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Capítulo 3 Crise de imagem

A primeira coisa que aprendi trabalhando com comunicação esportiva foi que uma crise nunca começa quando o problema acontece.

Ela começa quando alguém decide postar.

Às oito e dezessete da manhã, o vídeo de Caio Vilar já tinha mais de vinte mil visualizações.

Às oito e vinte e três, alguém tinha feito um corte em câmera lenta do momento em que ele empurrava o jogador adversário.

Às oito e trinta, o perfil anônimo que publicou o vídeo já tinha recebido comentários suficientes para transformar um erro de poucos segundos em uma sentença coletiva.

Eu sabia disso porque tinha acordado às seis e quarenta, aberto o celular antes mesmo de levantar da cama e encontrado Maya sentada à mesa da cozinha, com uma caneca de café nas mãos e a expressão de quem estava esperando uma tragédia.

- Não entra em pânico - ela disse.

A frase, por definição, significava que eu devia entrar em pânico.

- O que aconteceu?

Maya virou o celular na minha direção.

A publicação ocupava a tela inteira.

O vídeo era ruim. Granulado. Tremido. Gravado da arquibancada por alguém que provavelmente nem imaginava que aquele registro voltaria meses depois para assombrar uma pessoa.

Caio aparecia no centro da quadra, com a camisa azul da Santa Aurora, o corpo tenso e o rosto tomado por uma raiva que eu ainda não conhecia.

O outro jogador dizia alguma coisa que não dava para ouvir.

Caio avançava.

Havia um empurrão.

Gritos.

O apito do juiz.

E então a imagem congelava no pior ponto possível: a mão de Caio contra o peito do adversário, os músculos do braço contraídos, a expressão dura.

A legenda dizia:

"Esse é o exemplo de capitão que a Universidade Santa Aurora quer defender?"

Abaixo, uma sequência de hashtags:

#FutsalUniversitário

#ViolênciaNoEsporte

#AfastemCaioVilar

#SantaAuroraSemViolência

Eu li os comentários sem querer.

O primeiro dizia que ele devia ser expulso do time.

O segundo dizia que atletas populares sempre eram protegidos.

O terceiro sugeria que a universidade só se importava com imagem quando havia patrocinador envolvido.

O quarto dizia que Caio tinha "cara de quem acha que pode fazer qualquer coisa".

Fechei a tela antes de continuar.

- Isso aconteceu ontem? - perguntei.

- Não. Pelo que vi, foi em um jogo do semestre passado.

- E por que voltou agora?

Maya deu de ombros.

- Alguém encontrou, compartilhou e pronto. Internet adora uma fogueira.

Eu me aproximei da pia, tentando ignorar o aperto no estômago.

Não era meu problema.

Ainda não.

Eu tinha aceitado duas semanas de experiência no projeto de comunicação esportiva. Nem contrato definitivo eu tinha. Não era responsável pela imagem do time. Não era amiga de Caio. Não conhecia a história completa.

Mas eu conhecia o suficiente para saber que aquilo não era apenas sobre uma discussão em quadra.

Era sobre narrativa.

Quem publicou o vídeo não queria discutir contexto. Queria uma reação. Queria indignação. Queria que as pessoas escolhessem um lado antes de saberem o que realmente tinha acontecido.

E, por mais desconfortável que fosse admitir, a publicação estava funcionando.

- Você está com aquela cara - Maya disse.

- Que cara?

- A cara de quando alguma coisa te irrita tanto que você começa a planejar uma apresentação em PowerPoint.

- Eu não tenho essa cara.

- Tem, sim. É uma cara assustadora. Parece que você está prestes a fazer uma planilha sobre os erros morais da humanidade.

Peguei a caneca de café da mesa.

- Não vou fazer nada.

- Claro.

- Não vou.

- Você está indo para o ginásio em quarenta minutos.

- Eu tenho trabalho.

- Você tem uma experiência de duas semanas.

- Que pode virar trabalho.

Maya me observou por cima da caneca.

- Então é isso.

- Isso o quê?

- Você quer mostrar que merece ficar.

Não respondi.

Porque ela estava certa.

Eu queria.

Precisava.

A oportunidade na Santa Aurora era pequena, temporária e cheia de condições que ninguém tinha se dado ao trabalho de explicar com clareza. Ainda assim, era a primeira vez que alguém olhava para meu portfólio e dizia que eu talvez tivesse espaço em um projeto maior.

Eu não podia deixar uma crise me assustar.

Não quando crises eram exatamente o tipo de coisa que separavam quem sabia apenas fazer posts bonitos de quem entendia comunicação de verdade.

O ginásio estava diferente quando cheguei.

Não havia nada visivelmente fora do lugar.

As mesmas faixas azuis penduradas na entrada. O mesmo cheiro de borracha e produto de limpeza. O mesmo segurança cochilando perto da porta principal, fingindo que não estava cochilando.

Mas o ar parecia mais pesado.

Como se todo mundo soubesse que havia alguma coisa acontecendo e estivesse tentando decidir se comentava ou se fingia que não.

Encontrei Patrícia Lemos no corredor administrativo, falando baixo ao telefone.

Ela encerrou a ligação assim que me viu.

- Luiza. Ainda bem que você chegou cedo.

- Vi o vídeo.

A expressão dela mudou.

Não muito.

Apenas o suficiente para confirmar que aquilo era maior do que uma postagem inconveniente.

- Vamos ter uma reunião daqui a pouco.

- Com quem?

- Com a diretoria de esportes, a comunicação institucional, o professor Álvaro e Caio.

- Ele sabe?

Patrícia soltou o ar devagar.

