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Capítulo 1
Seis anos.
Faziam seis anos que Sofia Mendes não via Lucas Almeida.
O Mosteiro de São Bento, em São Paulo, era seu refúgio. Um lugar de paz, de silêncio.
Mas naquele dia, a paz não veio.
Um sonho a agarrou, vívido, perturbador. Uma voz, que parecia a sua própria, mas distante, ecoou:
"Fique longe de Lucas Almeida."
Sofia acordou sobressaltada, o coração aos pulos.
"Estresse", ela murmurou, tentando afastar a sensação ruim. Apenas o cansaço de mais uma semana no Hospital das Clínicas.
No dia seguinte, a notícia caiu como uma bomba no hospital.
Dr. Antunes, o Diretor Geral, reuniu a equipe de neurocirurgia.
"Temos o prazer de anunciar a chegada de um novo talento à nossa equipe. Um profissional com experiência internacional, vindo diretamente de Stanford."
A porta se abriu.
E lá estava ele. Lucas Almeida.
Mais maduro, talvez um pouco mais sério, mas inconfundivelmente Lucas.
Os olhos de Sofia encontraram os dele por um instante. Frios. Distantes.
Dr. Antunes fez as apresentações formais.
"Dra. Sofia Mendes, nossa chefe de neurocirurgia. Dr. Lucas Almeida, nosso novo especialista."
Um aceno de cabeça quase imperceptível de Lucas.
"Dra. Mendes."
A voz dele, a mesma voz que um dia sussurrou promessas em seu ouvido, agora soava como a de um estranho.
Pouco depois, durante uma conversa informal na sala dos médicos, Lucas mencionou, como quem não quer nada:
"Minha noiva, Isabella Rossi, está organizando um evento na fazenda dela. Talvez vocês a conheçam, Fazenda Bela Vista."
Noiva. Isabella Rossi.
A antiga ferida de Sofia se abriu, latejante.
Lembrou-se do dia, seis anos atrás. A pressão do orientador de Lucas, dos pais dele.
Ele era brilhante, prestes a ganhar o "Prêmio Jovem Talento em Neurociência". A bolsa integral para Stanford dependia daquilo.
Os pais dele, figuras influentes, temiam que o relacionamento com Sofia, então uma residente promissora mas sem o mesmo "pedigree", o distraísse, o fizesse perder o foco, ou pior, que ele desistisse de Stanford por ela.
O orientador, um homem pragmático, via em Lucas um investimento, uma carreira a ser moldada sem "complicações".
Pressionada, confusa, querendo o melhor para ele, mas sem entender completamente as manipulações ao seu redor, Sofia cometeu o erro.
Pediu a um membro influente da banca, um conhecido de sua família, para "revisar com atenção extra" o projeto de Lucas, para "encontrar uma pequena falha técnica, algo que o fizesse parecer humano, não perfeito, mas que não comprometesse a bolsa".
Sua intenção era desviar a atenção negativa, garantir que ele não perdesse a oportunidade por ser "bom demais" e, assim, atrair inveja ou questionamentos sobre a lisura do prêmio, algo que os pais dele sutilmente insinuaram que poderia acontecer.
Lucas, ao saber da "interferência", interpretou tudo da pior maneira. Traição. Sabotagem.
Ele nunca soube da pressão, da manipulação por trás. Para ele, Sofia havia minado sua confiança, sua conquista.
O término foi abrupto, doloroso. Ele partiu para Stanford sem olhar para trás.
Dias depois do reencontro no hospital, um motoboy entregou uma caixa no apartamento de Sofia.
Dentro, todas as lembranças do namoro: fotos, presentes, bilhetes.
Um nó se formou na garganta dela.
Pegou o celular, tentou abrir o WhatsApp de Lucas. Bloqueada.
No hospital, os corredores fervilhavam com a notícia.
"Ouviu? O Dr. Almeida está noivo da Isabella Rossi!"
"Aquela da Fazenda Bela Vista? Chiquérrima!"
Sofia tentava ignorar, focar no trabalho, mas cada comentário era uma agulha.
Clara Costa, a enfermeira-chefe, sua amiga e confidente, percebia.
"Você está bem, Sofia?"
