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Capítulo 2 As raízes do ódio

As memórias da infância costumam ser retratadas nos livros e nos filmes como um mar de tardes ensolaradas, sorvetes derretidos e brincadeiras inocentes nos gramados verdejantes de subúrbios ricos. Mas, se alguém decidisse escrever a história dos meus primeiros anos de vida sob essa ótica romântica, estaria cometendo o maior erro da literatura universal. A minha infância não teve nada de doce. Ela teve o gosto amargo de bile, o som estridente de louça quebrada e o rosto perfeitamente simétrico, porém detestável, de Noah Smith cravado em cada segundo da minha rotina.

Para entender o porquê de eu quase ter desmaiado ao ouvir o nome dele no jantar de ontem, é preciso voltar no tempo. Voltar para os dias em que éramos obrigados a conviver porque nossos pais achavam que a amizade corporativa de berço se traduziria magicamente em harmonia familiar. Uma ilusão patética. Desde os nossos primeiros passos, Adam Carter e Arthur Smith pareciam determinados a nos transformar em sócios de alma, ignorando completamente o fato de que eu e Noah éramos duas bombas-relógio colocadas propositalmente na mesma sala de estar.

Nós brigávamos por absolutamente tudo. Não havia trégua. Se houvesse um único prato de biscoitos recém-saídos do forno na mansão dos Smith - porque, por algum motivo inexplicável, minhas visitas à casa deles eram frequentes -, a guerra fria começava antes mesmo de cruzarmos a porta da cozinha. Não importava que a travessa estivesse cheia; a nossa disputa infantil e mesquinha girava em torno de quem pegaria o maior biscoito, quem ficaria com a melhor porção de cobertura de chocolate, quem sentaria na ponta da mesa ou quem dominaria a televisão da sala de jogos. Eram brigas viscerais, daquelas em que puxávamos os cabelos uns dos outros, gritávamos até perder a voz e sempre acabamos terminando de castigo, sentados em cantos opostos da sala, fuzilando com olhares que, se tivessem poder térmico, teriam incendiado a mansão inteira.

Naquela época, meus pais viam tudo isso como uma "rivalidade saudável". Diziam aos quatro ventos, rindo com taças de vinho nas mãos durante as festas de final de ano, que éramos como cão e gato, e que "quem desdenha quer comprar". Só de lembrar dessa frase me dá calafrios. Comprar? Comprar o quê? O meu tormento?

Mas, por piores que fossem as brigas por biscoitos, disputas de brinquedos ou discussões sobre quem tirara a nota mais alta na prova de matemática da oitava série, o verdadeiro epicentro do meu ódio por Noah Smith - a cicatriz profunda que nunca fechou de verdade e que definiu quem eu me tornaria dali em diante - aconteceu em uma terça-feira cinzenta de outono, quando eu tinha apenas quatorze anos.

Aquela idade já é, por si só, uma bomba atômica para qualquer adolescente. Eu estava na fase mais vulnerável da minha vida: cheia de inseguranças, tentando entender o meu lugar no mundo, lutando contra espinhas rebeldes, usando um aparelho ortodôntico que parecia uma cerca metálica na minha boca e me sentindo completamente invisível ou inadequada, exceto pelo peso esmagador do sobrenome Carter que eu carregava nas costas. Eu queria apenas me encaixar. Queria pertencer ao grupo dos garotos e garotas populares da nossa escola exclusiva em Manhattan, não porque eu me importasse com a futilidade deles, mas porque eu estava cansada de ser a herdeira esquisita e isolada que todos olham com temor reverente por causa dos negócios do pai.

Naquele dia, eu havia caprichado no visual. Tinha passado horas em frente ao espelho tentando ajeitar o cabelo, escolhendo uma blusa que achava bonitinha e ensaiando um sorriso natural. Eu tinha uma quedinha secreta - uma dessas paixões platônicas dolorosas e humilhantes da adolescência - por um garoto do penúltimo ano chamado Lucas, o capitão do time de basquete. Durante semanas, achei que ele andava me olhando de um jeito diferente, com um brilho de interesse que fazia o meu estômago dar cambalhotas gostosas.

