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Capítulo 3 2

GABRIELLE

Eles haviam estudado o fluxo de visitantes, os ângulos cegos, a variação térmica das salas. Desligaram câmeras, manipularam sensores, alteraram a temperatura ambiente para comprometer os equipamentos. Depois, convergiram para um ponto de extração perfeitamente calculado. Uma van estacionada na calçada, vidro cortado com delicadeza quase artesanal, descida ágil e retirada épica, nenhuma imagem útil, nenhum rosto e nenhuma falha. Era bonito e e eu odiava admitir isso, foi então que a vi. Uma mulher ultrapassara o perímetro da cena. Isso, por si só, já bastava para me irritar. Aproximei-me com passos firmes, pronta para repreendê-la. - Boa noite, senhorita. Esta é uma cena de crime. Não deveria estar aqui sem.. - A frase morreu na minha boca. Ela se virou lentamente, os longos fios loiros se moveram com o gesto, deslizando pelo ar como seda sob luz dourada. Os olhos cor de mel encontraram os meus, não com susto, não com culpa, mas com um brilho intenso que misturava desafio e cálculo. Ela usava luvas de látex, a loira caminhava como quem sabe que o mundo a observa e aprova. O macacão em tom terracota moldava seu corpo com precisão quase indecente, caindo em linhas longas que alongavam a silhueta. O tecido fluía a cada passo, leve, mas estruturado emtre elegante e dominante. O decote profundo em V revelava pele na exata medida do perigo. O suficiente para sugerir, nunca para entregar. A cintura era marcada por um cinto largo dourado, metálico, que capturava o olhar como uma insígnia de poder. Dividia o corpo com intenção, transformando curvas em arquitetura. As mangas três-quartos traziam equilíbrio à ousadia do corte, enquanto a calça de pernas amplas descia até os tornozelos, criando movimento e imponência. O tecido abria e fechava a cada passo, revelar, conter, provocar. Os acessórios dourados, colar geométrico, argolas, pulseiras, refletiam a luz como extensões naturais dela. Nada ali era casual e nada era inocente. Ela era o oposto de mim. - Acredito que minha presença foi solicitada e devidamente autorizada. - disse ela, com uma voz clara, quente, segura. Não havia pressa nas palavras. Apontou para o crachá preso à cintura. - Talvez seus homens precisem de melhor instrução, Comissária. Estamos lidando com obras de arte. Todo cuidado é pouco. Um suor excessivo, um toque imprudente... e uma pintura inestimável pode ser perdida. O modo como pronunciou toque fez algo se contrair dentro de mim, ela sustentou meu olhar sem vacilar, sem submissão ou medo. Eu estava acostumada a controlar salas, pessoas, situações. Mas ali, sob a luz fria do museu, senti uma tensão diferente, densa, elétrica, perigosa. Ela era o inverno disciplinado, contido, preciso, afiado e eu parecia verão. luminoso, expansivo, impossível de ignorar. E, pela primeira vez naquela noite, tive a desconfortável certeza de que o verdadeiro problema não eram as molduras vazias nas paredes. Era a mulher de olhos cor de mel parada à minha frente, sustentando um sorriso que não era cortesia nem provocação gratuita, era cálculo. Como se soubesse exatamente quem eu era. E, pior, como me desestabilizar. - Talvez devesse me dizer seu nome. - Minha voz saiu mais dura do que eu pretendia, quase um reflexo de defesa. Ainda assim, estendi a mão, eu já sabia quem ela era, a enviada da seguradora. O que não fazia sentido era terem enviado uma mulher, nunca enviavam. Nunca assim. - Beatrice Lamberti - respondeu, com naturalidade perigosa. - Pelo visto, eu fiz a lição de casa a caminho daqui. Ela não se intimidou com meu olhar, não apressou o gesto, não recuou um centímetro. Apenas tomou minha mão entre os dedos com uma firmeza tranquila, segura demais para ser casual. Elevou-a lentamente até os lábios e ali permaneceu por segundos longos demais para serem educados, curtos demais para serem inocentes. Quando senti o calor da boca contra a minha pele, um formigamento percorreu meu braço, subindo como uma descarga lenta, insistente. Não era apenas o toque. Era a intenção por trás dele. O domínio sutil. A certeza silenciosa de quem entra num território alheio já sabendo onde pisar. Beatrice ergueu os olhos para mim enquanto ainda segurava minha mão, e naquele instante compreendi, com um desconforto quase físico, que ela não estava ali apenas para investigar um roubo. Ela estava ali para virar o jogo e, contra toda a minha disciplina, meu corpo entendeu isso antes da minha razão. - Comissária Gabrielle... - disse ela, com uma suavidade que não enganava ninguém - serei sua parceira até resolvermos o caso e recuperarmos