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Capítulo 2 1

GABRIELLE

Eu pensei que, na minha noite de folga, teria algo próximo da paz. Um jantar discreto com uma mulher linda, vinho suficiente para relaxar os ombros tensos e, se o humor ajudasse, terminar a noite com um bom sexo, sem promessas, sem perguntas. Tenho uma queda assumida por loiras, meu ponto fraco, um detalhe inconveniente que costumo ignorar com disciplina quase militar. O casaco longo de lã xadrez pesa sobre meus ombros, sinto o tecido roçar minhas pernas a cada passo, discreto, controlado... mas nunca inocente, com a autoridade de quem sabe exatamente onde está pisando. É o tipo de peça que esconde tanto quanto revela e eu gosto disso. Por baixo, a blusa de seda azul-marinho desliza sobre minha pele como um toque demorado. O tecido frio me arrepia quando visto, depois se aquece comigo, moldando meu torso sem esforço. O decote em V não me protege, ele concentra o desejo, segura tudo no lugar certo, cria expectativa. Eu sei o efeito que causa, sei porque sinto os olhares demorarem. A calça de alfaiataria clara, de cintura alta, me envolve com precisão. Marca meus quadris, alonga minhas pernas, sustenta minha postura. Quando enfio as mãos nos bolsos, não é desleixo, é domínio. É conforto calculado. É saber que não preciso me expor para ser notada. Os colares dourados, em camadas, descansam sobre a seda como correntes delicadas, capturando a luz dos postes e devolvendo em brilho contido. As argolas nas orelhas balançam suavemente quando caminho, acompanhando meu ritmo. Eu atravesso a rua e sinto Paris me observar, não porque mostro demais, mas porque me contenho. Levei uma hora aprontando meu cabelo, cachos longos, densos, indomáveis na medida exata. Eles descem pelos meus ombros como uma cascata escura e viva, cada fio com movimento próprio, como se respirasse comigo. Quando o vento da rua me alcança, ele se espalha ao redor do meu rosto, criando uma moldura quase selvagem para a expressão que mantenho firme. Há volume, há textura, há força. Brilha sob a luz dourada dos postes, revelando nuances profundas entre o castanho e o ébano. Quando inclino levemente a cabeça, sinto os cachos roçarem minha clavícula, meu pescoço, deslizando sobre a seda da blusa. Mas a noite foi interrompida antes mesmo de começar. Meu superior ligou anunciando uma nova emergência. O tom era diferente. Não havia pânico na voz, havia cautela. Não era como os roubos que vínhamos investigando há meses. Nenhum ferido. Nenhum alarme gritante. Apenas uma extração rápida e cirúrgica de obras valiosíssimas. Limpa e silenciosa demais, um pesadelo anunciado, porque significava holofotes, imprensa, pressão política. E, como sempre, o risco de empurrarem para dentro da investigação algum caçador de recompensas sem cérebro, esses adoram aparecer quando não são necessários e só atrapalham o que exige precisão. Levei meia hora para chegar ao Museu do Louvre. Por sorte, ou hábito, eu sempre carrego uma arma reserva, e o distintivo nunca sai do bolso. Estacionei, saí do carro e encaixei a arma no coldre com um gesto automático. Não havia tempo para trocar de roupa. O vestido que eu usava não era apropriado para uma cena de crime, e o universo masculino tratou de me lembrar disso com piadas sujas e olhares demorados. Ignorei todos. - Boa noite, chefe - disse minha subordinada, uma das poucas pessoas em quem eu confiava naquele lugar. - Não me disse que viria de femme fatale. Vejo que sabe aproveitar a noite de folga. Ela piscou, maliciosa e revirei os olhos. - Boa noite, Héloïse. Ela reprimiu o sorriso e me estendeu um par de luvas azuis. Calcei-as com calma, puxando o látex entre os dedos, enquanto cruzávamos a fita de isolamento. - Me deixe a par do que aconteceu esta noite. - Foi uma operação limpa e precisa - respondeu, guiando-me pelo corredor amplo e silencioso. - Equipe pequena. Desligaram as câmeras e elevaram a temperatura em algumas salas. O calor inutilizou os sensores e menhum registro