No horário do intervalo, enquanto os corredores da academia fervilhavam de armários batendo, risadas abafadas e boatos de corredor, eu caminhava apressada em direção ao pátio interno, segurando meus livros de literatura contra o peito como se fossem um escudo protetor. Foi quando passei perto das escadas de incêndio nos fundos do auditório, uma área onde os garotos costumavam se reunir para matar aula e falar sobre esportes.

A voz de Noah ecoou alta e clara pela escadaria de metal, cortando o barulho do corredor como o som de uma lâmina.

- Francamente, vocês têm sérios problemas de vista se acham que eu pegaria a Charlotte Carter - dizia ele, com aquele tom de zombaria desdenhosa, arrastado e cínico que sempre me dava vontade de socar os dentes dele um por um.

Parei imediatamente no lugar. O sangue sumiu do meu rosto num piscar de olhos, e o ar pareceu evaporar dos meus pulmões. Meus pés ficaram colados no chão de linóleo.

- Ah, vai dizer que ela não é gatinha, Noah? O velho dela é dono de metade de Manhattan, fora a grana preta que a garota tem - respondeu a voz de um dos amigos dele, rindo de forma debochada. - Se fosse por interesse, qualquer um aqui aguentaria o gênio insuportável dela.

Um coro de risadas masculinas ecoou pela escadaria, fazendo o meu estômago despencar direto para os calcanhares. A humilhação começou a queimar na minha pele como ácido sulfúrico.

- Dinheiro nenhum no mundo compensa aquilo, cara - continuou Noah, com uma crueldade tão casual que doeu dez vezes mais do que se ele tivesse me batido fisicamente. - A Charlotte é completamente chata. A achadinha se acha a dona da razão o tempo todo, vive com a cara fechada, parecendo uma megera azeda, e para piorar? É feia de doer. Aqueles óculos fundos de garrafa que ela usava no ano passado e aquele cabelo desgrenhado parecem espantar qualquer resquício de beleza feminina. Ninguém com um pingo de sanidade mental na cabeça ia querer se aproximar daquela garota, muito menos tentar ser namorado dela. É um caso perdido.

As palavras dele caíram sobre mim como uma avalanche de gelo e fogo. Cada sílaba era um prego enfiado diretamente no centro do meu peito.

Eu me escondi atrás da coluna de concreto do corredor, sentindo as lágrimas quentes e grossas despencar pelos meus olhos antes mesmo que eu pudesse contê-las. Minhas mãos tremiam tanto que os livros escorregaram dos meus dedos, caindo pesado no chão com um estrondo oco que felizmente foi abafado pelas risadas deles lá em cima.

Eu era chata. Eu era feia. Eu era um caso perdido.

As palavras do garoto por quem eu nutria uma paixão secreta, Lucas, que estava ali no meio ouvindo tudo e concordando com um assobio irônico, deixaram de importar. O que importava era que Noah Smith, o garoto com quem eu era obrigada a conviver em jantares de negócios, o ser humano que conhecia cada detalhe da minha infância, havia me ridicularizado publicamente para os seus amigos, reduzindo a minha autoestima a zero e expondo as minhas maiores inseguranças para quem quisesse ouvir.

Naquele instante exato, escondida atrás daquela pilastra fria, com o coração partido em mil pedaços minúsculos e a alma encharcada de vergonha, algo dentro de mim se quebrou para nunca mais voltar ao lugar. A menininha irritada que brigava por biscoitos morreu ali. Em seu lugar, nasceu uma mulher de gelo, revestida de uma couraça indestrutível de revolta.

Eu não saí correndo chorando como uma coitada. Bem, eu chorei, mas esperei até chegar ao banheiro trancada em uma das cabines, abafando os soluços com a manga do casaco para que ninguém me ouvisse. Mas, quando saí de lá de dentro, retocando o rosto borrado de rímel e empinando o queixo com toda a soberba que consegui reunir, eu fiz um juramento silencioso para o teto daquele banheiro escolar.

Eu jurei por tudo o que era mais sagrado que nunca mais deixaria ninguém me fazer sentir pequena. Nunca mais derramaria uma única lágrima por causa da opinião de um homem idiota. E, acima de tudo, eu declarei em alto e bom som, dentro do meu próprio silêncio furioso: Eu odeio Noah Smith. Odeio com cada célula do meu corpo, com cada respiração, com cada gota de sangue que corre nas minhas veias. Se depender de mim, ele vai pagar por cada palavra, por cada risada e por cada migalha de humilhação que me fez engolir hoje.