as obras. A frase veio envolta em falsa cortesia. Beatrice soltou minha mão com uma delicadeza calculada demais para ser inocente, como se o gesto fosse parte de um protocolo íntimo que só ela conhecia. - Você não é policial - respondi, a raiva aflorando sem esforço. Ela apenas sorriu. Não um sorriso aberto, mas um recorte preciso de malícia contida. Deu dois passos na minha direção e parou a poucos centímetros de mim, invadindo meu espaço com uma naturalidade insolente. Inclinou o rosto, e senti a respiração quente roçar meu pescoço antes de alcançar meu ouvido. Quando falou, a voz melosa encontrou um ponto sensível dentro de mim, um lugar que eu mantinha trancado à força. - Já servi no Exército. Tenho permissão, porte de arma, acesso irrestrito a tudo o que for necessário - murmurou. - O governador quer isso resolvido rápido. Por isso chamaram a melhor. Houve uma pausa mínima. Cruel. - Ou seja... você é toda minha até recuperarmos os quadros e as joias. Ela se afastou um passo, recompôs a postura com elegância insolente. Percebeu meus olhos brilhando de raiva e gostou. Eu vi e aquilo a alimentava. - Veremos - respondi, seca. Girei o corpo e me afastei antes que dissesse algo que não pudesse retirar. Caminhei até a fita de isolamento, ergui-a com a ponta dos dedos e passei por baixo. Ela veio atrás, mas não para trabalhar. Sentou-se com calma excessiva, cruzou as pernas num movimento deliberadamente ousado e, por um instante, perdi o foco da cena do crime. O gesto foi pequeno, mas devastador, um erro, meu erro. Beatrice pegou o celular e fez uma ligação curta. Falou baixo demais para que eu ouvisse, mas o suficiente para que eu sentisse. Intuição afiada é uma maldição. eu soube, naquele instante, que ela seria minha ruína. Minutos depois, meu telefone tocou. Era meu superior. A voz veio tensa, irritada, não comigo, mas com algo que vinha de cima. Ordens diretas. Sem margem para interpretação. Tratar a convidada com o devido respeito. Ser cortês. Facilitar. Agradar. Desliguei com a mandíbula travada, o sangue ferveu nas veias. Quando levantei o olhar, Beatrice me observava como quem assiste ao desabrochar exato de uma reação química esperada. Havia triunfo ali. Não escancarado, refinado e controlado. Ela não precisava tocar em mim para exercer domínio, bastava existir. - Todos saiam da sala. Agora. - minha voz cortou o ar com autoridade. Apontei diretamente para ela. - Menos você. Héloïse me lançou um olhar confuso, mas obedeceu. Em segundos, a sala se esvaziou às pressas, deixando para trás o silêncio tenso, carregado de eletricidade. As paredes brancas pareceram se fechar ao nosso redor. - Está irritada, Gabrielle? - a pergunta veio com uma doçura venenosa. Aproximei-me. Beatrice permanecia sentada, as pernas cruzadas com um descaso estudado, o decote visível demais, indecente na medida exata para provocar. O tecido revelava mais do que deveria e do que eu queria admitir que meus olhos insistiam em acompanhar. - É commissaire . - corrigi, seca. Ela sorriu. Não havia gentileza ali. Apenas desafio. - Claro... Comissária . - o sorriso se alargou, lento. - Prefere Gabrielle só quando dizem seu nome em situações menos... formais? O golpe foi preciso, senti o impacto antes mesmo de reagir. - Não ouse, tenha cuidado com a língua. - rosnei. - Não sou uma distração sua, nem objeto do seu jogo. Você é apenas uma mercenária bem paga, uma caçadora de recompensas com verniz caro, nada mais. As palavras saíram afiadas, carregadas da raiva que eu vinha segurando desde o primeiro olhar. Mas Beatrice não recuou, ela se levantou. Num movimento rápido demais para ser evitado, reduziu a distância entre nós. Me fez andar para trás sem tocar, apenas impondo presença. Imponente e calculada, antes que eu pudesse entender quando perdi terreno, minhas costas encontraram a parede fria. Ela segurou meu pulso e o ergueu contra a superfície lisa, firme o suficiente para não machucar, e forte o bastante para não permitir fuga. A outra mão prendeu meu outro pulso mais abaixo, perto da cintura. Beatrice estava perigosamente perto. Intimamente perto, a perna dela pressionou minha coxa, abrindo espaço com naturalidade indecente. O corpo próximo demais. O perfume quente demais. A respiração, uma provocação constante contra a minha pele. - Eu sou muito boa com a língua, ma belle. - murmurou, a voz baixa, controlada. - Posso me inclinar e tomar seus lábios como correção. Um beijo não pedido, um lembrete de domínio. Eu não sou qualquer caçadora, sou a pessoa que faz as coisas acontecerem. Tentei me soltar. Em resposta, ela apertou um pouco mais. Não força, intenção. O