aproveitável. Paramos diante do espaço vazio onde antes pendia o primeiro quadro. O corte na moldura era perfeito. Profissional. Não houve pressa, isso significava tempo e falha dos alarmes silenciosos. - Então eles inutilizaram câmeras, alarmes, entraram e saíram sem serem vistos - murmurei. - Funcionários disfarçados? Loise balançou a cabeça. - Checamos todos os pontos e todo o pessoal em serviço. Ninguém fora do padrão, eles passaram invisíveis. Ela me entregou um saco plástico de evidências. Dentro, uma carta. Ás de espadas, senti o estômago afundar com uma familiaridade irritante. Havia quase seis anos, uma série de roubos de obras de arte se espalhava pelo mundo. Algumas peças eram retiradas com justificativas jurídicas sofisticadas demais para serem coincidência. Outras simplesmente sumiam. E em todas as cenas, sem exceção, havia uma carta de baralho. Uma assinatura e uma provocação. - Está pensando o mesmo que eu, Comissária ? - Héloïse perguntou, com a voz mais baixa. Segurei o olhar por um segundo antes de responder. - Sim. A Rainha de Espadas está em Paris. Ela era um fantasma elegante. Roubos milionários, execuções impecáveis, nenhuma prova concreta, nenhum erro. Nem sequer um rosto para colocar num mural de procurados. Sabíamos que era uma mulher porque eu mesma havia conduzido a maior parte da investigação. a silhueta captada em ângulos impossíveis, os movimentos precisos, quase graciosos, subindo e descendo por pontos estratégicos com uma suavidade que beirava o deboche. Fria, brilhante e intocável, o oposto de mim em quase tudo e, ainda assim, perigosa de um jeito que me acendeu algo sob a pele. Adiante, notei a curadora do museu batendo o solado fino do salto contra o mármore, num ritmo seco e impaciente que ecoava pela galeria quase vazia. Ela estava visivelmente irritada, não histérica, não descontrolada, mas ofendida. Como se o roubo tivesse sido uma afronta pessoal, um gesto íntimo de violência. Assim que seus olhos encontraram os meus, a expressão se suavizou. Não por fraqueza, mas por reconhecimento. Ergueram-se levemente as sobrancelhas, a mão subiu num gesto contido e ela veio ao nosso encontro com passos firmes. - Boa noite, Comissária . Finalmente alguém com quem posso conversar e que me entende. Já havíamos trabalhado juntas em outro roubo. Ao contrário do que muitos insinuaram na época, tornamo-nos amigas. Nada além disso. Miranda admirava minha frieza e eu respeitava a devoção quase religiosa que ela nutria pela arte. - Boa noite, curadora, Miranda. Sinto muito que esteja passando por isso novamente. Faremos todo o possível para recuperar as obras. Não era uma promessa vazia. Era um compromisso silencioso que eu fazia comigo mesma toda vez que alguém ousava desafiar minha jurisdição. - Assim espero. - Ela respirou fundo, controlando o tremor na voz. - Pelo visto, estão enviando um investigador externo para auxiliar. Mas eu confio em você. A frase veio baixa, quase conspiratória. - O roubo me deixou sem palavras - continuou. - Cortes limpos nas três obras mais valiosas do museu, um diamante e uma coleção de joias. Uma das obras recém-adquirida, emprestada para a coleção, isso vai se tornar um inferno diplomático. Cinco, aumentaram o jogo. - Precisamos acessar tudo. Meus homens cuidarão dos detalhes técnicos. Pode me levar até as outras molduras vazias? A suavidade no meu tom foi calculada. Miranda precisava de firmeza, mas também de cuidado. Ela assentiu imediatamente. - Claro, me acompanhe. Caminhamos pelas galerias silenciosas, onde o vazio nas paredes gritava mais alto que qualquer sirene. Observei os pontos escolhidos, distintos e estratégicos. Cada equipe agiu com precisão cirúrgica, sincronizada, nada improvisado, nada caótico, como no crime anterior.

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Lista de capítulos

11 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 Prólogo
  2. Capítulo 2Capítulo 2 1
  3. Capítulo 3Capítulo 3 2

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