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Capítulo 2
O voo para Lisboa deveria ser um recomeço.
Mas o destino tinha outros planos.
Turbulência severa. Gritos. Pânico.
O avião fez um pouso de emergência em um campo aberto, longe de qualquer cidade.
Sofia sobreviveu. Mas o impacto, o golpe na cabeça...
Quando acordou, estava em um quarto de hospital em Lisboa.
Confusa. Desorientada.
Uma dor latejava em sua cabeça.
E ao seu lado, segurando sua mão, estava Lucas.
Os olhos dele demonstravam uma ternura que ela não via há anos, desde antes de Stanford, antes da dor.
"Sofia? Você acordou."
A voz dele era suave, preocupada.
"Lucas? O que... o que aconteceu? Onde estou?"
"Você sofreu um acidente, meu amor. O avião... mas você está segura agora. Eu estou aqui."
Meu amor?
Sofia tentou se lembrar. O que aconteceu antes do acidente?
Lembrou-se de discussões no hospital, da tensão. Mas os detalhes mais recentes, os mais dolorosos... nada.
A morte do pai. A recusa de Lucas em operá-lo. Sua decisão de ir para Portugal.
Tudo apagado. Uma névoa densa em sua memória.
Amnésia retrógrada seletiva, o médico explicaria depois. Um mecanismo de defesa do cérebro contra o trauma extremo.
Suas memórias paravam pouco antes do conflito final com Lucas, antes da doença fulminante do pai.
Para ela, eles ainda estavam em crise, mas a ruptura definitiva, a dor lancinante da perda, não existiam em sua mente consciente.
Lucas, vendo a confusão em seus olhos, tomou uma decisão ali mesmo.
Para protegê-la, para poupá-la de reviver o sofrimento durante sua frágil recuperação, ele omitiu a verdade.
"Nós... nós tínhamos nos acertado, Sofia. Pouco antes da sua viagem. Estávamos tentando de novo."
Uma mentira piedosa, ele pensou. Ou talvez uma tentativa desesperada de reescrever o passado.
Sofia franziu a testa, tentando encaixar as peças.
Fazia sentido? Ela ansiava tanto por aquela conexão perdida.
Confusa, vulnerável, ela acreditou. Ou quis acreditar.
Clara voou para Lisboa assim que soube do acidente e da amnésia de Sofia.
Encontrou a amiga ainda confusa, mas com um brilho nos olhos que não via há muito tempo.
"Clara! Que bom te ver! Lucas me contou que estávamos... bem, tentando de novo."
Clara olhou para Lucas, que lhe lançou um olhar suplicante.
Ela entendeu. Ou achou que entendeu.
"Sim, Sofia. As coisas estavam se ajeitando entre vocês", Clara mentiu, sentindo um peso no coração.
Mais tarde, a sós com Lucas, Clara o confrontou.
"O que você está fazendo, Lucas? Ela precisa saber a verdade sobre o pai dela, sobre tudo!"
"Não agora, Clara. Ela está muito frágil. O médico disse que a amnésia é uma proteção. Reviver tudo isso agora pode ser devastador."
"E quando vai ser a hora certa, Lucas? Quando ela descobrir sua mentira?"
"Eu vou contar. Eu prometo. Mas preciso de tempo."
Clara não gostou, mas, vendo o estado de Sofia, concordou em manter o segredo, por enquanto.
A recuperação de Sofia foi lenta. Lucas conseguiu um trabalho temporário em um hospital em Lisboa para ficar perto dela.
Viviam uma espécie de lua de mel fabricada, uma bolha de ternura e cuidado.
Mas o mundo real não podia ser mantido afastado para sempre.
Isabella Rossi ainda ligava para Lucas.
Sofia via o nome dela no visor do celular dele.
"Quem é Isabella, Lucas?"
"Uma colega de trabalho de São Paulo. Assuntos do hospital", ele desconversava.
O ciúme, a insegurança começaram a surgir.
Um dia, Sofia encontrou um presente caro no armário de Lucas, com um cartão de Isabella.
"Isso não parece um presente de uma simples colega de trabalho, Lucas."
A fachada de Lucas começou a ruir.
Sofia, sentindo que algo estava muito errado, pressionou Clara por respostas quando ela ligou.
"Clara, eu preciso saber. O que realmente aconteceu antes do acidente? Por que sinto que há um buraco enorme na minha vida?"
Clara, incapaz de continuar mentindo, hesitou.
"Sofia, a amnésia... o médico disse que é uma defesa. Contra coisas muito dolorosas."
"Dolorosas como o quê, Clara? O que Lucas não está me contando?"
