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Capítulo 3 O circo armado e a fuga

Abri a porta do apartamento da minha melhor amiga, Lívia, sentindo como se estivesse carregando uma tonelada de chumbo em cada ombro. Meus pés arrastavam pelo piso de madeira escura com uma lentidão dolorosa, reflexo direto do esgotamento mental e físico que vinha me consumindo desde aquela noite fatídica no restaurante. Eu não apenas estava exausta; eu estava em estado de choque permanente, uma mistura explosiva de revolta incontrolável e um pânico surdo que ameaçava me paralisar a qualquer segundo. Assim que a porta se fechou atrás de mim, trancando a fechadura com duas voltas audíveis, desabei. Minha bolsa caiu de ombro, despencando no chão com um baque abafado pelo tapete da sala, e eu encostei as costas na porta fria, escorregando devagar até sentar no chão. Minhas pernas simplesmente haviam decidido parar de funcionar. - Ei, calma, respira - a voz doce e urgente de Lívia cortou o silêncio do apartamento. Em segundos, ela estava agachada na minha frente, com os olhos arregalados de pura preocupação, segurando o meu rosto entre as mãos trêmulas. - Meu Deus, Charlotte... você está pálida como um cadáver. O que aconteceu? Sua mãe me mandou uma mensagem dizendo que a data do noivado foi fixada, mas que você estava... bem, que você tinha surtido. Dei uma risada fraca, sem o menor humor, enquanto sentia as lágrimas quentes começarem a queimar o meu rosto novamente. Eu já estava farta de chorar, mas o meu corpo parecia não ter mais nenhum outro mecanismo de defesa contra aquela avalanche de humilhação. - Dois dias, Lívia - sussurrei, a voz saindo engasgada, rasgando a minha garganta. - O meu pai marcou o meu noivado para daqui a exatos dois dias. Em quarenta e oito horas, eu vou ter que colocar um vestido ridículo, dar um sorriso falso para a alta sociedade de Manhattan e encarar o meu pior pesadelo na mesma sala. Eu vou ter que olhar nos olhos de Noah Smith e aceitar que a minha vida foi roubada de mim por causa de um pedaço de papel assinado há vinte e dois anos. Lívia recuou um pouco, sentando no chão ao meu lado, chocada demais para conseguir formular uma frase de imediato. Ela conhecia a minha história com Noah. Ela sabia de cada cicatriz deixada por aquela infância sufocante e pela humilhação na adolescência. - Isso é loucura - disse ela finalmente, balançando a cabeça em um gesto de negação absoluta, como se quisesse expulsar a realidade através da força do pensamento. - Estamos no século XXI, Charlotte! Eles não podem simplesmente te obrigar a casar como se você fosse uma princesa feudal sendo entregue em um acordo de paz entre reinos vizinhos! Onde já se viu uma barbaridade dessas? Você ameaçou chamar a polícia? Um advogado? - De que adianta um advogado se o meu próprio pai vendeu a minha liberdade antes mesmo de eu aprender a escovar os dentes sozinha? - retruquei amargamente, enxugando as lágrimas com as costas das mãos com força suficiente para deixar a pele vermelha. - Eles fecharam o cerco, Lívia. A minha galeria de arte? Foi comprada por uma subsidiária dos Smith nesta tarde. Se eu tentar fugir ou recusar de vez, eles me deixam na rua da amargura, sem um centavo, sem os fundos para os meus projetos, completamente isolada. Meu pai fez questão de cortar todas as minhas rotas de fuga. O horror na expressão de Lívia era palpável. Ela estendeu o braço e me puxou para um abraço apertado, onde eu permiti, por alguns minutos, desabar completamente, afundando o rosto no ombro dela e apertando o tecido da sua blusa até meus dedos doerem. Mas o alívio provisório durou pouco. Logo a raiva voltou a ferver nas minhas veias, espalhando uma onda de adrenalina pura que me fez levantar de um salto do chão. Tudo havia começado logo no momento em que eu pus os pés de volta em casa, após o tal jantar desastroso. Minha mãe havia me esperado no hall de entrada da mansão dos Carter, com aquela postura impecável de quem parecia viver em função