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Capítulo 3 O quarto de hóspedes

O quarto de hóspedes ficava no fim do corredor do segundo andar, ao lado de uma pequena varanda que dava para o jardim. Beatriz o mantinha arrumado mesmo quando não havia ninguém de visita. As cortinas eram brancas, a colcha tinha pequenos bordados azuis e, sobre a escrivaninha, havia um vaso de porcelana com flores artificiais que Carolina se lembrava de ter considerado horríveis quando era adolescente. Naquela época, costumava dizer à tia que flores de mentira eram uma ofensa à natureza. Beatriz respondia que, pelo menos, aquelas não morriam quando ela se esquecia de trocar a água. Carolina sorriu ao recordar a discussão. Sentou-se na beira da cama e passou a mão pela colcha, sentindo a textura do tecido sob os dedos. Era estranho estar de volta àquele quarto. Não porque houvesse algo de ameaçador na casa, mas porque tudo ali lhe recordava uma versão de si mesma que parecia ter ficado muito distante. Abriu a mala e retirou o livro de orações, colocando-o sobre a escrivaninha. Depois pendurou as roupas no armário, guardou os objetos de uso pessoal na primeira gaveta e alinhou os sapatos junto à parede. A organização dos pertences lhe trouxe algum alívio. No convento, cada coisa tinha um lugar definido, e manter o ambiente em ordem era uma maneira de preservar a tranquilidade interior. Na casa de Beatriz, porém, a organização parecia ter outro propósito. Os objetos não estavam ali para facilitar uma rotina coletiva, mas para guardar lembranças, revelar preferências e tornar o espaço familiar para quem vivia nele. Carolina abriu a segunda gaveta da escrivaninha à procura de uma caneta e encontrou um pequeno bloco de papel amarelado. Na primeira página, reconheceu sua própria letra, mais arredondada e irregular do que agora. Um dia quero morar em uma casa com janelas grandes, livros por toda parte e um jardim onde eu possa ler quando chover. A frase estava acompanhada de um desenho infantil de uma casa com telhado vermelho e uma árvore exageradamente grande. Carolina se lembrava de ter escrito aquilo durante uma tarde de férias. Na época, tinha quinze anos e passava horas inventando histórias sobre a mulher que seria quando crescesse. Às vezes se imaginava professora, outras vezes escritora. Em algumas versões, viajava sozinha para cidades distantes; em outras, vivia em uma casa cercada de animais. Não havia qualquer menção à vida religiosa. Ela releu a frase, sentindo uma mistura de ternura e desconforto. Não podia afirmar que a menina que fizera aquele desenho desejava uma vida completamente diferente daquela que escolheria anos depois. A juventude era feita de possibilidades, e muitas delas desapareciam sem que isso significasse uma perda. Mesmo assim, Carolina guardou o papel dentro do livro de orações, como se não quisesse deixá-lo exposto. Uma batida discreta soou à porta. - Posso entrar? - perguntou Beatriz. - Claro, tia. Beatriz apareceu usando o mesmo xale azul-claro, apoiando uma das mãos no batente. Carolina levantou-se imediatamente. - Você deveria estar descansando. - Eu estava. Durante quase vinte minutos. - Isso não é descansar. - Para uma mulher que passou a vida inteira fazendo as coisas por conta própria, é uma conquista considerável. Carolina se aproximou para ajudá-la a chegar à poltrona perto da janela. Beatriz sentou-se com cuidado, disfarçando uma pequena expressão de dor. - Está sentindo alguma coisa? - Só um pouco de desconforto. - Quer que eu chame Henrique? - Não. Ele já está preocupado demais. Carolina puxou um banco para se sentar diante dela. - Você não precisa esconder quando está sentindo dor. - E você não precisa transformar cada suspiro meu em uma emergência médica. As duas riram. Beatriz olhou ao redor, observando a mala aberta e as roupas cuidadosamente organizadas. - Você pretende ficar muito tempo? - Até que você esteja melhor. Depois veremos. - Espero que não se sinta obrigada a permanecer aqui por minha causa. Sei que sua vida no convento é importante. Carolina demorou a responder. - Eu quero estar aqui. - Eu sei. Mas querer ajudar alguém não significa que precisamos esquecer a nossa própria vida. A frase foi pronunciada sem solenidade. Beatriz parecia apenas comentar algo evidente, enquanto ajeitava o xale sobre os joelhos. Ainda assim, Carolina sentiu que a tia havia tocado em uma questão que ela própria evitava examinar. - Não estou esquecendo minha vida - respondeu. - Ótimo. Porque pretendo melhorar logo e voltar a cuidar de tudo. Não quero você passando os próximos meses presa a esta casa. Carolina sorriu. - Você fala como se eu estivesse sendo mantida aqui contra a minha vontade. - Não é isso. Só quero ter certeza de que você está aqui porque deseja estar, e não porque acredita que precisa compensar alguma coisa. A jovem desviou os olhos para o jardim. Havia uma delicadeza nas palavras de Beatriz que tornava difícil descartá-las. Talvez a tia percebesse mais do que demonstrava. Talvez apenas conhecesse Carolina o suficiente para reconhecer sua tendência a transformar responsabilidades em obrigações absolutas. - Eu estou bem, tia. Beatriz não insistiu. Ficou mais alguns minutos conversando sobre a viagem, sobre as mudanças no convento e sobre uma prima distante que acabara de se casar. Quando se levantou para voltar ao quarto, Carolina a acompanhou até a porta. - Ah, quase me esqueci - disse Beatriz. - Henrique perguntou se você gosta de café. Ele mandou comprar um especial, daqueles que você costumava tomar quando vinha para cá. Carolina franziu a testa, surpresa. - Ele se lembrou disso? - Henrique tem uma memória irritante para certas coisas. Beatriz sorriu antes de seguir pelo corredor. Carolina permaneceu junto à porta, olhando a tia se afastar. Depois voltou à escrivaninha e abriu o livro de orações na página em que escondera o desenho. Leu mais uma vez a frase da menina que fora. Então fechou o livro. Naquela noite, antes de dormir, tentou rezar como fazia todos os dias. Agradeceu pela saúde da tia, pediu serenidade para cumprir suas responsabilidades e procurou entregar a Deus as inquietações que a acompanhavam desde a partida. Não encontrou dificuldade para formular as palavras. O que a incomodou foi a sensação de que estava falando sobre tudo, menos sobre aquilo que realmente a preocupava. Apagou o abajur e se deitou. Do lado de fora, o vento movimentava as folhas da mangueira. A casa estalava discretamente, como se estivesse se acomodando ao silêncio noturno. Carolina fechou os olhos, esperando que o sono trouxesse a tranquilidade habitual. Mas, pela primeira vez em muito tempo, não sentiu vontade de voltar imediatamente ao único lugar onde sempre soubera encontrar respostas.

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Lista de capítulos

25 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 A partida
  2. Capítulo 2Capítulo 2 A casa da tia
  3. Capítulo 3Capítulo 3 O quarto de hóspedes

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