Aos poucos, com a ajuda de Clara pelo telefone e com gatilhos que surgiam – uma notícia sobre a Fazenda Bela Vista na internet, uma conversa sobre congressos médicos que Lucas mencionou ter participado com Isabella – flashes de memória começaram a voltar.
A imagem do pai no leito do hospital.
A voz fria de Lucas recusando ajuda.
A dor. A raiva.
As peças se encaixaram, terríveis, cortantes.
Ela o confrontou, a voz tremendo de fúria e dor.
"Você mentiu para mim! Sobre nós, sobre tudo! Meu pai... você deixou meu pai morrer!"
Lucas não negou mais. A culpa estava estampada em seu rosto.
"Sofia, eu... eu posso explicar."
"Explicar o quê? Que você me usou, me manipulou enquanto eu estava vulnerável? Que você assistiu meu pai morrer e não fez nada?"
Ela sentiu-se duplamente traída. Pela recusa original e pela mentira cruel durante sua amnésia.
"Eu queria te proteger!"
"Me proteger? Ou se proteger da sua culpa?"
Sofia fez as malas, decidida a ir embora, a deixá-lo de vez.
"Eu não posso mais olhar para você, Lucas."
Ele a segurou pelo braço, desesperado.
"Não vá, Sofia. Por favor. Há algo mais que você precisa saber."
Em meio à nova crise, ao caos de emoções, Lucas soltou a bomba.
"Nós nos casamos, Sofia."
Ela parou, incrédula. "O quê?"
"Pouco antes da sua viagem para Portugal. Num impulso... eu não sei. Eu estava desesperado para não te perder de novo. Fomos a um cartório. É legal."
Sofia cambaleou, sentindo o chão sumir sob seus pés. Casada. Com ele.
Como se não bastasse, alguns dias depois, um enjoo persistente, uma sensação estranha.
Um teste de farmácia. Positivo.
Grávida.
O choque foi brutal. Casada com o homem que ela mais desprezava no momento, e esperando um filho dele.
De volta a São Paulo, a vida era um borrão.
Sofia tentava processar tudo. O casamento secreto, a gravidez inesperada, as mentiras de Lucas.
Ele tentava se aproximar, se explicar, mas ela o mantinha à distância.
No Hospital das Clínicas, ela reassumiu seu posto, mas o ambiente era pesado.
Isabella Rossi ainda estava lá, a "noiva" oficial de Lucas aos olhos de todos.
Sofia não desmentiu o casamento para os outros, mas também não o confirmou. Era um limbo.
Durante um procedimento de emergência, um paciente agitado se debateu.
Uma agulha contaminada perfurou a luva de Sofia, arranhando sua pele.
O paciente era portador de uma forma agressiva de hepatite.
Pânico.
O protocolo de emergência foi acionado. Exames, medicamentos preventivos.
O medo pela sua saúde, pela saúde do bebê, somado ao ressentimento acumulado por Lucas, a levaram a um lugar escuro.
Interromper a gravidez.
A ideia surgiu, terrível, mas persistente.
Como ela poderia criar um filho nessas condições? Um filho de Lucas?
Uma noite, exausta, confusa, ela sonhou com o pai.
Seu Roberto sorria para ela, sereno.
"Cuide do meu neto, minha filha. Proteja essa vida."
Sofia acordou chorando, mas com uma clareza que não sentia há meses.
Ela não podia fazer aquilo.
Tomou uma decisão.
Procurou Lucas.
"Eu perdi o bebê, Lucas."
A mentira saiu com mais facilidade do que ela esperava.
"O estresse, a exposição à hepatite... não resistiu."
Viu a dor nos olhos dele, uma dor que espelhava a dela, mas por razões diferentes.
Não sentiu culpa. Sentiu alívio.
Vendeu o pequeno apartamento que havia recomprado, pediu demissão do Hospital das Clínicas, para surpresa de Dr. Antunes e tristeza de Clara.
Partiu em silêncio, sem se despedir de Lucas.
Desta vez, não para Portugal, mas para uma pequena e tranquila cidade na Serra Gaúcha.
Um lugar para ter seu filho em paz. Longe de tudo e de todos.
Lucas, ao saber da suposta perda do bebê e da partida definitiva de Sofia, desabou.
A culpa pela morte de Seu Roberto, a dor pela perda do filho que ele nem sabia que ainda existia, o abandono de Sofia.
Era demais.
Distraído, consumido pelo desespero, ele dirigia pela Marginal Pinheiros.
Chovia. A pista escorregadia.
Um momento de desatenção.
O carro rodopiou, colidiu violentamente contra a mureta.
Quando os bombeiros chegaram, Lucas estava preso nas ferragens, a perna esmagada.
A vida, mais uma vez, cobrando seu preço.
Isso é tudo que está disponível no momento.
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