de agradar às convenções sociais da elite financeira. Ela tentou vir em minha direção com uma expressão fingida de comiseração, segurando uma prancheta prateada onde constava o cronograma oficial do evento. "Charlotte, querida, precisamos acertar os detalhes do buffet e a lista de convidados com urgência," dissera ela com aquela voz mansa e calculista, como se estivéssemos discutindo a decoração de uma festa de aniversário qualquer e não a minha execução em praça pública. "Seu pai conversou com os assessores dos Smith. Ficou decidido que o noivado será íntimo, mas com ampla cobertura da imprensa econômica. É fundamental que vocês pareçam unidos desde o primeiro segundo para afastar qualquer boato de instabilidade nas empresas." Eu olhei para ela como se ela tivesse perdido a sanidade mental por completo. A minha mente gritava de revolta. "Vocês perderam a noção da realidade?" eu havia gritado, perdendo o resquício de paciência que ainda me restava. "Vocês estão marcando o meu casamento com o meu pior inimigo e ainda têm a audácia de me pedir para escolher o buffet? Saiam daqui! Saiem do meu quarto agora!" Quando minha mãe tentou insistir, argumentando sobre a honra da família e o peso do sobrenome, eu simplesmente peguei um abajur de cristal da mesinha de cabeceira e o lancei contra a parede, estilhaçando em mil pedaços no chão. O estrondo foi suficiente para fazê-la recuar horrorizada, balançando a cabeça e dizendo que eu havia emlouquecido antes de bater a porta do meu quarto com força. Nos dois dias seguintes, a mansão se transformou em um quartel-general de guerra e em um verdadeiro circo corporativo. Funcionários de cerimonial, estilistas, floristas e assessores de imprensa entravam e saíam da nossa casa como se estivessem preparando um casamento real. Era uma movimentação frenética, barulhenta e completamente asquerosa. Sempre que tentavam me incluir em alguma decisão - como provar vestidos de alta-costura que pareciam trajes de gala fúnebre ou discutir a paleta de cores da decoração -, eu simplesmente recusava de forma categórica. Me tranquei no quarto, coloquei fones de ouvido com o volume no máximo e ignorei cada batida na porta. E, quando a pressão se tornou insuportável, quando o som dos saltos da minha mãe no corredor parecia o tiquetaque de uma bomba relógio prestes a explodir, eu tomei a única decisão sensata que me restava: fiz as malas às pressas, joguei algumas roupas dentro de uma mochila, pulei a janela do escritório dos fundos para evitar cruzar com os seguranças na entrada principal e vim direto para o apartamento de Lívia. Eu não iria participar daquele circo. Se eles quisessem um show de marionetes, teriam que me buscar a força, porque eu não daria o meu consentimento sorrindo para câmeras enquanto enterravam o meu futuro. - E agora, amiga? O que você planeja fazer? - perguntou Lívia, olhando para mim com uma expressão de profunda apreensão enquanto me servia uma xícara de chá quente que ela acabara de preparar. Aceitei a xícara com as mãos trêmulas, sentindo o calor do recipiente contrastar com o gelo que parecia habitar o meu peito. Dei um gole pequeno, ponderando sobre as únicas opções miseráveis que me restavam naquele tabuleiro de xadrez armado pelo meu pai. - Eu não sei, Lívia - confessei, a voz saindo num murmúrio quase inaudível, carregado de um cansaço infinito. - Por um lado, eu tenho vontade de sumir deste país de novo. Pegar o primeiro avião para qualquer canto do planeta onde o nome Carter ou Smith jamais tenha sido ouvido. Viver de pintar quadros em uma calçada qualquer em Paris ou Londres, sem um tostão furado, mas com a minha liberdade intacta. Lívia suspirou pesadamente, sabendo tão bem quanto eu que aquela fuga romântica era quase impossível na prática. - Mas você sabe que seu pai congelaria suas contas em segundos, mandaria investigadores particulares atrás de você e transformaria a sua vida em uma caçada implacável, não sabe? - ponderou ela com a lucidez dolorosa que os