Nos dias seguintes, a minha postura mudou radicalmente. Quando nos encontramos no jantar de negócios que nossos pais marcaram no fim de semana seguinte, Noah tentou agir como se nada tivesse acontecido. Ele chegou com aquele sorriso arrogante de canto de boca, vestindo um blazer impecável, pronto para me alfinetar com alguma gracinha sobre a escola.

Mas ele não esperava a minha resposta.

Assim que ele abriu a boca para dizer um "E aí, gatinha dos óculos fundos?", eu virei o meu copo inteiro de suco de uva concentrado bem no meio do peito daquela camisa social branquinha que ele tanto amava.

O escândalo foi monumental. Minha mãe quase desmaiou de pavor na mesa do restaurante sofisticado. Meu pai rugiu meu nome com uma fúria cega, exigindo desculpas imediatas. Arthur Smith arregalou os olhos, chocado com a audácia da "sua futura nora" - embora, olhando para trás, acho que os dois velhos sádicos acharam aquilo o ápice da diversão corporativa disfarçada de conflito juvenil.

Noah ficou estático, com o suco roxo escorrendo pelo tecido nobre, colado à pele, enquanto os olhos dele encontravam os meus. Naquele olhar, não havia mais o deboche de antes. Havia surpresa, confusão e, pela primeira vez, um vislumbre de respeito forçado pela minha fúria.

Eu não pedi desculpas. Olhei bem nos olhos dele, limpei os cantos da boca com o guardanapo com toda a elegância do mundo e disse com a voz mais gélida e venenosa que consegui formular:

- Foi um acidente, Noah. Assim como a sua existência na minha vida. Se voltar a falar o meu nome para os seus amiguinhos de galinhagem, da próxima vez o líquido vai ser ácido sulfúrico. Não teste os meus limites.

A partir daquele dia, a nossa relação civilizada - que nunca existiu de fato - transformou em uma zona de guerra declarada. Nós nos ignoramos nos corredores, trocamos farpas venenosas nas raras reuniões em que nossos pais nos arrastavam para posar para fotos institucionais, e fazíamos questão de nos sabotar mutuamente em todas as oportunidades possíveis. Quando fomos um pouco mais velhos, na época dos bailes de formatura do colégio pré-universitário, ele tentou me sabotar espalhando boatos de que eu não iria à festa, e eu fiz questão de aparecer no braço do maior rival dele nos esportes só para ver a mandíbula dele trancar de puro ódio contido.

E agora, anos depois daquela tarde traumática na escadaria da escola, depois de eu ter fugido para a Europa para tentar respirar longe daquele ambiente sufocante, depois de ter construído uma nova identidade artística onde o nome Carter e Smith não significavam absolutamente nada... o meu pai me joga de volta na cova dos leões.

Ele quer que eu me case com o monstro da minha infância. Quer que eu divida o mesmo teto com o garoto que me chamou de feia e chata para os amigos, destruindo o pouco de autoestima que eu tentava cultivar na adolescência.

Enquanto eu caminhava pelas ruas gélidas de Manhattan ontem à noite, com o vento cortante batendo no meu rosto molhado de lágrimas de raiva, percebi o tamanho da ironia macabra que o destino havia preparado para mim. O ódio que nasceu daquela humilhação aos quatorze anos não era apenas um resquício da adolescência. Era a fundação sólida de uma guerra que nunca terminou.

Noah Smith achava que podia me controlar, que podia me tratar como uma mercadoria em um contrato de fusão bilionária e me transformar na prisioneira perfeita de sua torre de vidro corporativa. Ele pensava que eu ainda era aquela garota assustada atrás da coluna de concreto, chorando por causa de palavras cruéis.

Ele não fazia ideia do monstro que ele mesmo havia ajudado a criar. Se eles quisessem um casamento forçado, eles teriam. Mas eu faria da vida de Noah Smith o mais absoluto e impiedoso inferno na terra. Ninguém pisoteia a dignidade de Charlotte Carter duas vezes sem pagar o preço.

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Lista de capítulos

39 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 Começo da minha ruína
  2. Capítulo 2Capítulo 2 As raízes do ódio
  3. Capítulo 3Capítulo 3 O circo armado e a fuga

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