toque queimava como brasa sob a pele. - Me solte, agora! - minha voz saiu firme por fora, falha por dentro. Ela negou com um mínimo inclinar de cabeça e aproximou os lábios da curva do meu pescoço. O sopro quente me atravessou inteira. Um arrepio traiçoeiro correu pela espinha. - Peça com carinho... - disse, quase gentil. Balancei a cabeça em negativa, mas o corpo me traiu. Quando seus lábios roçaram minha pele, lentos, precisos, fechei os olhos por instinto. Não por rendição, por sobrevivência. Ela estava me conduzindo para um território perigoso. E eu estava permitindo. Minhas pernas vacilaram e o calor entre elas me denunciou. Praguejei em silêncio, odiando cada segundo daquela fraqueza. - Se não me soltar, eu te prendo - ameacei, a voz rouca, instável. Ela sorriu de novo. - Adoro quando falam em algemas... - respondeu, soltando meu pulso com lentidão calculada, levando minha mão aos lábios num gesto deliberadamente íntimo. - Mas algo me diz que aquela ligação que você recebeu veio com instruções bem claras... para ser boazinha comigo. O sorriso malicioso permaneceu, intacto. E, naquele instante, entendi com uma clareza perturbadora. Beatrice não precisava de força para me dominar, bastava saber exatamente onde tocar. - Eu vou gritar. - minha voz saiu baixa, vibrando de fúria e algo mais perigoso. Beatrice apenas sorriu, não houve pressa em sua reação e não houve surpresa. Apenas aquele controle infuriador, aquela certeza insolente de quem já sabe o desfecho antes mesmo do primeiro movimento. Eu abri os lábios para cumprir a promessa, mas ela foi mais rápida. O beijo não teve delicadeza. Foi possessivo. Quente. Cheio de uma fúria que espelhava a minha. Seus lábios esmagaram os meus sem pedir licença, como se a ameaça tivesse sido apenas um convite disfarçado. Estremeci. Ela soltou meu pulso no mesmo instante em que uma das mãos desceu firme para minha cintura, puxando meu corpo contra o dela, enquanto a outra subiu até meu pescoço, dedos longos se fechando ali com domínio silencioso. Não para machucar, para guiar. Para comandar, o beijo se aprofundou. Eu deveria tê-la empurrado. Deveria ter recuperado o controle, lembrado quem eu era, lembrado da parede branca, da cena do crime, da hierarquia, da regra que sempre mantive intacta. Nunca se envolver com colegas de trabalho, mas minhas mãos falharam. Em vez de afastá-la, enroscaram-se em sua cintura, puxando-a para mais perto. O choque dos nossos corpos enviou uma descarga elétrica pela espinha. Nossos lábios se chocavam e se moviam com fome, com urgência, como se cada segundo fosse uma batalha perdida e vencida ao mesmo tempo. Ela tinha gosto de desafio, de perigo e eu respondi à altura. Foi a aproximação de passos no corredor que rasgou o momento. A voz de Héloïse, ainda distante, aproximando-se. Beatrice se afastou bruscamente. O ar frio atingiu minha boca inchada, minha pele sentiu a ausência do toque como se tivesse sido privada de calor essencial. Mas antes de dar um passo atrás, ela roçou a ponta dos próprios lábios com os dedos, devagar, como quem prova um vinho raro, confirmando silenciosamente que meu gosto ainda estava ali. - Vou investigar as outras cenas - disse, a voz novamente controlada, profissional demais para combinar com o que acabara de acontecer. - Nos reunimos em breve, Comissária . Estou ansiosa para trabalhar com você. Aproximou-se o suficiente para que apenas eu ouvisse o sussurro seguinte. - E provar seu gosto outra vez. Mas sou paciente... espero que tome a iniciativa. Meu coração batia forte demais. Rápido demais. - Chefe? - Héloïse chamou, entrando na sala. Ajeitei a roupa com movimentos contidos, recompus a postura, mas sabia que meus lábios estavam vermelhos demais, minha respiração irregular demais. Beatrice já se afastava, o sorriso nos lábios refletindo a plena consciência do que havia feito. Do que havia despertado. Ela não corria, não precisava. Deixou para trás apenas o eco da presença e o frio súbito na minha pele. Fiquei ali por um segundo a mais, tentando controlar o ritmo do próprio corpo, consciente de que estava à beira de um precipício. Um único passo em falso e eu quebraria a única regra que sempre protegi com rigor quase obsessivo. Nunca dormir com colegas de trabalho e Beatrice Lamberti não era apenas uma colega. Era o tipo de erro que se comete sabendo exatamente o tamanho do abismo.

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Lista de capítulos

11 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 Prólogo
  2. Capítulo 2Capítulo 2 1
  3. Capítulo 3Capítulo 3 2

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