melhores amigos sempre têm a coragem de nos lembrar. - Adam Carter não aceita ser desmoralizado publicamente. Se você fugir agora, ele vai atrás de você até no inferno. - Eu sei... é exatamente isso que me aterroriza - fechei os olhos com força, encostando a cabeça no sofá da sala e respirando fundo para conter o tremor nas pálpebras. - Se eu fugir, eu mostro fraqueza. Eu fujo como uma garotinha acuada, exatamente do jeito que Noah Smith sempre achou que eu era. Ele vai rir da minha cara. Vai pensar que eu fui derrotada antes mesmo de a batalha começar. - Então você não vai fugir? - os olhos de Lívia brilharam com uma centelha de surpresa e curiosidade intensa. Ela me conhecia o suficiente para saber que, quando eu chegava a esse ponto de exaustão silenciosa, algo perigoso e imprevisível costumava nascer na minha mente. Abri os olhos lentamente, encarando a parede em frente com um olhar vazio que, gradualmente, foi se transformando em algo muito mais sombrio, determinado e cortante. A dor da humilhação, o desespero de ver meus sonhos pisoteados e a revolta contra o destino imposto começaram a se reorganizar dentro de mim, fundindo-se em uma armadura de pura resiliência fria. Se eu não podia fugir sem perder tudo o que lutei para conquistar, e se eu seria obrigada a subir naquele altar para me unir ao meu maior carrasco... então eu jogaria as regras no lixo e mudaria o jogo por conta própria. - Não, Lívia. Eu não vou fugir - respondi, e a minha voz saiu firme, revestida de uma calmaria gélida que assustou até a minha própria alma. Um sorriso irônico, cortante e perigoso desenhou lentamente nos cantos dos meus lábios. - Se eles querem me dar de presente para os Smith, se eles acham que vão me controlar como a uma boneca de porcelana na mansão deles... eles estão cometendo o maior erro da história dos negócios da família. Lívia engoliu em seco, recuando levemente no sofá ao perceber a mudança drástica na minha postura. Ela conhecia aquele olhar. Era o olhar de quem estava prestes a declarar guerra total. - O que você vai fazer, Charlotte? - perguntou ela num sussurro cauteloso, quase com medo da resposta. - Eu vou aceitar o noivado - falei pausadamente, saboreando cada palavra como se fossem os preparativos para a vingança perfeita. - Vou comparecer àquela festa ridícula em dois dias. Vou colocar o maldito anel de diamantes no dedo, vou sorrir para os jornalistas, vou fingir ser a noiva dócil e perfeita que o meu pai tanto deseja ver nos jornais de economia. Fiz uma pausa dramática, inclinando para a frente, fixando meus olhos nos dela com uma intensidade que fazia a temperatura da sala parecer cair dez graus. - Mas, no segundo em que aquele contrato for assinado e eu estiver sob o mesmo teto daquele arrogante insuportável... eu vou transformar a vida de Noah Smith em um verdadeiro inferno na terra. Se ele acha que vai me dominar, ele vai aprender da maneira mais dolorosa possível o que acontece quando se mexe com uma mulher que já não tem mais nada a perder. O silêncio reinou na sala por longos segundos, denso e carregado de eletricidade estática. Lívia me olhou boquiaberta, dividida entre o choque pela ousadia do meu plano suicida e a admiração pela força avassaladora que irradiava de cada poro do meu corpo. O circo estava armado. Os ingressos já haviam sido vendidos para a alta sociedade de Nova York, e o espetáculo da minha ruína estava preste a começar em quarenta e oito horas. Mas o que o meu pai, os Smith e o próprio Noah ignoravam completamente era que eu não estava subindo ao palco para interpretar o papel de vítima indefesa. Eu estava entrando na arena para arrancar a cabeça do leão por dentro. E que venha o noivado.

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Lista de capítulos

39 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 Começo da minha ruína
  2. Capítulo 2Capítulo 2 As raízes do ódio
  3. Capítulo 3Capítulo 3 O circo armado e a fuga

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