"Estou ótima, Clara. Só cansada."
Mentira.
No evento social do hospital, semanas depois, a situação piorou.
Lucas e Isabella circulavam, o casal perfeito.
Quando Sofia passou por eles, Lucas a cumprimentou com a formalidade reservada a um conhecido distante.
"Dra. Mendes."
Como se nunca tivessem dividido sonhos, medos, uma vida.
Sofia sentiu o rosto queimar. Humilhação.
Mais tarde, ela tentou se aproximar dele, quando ele estava sozinho perto do bar.
"Lucas, nós precisamos conversar sobre o passado, sobre o prêmio..."
Ele a cortou, o olhar gélido.
"Não há nada para conversar, Dra. Mendes. O passado está morto e enterrado. E, francamente, prefiro que continue assim."
Virou as costas e se afastou, deixando-a sozinha com a dor e a frustração.
Dr. Antunes, percebendo a tensão óbvia entre seus dois neurocirurgiões estrela, chamou-os para uma conversa particular.
"Dra. Mendes, Dr. Almeida. Sei que podem existir... diferenças pessoais. Mas neste hospital, somos uma equipe. Espero profissionalismo e colaboração. O bem-estar dos nossos pacientes depende disso."
A pressão aumentava.
As fofocas não davam trégua.
"Dizem que eles tiveram um caso feio."
"Ela deve ter feito algo muito ruim para ele a tratar assim."
Sofia se sentia cada vez mais isolada, julgada.
Então, o mundo de Sofia desabou de vez.
Seu Roberto, seu pai, contador aposentado, viúvo, seu porto seguro, começou a passar mal.
Dores de cabeça, confusão.
Os exames no Hospital das Clínicas trouxeram o diagnóstico devastador: glioblastoma. Agressivo, em localização crítica.
Sofia, a neurocirurgiã renomada, viu-se do outro lado: a filha desesperada.
A única esperança, segundo os colegas, era uma técnica cirúrgica nova, extremamente complexa.
Uma técnica que apenas um cirurgião no Brasil dominava com maestria.
Lucas Almeida.
Engolindo o orgulho, a mágoa, tudo, Sofia foi até a sala dele.
"Lucas, por favor. Meu pai. É um glioblastoma. Você é o único que pode..."
A voz dela falhava, embargada pelas lágrimas que ela lutava para conter.
Ele a ouviu, a expressão indecifrável.
Quando ela terminou, o silêncio pesou no ar por um momento que pareceu uma eternidade.
Então, ele respondeu, a voz fria como gelo.
"Sinto muito pelo seu pai, Dra. Mendes. Mas não posso realizar essa cirurgia."
"Mas... por quê? Você é o melhor, Lucas! Por favor!"
"Minha decisão está tomada."
Ele não ofereceu explicação. Não demonstrou um pingo de compaixão.
Sofia não aguentou. A dor, o desespero, a raiva acumulada explodiram.
"Como você pode ser tão cruel? Depois de tudo? É meu pai! Eu te imploro!"
"Eu já disse que não, Dra. Mendes. Agora, se me dá licença, tenho pacientes para atender."
Ele se virou, encerrando a conversa.
Sofia ficou ali, paralisada, o som das palavras dele ecoando em sua mente.
Traição. De novo. Mas desta vez, com a vida de seu pai em jogo.
Seu Roberto piorou rapidamente.
Sem a cirurgia de Lucas, as opções eram limitadas, paliativas.
Ele faleceu duas semanas depois.
No quarto do hospital, segurando a mão fria de seu pai, Sofia sentiu um vazio que a consumiu por inteiro.
A dor era insuportável. E no meio dessa dor, uma certeza amarga:
Lucas era o culpado.
Se ele tivesse operado, talvez... talvez seu pai ainda estivesse ali.
Desolada, Sofia não via mais sentido em continuar em São Paulo, no hospital, perto de Lucas.
Uma oferta de pesquisa em Portugal, que ela havia considerado e descartado meses antes, pareceu sua única saída.
Pediu demissão, vendeu o apartamento às pressas, fez as malas.
Fugir. Era só o que ela queria.
Lista de capítulos
4 capítulos no total
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