredes claras, janelas altas e um jardim que parecia exigir mais cuidados do que recebia. As roseiras junto ao muro precisavam de poda, e algumas folhas secas se acumulavam na entrada. Carolina reconheceu a casa antes mesmo de o carro parar. Na infância, passara ali muitos fins de semana. Lembrava-se de correr pelo corredor, de esconder doces nas gavetas da sala e de ouvir Beatriz reclamar quando ela deixava os livros espalhados sobre a mesa. Naquela época, a casa lhe parecera enorme. Agora, ao descer do carro, teve a impressão de que o lugar guardava uma espécie de silêncio cansado. A porta se abriu antes que ela alcançasse a campainha. - Minha menina! Beatriz apareceu apoiada no batente, usando um vestido azul-claro e um xale sobre os ombros. Estava mais magra do que Carolina recordava, e os cabelos castanhos, agora entremeados de fios brancos, estavam presos em um coque frouxo. Apesar da palidez, seu sorriso conservava a mesma espontaneidade de antes. Carolina largou a bolsa junto à porta e a abraçou com cuidado. - Tia, você não deveria estar de pé. - E você não deveria começar a me dar ordens antes mesmo de entrar. - Estou falando sério. O médico recomendou repouso. - O médico recomenda repouso até para quem espirra duas vezes seguidas. Carolina riu, aliviada ao perceber que a tia ainda conservava o humor. Afastou-se apenas o suficiente para examiná-la melhor. - Você está muito pálida. - E você continua reparando em tudo. - Alguém precisa fazer isso. - Ótimo. Então já posso voltar para a cama e deixar você cuidar do resto. Beatriz segurou a mão da sobrinha e a conduziu para dentro. O cheiro familiar de madeira encerada, café e flores recém-cortadas despertou lembranças que Carolina julgava esquecidas. A sala permanecia quase igual: o sofá de tecido bege, as cortinas claras, a estante repleta de livros e a fotografia do casamento de Beatriz e Henrique sobre o aparador. A diferença estava nos pequenos sinais de desordem. Havia uma manta dobrada sobre uma poltrona, um copo de água sobre a mesa lateral e uma caixa de medicamentos perto do telefone. - Henrique está no escritório - explicou Beatriz. - Disse que precisava terminar uma reunião antes do almoço. Mas sabe que você chegaria hoje. - Não precisava interromper o trabalho por minha causa. - Ele não interromperia mesmo que eu estivesse morrendo. A frase foi pronunciada em tom de brincadeira, mas Carolina percebeu uma sombra no rosto da tia. - Não diga isso. - Está bem, está bem. Não quero assustar você no primeiro minuto. Beatriz se sentou no sofá e indicou a poltrona à sua frente. Por alguns instantes, perguntou sobre o convento, as irmãs, os trabalhos da comunidade e a saúde de pessoas que ambas conheciam. Carolina respondeu com naturalidade, embora percebesse que a tia parecia mais interessada em observá-la do que em ouvir os detalhes. - Você está diferente - disse Beatriz. Carolina baixou os olhos para as próprias mãos. - Diferente como? - Mais séria. Antes, você entrava em uma sala e parecia querer saber tudo o que havia acontecido ali. Agora, é como se estivesse sempre pensando em outra coisa. - Talvez eu tenha ficado mais velha. - Isso acontece com todo mundo. Não significa que precisamos ficar mais tristes. Carolina sorriu, mas não encontrou uma resposta. Passos soaram no corredor. Henrique apareceu à porta da sala com o celular na mão, usando uma camisa branca de mangas dobradas e calças escuras. Tinha os cabelos castanhos cortados curtos, alguns fios grisalhos nas têmporas e uma expressão concentrada que se suavizou quando viu a sobrinha da esposa. - Carolina. Finalmente. Ele guardou o telefone no bolso e aproximou-se para cumprimentá-la. - Como foi a viagem? - Tranquila. Obrigada por mandar o carro. - Não precisava agradecer. Beatriz estava contando os dias para sua chegada. - E você estava contando as horas para que eu viesse organizar esta casa - acrescentou Beatriz. Henrique olhou para a esposa com um sorriso discreto. - Eu estava pensando em contratar uma governanta. - Não se atreva. Já basta ter contratado alguém para me dizer quando posso levantar da cama. - Se dependesse de mim, você não levantaria até o mês que vem. - Está vendo? - Beatriz voltou-se para Carolina. - É assim que ele me trata desde que o médico resolveu me transformar em uma inválida. - Eu apenas tento garantir que você se recupere - respondeu Henrique. Havia carinho na voz dele, mas também um cansaço que Carolina não soube interpretar. A maneira como Henrique observava a esposa parecia revelar uma preocupação antiga, acumulada ao longo de noites mal dormidas e conversas que talvez já não encontrassem palavras novas. - Vou ficar de olho nela - disse Carolina. Henrique voltou-se para a jovem. - É justamente por isso que estamos tão aliviados por você estar aqui. Beatriz não costuma aceitar ajuda, principalmente quando acredita que pode fazer tudo sozinha. - Não gosto de dar trabalho. - Você não dá trabalho - respondeu ele, sem hesitar. - Nunca deu. Carolina sentiu-se estranhamente tocada pela simplicidade da frase. Henrique não falara como quem desejava agradá-la, mas como se estivesse corrigindo uma injustiça que ela cometera contra si mesma. Antes que pudesse responder, Beatriz se levantou. - Agora que minha sobrinha chegou, quero mostrar a ela as novidades da casa. - Você vai descansar - disse Henrique. - Vou mostrar as novidades sentada. - Beatriz... - Henrique, por favor. Passei a semana inteira olhando para o teto do quarto. Não me tire a alegria de conversar com Carolina. Ele sustentou o olhar da esposa por alguns segundos. Depois cedeu, embora não parecesse inteiramente convencido. - Uma hora. Depois você vai descansar. - Duas horas. - Uma. - Você sempre foi péssimo em negociar. Beatriz voltou a sentar-se, satisfeita com a pequena vitória. Carolina observou a troca entre os dois com uma ternura que logo se misturou a uma sensação difícil de definir. Havia intimidade naquele modo de discutir, uma linguagem construída ao longo dos anos, feita de provocações, hábitos e concessões. Era uma intimidade da qual ela não fazia parte. E não havia motivo para que fizesse. Mais tarde, quando Henrique voltou ao escritório e Beatriz finalmente aceitou descansar, Carolina subiu para o quarto de hóspedes. Deixou a mala sobre a cama e abriu a janela. O jardim se estendia até o muro dos fundos, onde uma mangueira antiga projetava sombra sobre o gramado. Do andar de baixo veio o som abafado da voz de Henrique ao telefone. Ele falava com firmeza, interrompendo a conversa de vez em quando para fazer alguma anotação. Pouco depois, o ruído cessou. Carolina começou a desfazer a mala. Tinha vindo para cuidar da tia, e era nisso que pretendia concentrar suas energias. Organizaria os medicamentos, acompanharia as consultas, prepararia as refeições e ajudaria Beatriz a recuperar as forças. Quando a situação estivesse resolvida, voltaria ao convento e retomaria a vida que escolhera. O plano era simples. Ainda assim, enquanto pendurava o último vestido no armário, Carolina se deu conta de que não sabia exatamente quanto tempo levaria para que a casa voltasse a parecer apenas uma casa de família. Nem por que, ao pensar nisso, sentira uma inquietação que não estava ali quando partira.
Lista de capítulos
25 capítulos no total
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