- Sabe.

Não perguntei como.

Não precisava.

Alguém provavelmente tinha mandado o vídeo para ele antes mesmo de a postagem ganhar força. Era assim que as crises funcionavam. Elas chegavam primeiro por mensagem privada, depois viravam assunto em grupos, depois apareciam como notícia, comentário, print, meme.

Quando uma pessoa finalmente conseguia entender o que estava acontecendo, o resto do mundo já tinha formado uma opinião.

- E o time? - perguntei.

- O treino foi suspenso esta manhã.

Meu coração apertou.

- Suspenso?

- Temporariamente. A diretoria quer avaliar a situação antes de decidir qualquer coisa.

- Vão afastá-lo?

Patrícia me olhou com cautela.

- Ainda não sabemos.

A resposta dela não ajudou.

- O vídeo é antigo - falei. - Não sei o que aconteceu no jogo, mas ele é antigo.

- Sim.

- E o contexto?

- É exatamente o que precisamos entender.

Ela fez um gesto para que eu a acompanhasse.

- A reunião vai começar em cinco minutos. Você não precisa participar, mas pode ficar na sala ao lado. Talvez eu peça que você organize alguns materiais depois.

"Organizar materiais" era o tipo de frase que adultos usavam quando queriam dizer "não sabemos o que fazer, mas você parece competente".

Assenti.

- Claro.

A sala ao lado da reunião era pequena, sem janelas e com uma mesa retangular ocupada por uma impressora antiga. Havia cartazes de campeonatos anteriores empilhados em um canto e duas cadeiras de plástico encostadas na parede.

Eu me sentei perto da porta, com o notebook aberto e a tela vazia.

Na sala principal, as vozes começaram baixas.

Não dava para entender tudo.

Mas dava para entender o bastante.

- ...a publicação já foi compartilhada por perfis grandes...

- ...não podemos agir como se não tivesse acontecido...

- ...o patrocinador entrou em contato esta manhã...

- ...Caio já pediu desculpas na época...

- ...uma coisa é pedir desculpas, outra é administrar a repercussão atual...

Fiquei olhando para o cursor piscando na tela do notebook.

Depois abri uma apresentação nova.

Não porque eu tivesse sido chamada.

Não porque alguém tivesse pedido.

Mas porque precisava fazer alguma coisa com as mãos.

Na primeira página, escrevi:

GESTÃO DE CRISE - FUTSAL SANTA AURORA

Parei.

Apaguei.

Títulos assim pareciam frios demais.

Como se Caio fosse uma marca em dificuldade, e não uma pessoa com uma história que ninguém tinha se dado ao trabalho de ouvir.

Tentei novamente.

PLANO DE RESPOSTA E REPOSICIONAMENTO

Também não gostei.

Fechei os olhos por alguns segundos.

A porta da sala de reunião se abriu.

O professor Álvaro saiu primeiro, falando ao telefone. Patrícia veio logo atrás. Depois Helena Duarte, com uma pilha de documentos apertada contra o peito.

Caio foi o último.

Ele não me viu de imediato.

Estava olhando para o chão, com as mãos fechadas ao lado do corpo. Usava uma camiseta cinza escura e uma jaqueta azul do time, mas não parecia o mesmo garoto que tinha sentado ao meu lado na arquibancada no dia anterior.

Não havia sorriso.

Não havia provocação.

Não havia aquela calma irritante de quem parecia sempre saber exatamente o que dizer.

Havia apenas cansaço.

Quando ele levantou os olhos e me viu, sua expressão se fechou ainda mais.

- Você está aqui.

Não era uma pergunta.

- Eu trabalho aqui - respondi, tentando manter a voz neutra.

- Por enquanto.

A frase me atingiu mais do que devia.

- É.

Ele deu um passo em direção ao corredor.

- Caio - chamei.

Ele parou.

- O quê?

Eu olhei para a sala ao lado, depois para ele.

- Você tem cinco minutos?

- Para quê?

- Para eu fazer uma pergunta.

- Você gosta muito de perguntas.

- É meu defeito mais simpático.

Ele soltou uma risada sem humor.

- Não sei se tenho tempo.

- Tem. Você está evitando tudo desde que saiu daquela sala.

Caio me encarou.

Eu quase me arrependi.

Quase.

- Você nem sabe o que aconteceu - ele disse.

- Não sei.

- Então não fala como se soubesse.

- Eu não estou falando como se soubesse. Estou dizendo que você está agindo como alguém que já decidiu perder.

A mandíbula dele se contraiu.

Por um segundo, achei que ele iria embora.

Mas então fez um gesto com a cabeça para a arquibancada vazia.

- Cinco minutos.

A quadra estava silenciosa.

Era estranho vê-la sem jogadores, sem apitos, sem o eco de passos correndo de um lado para outro. As traves pareciam menores quando não havia ninguém tentando defender um gol.

Sentamos na primeira fileira da arquibancada.

Dessa vez, Caio ficou duas cadeiras distante de mim.

Como se a proximidade fosse um risco.

Ou como se eu fosse.

- Você quer saber o que aconteceu? - perguntou.

- Quero.

Ele ficou olhando para a quadra.

- O jogador que aparece no vídeo fez uma falta no Gustavo.

- Seu amigo.

- Sim.

- Foi uma falta grave?

- Foi.

- E o juiz não marcou?

- Marcou. Mas ele ficou provocando. Falando que o Gustavo era fraco. Que eu era um capitão de fachada. Essas coisas.

- E você perdeu o controle.

Caio respirou fundo.

- Eu perdi.

Não tentou justificar.

Não tentou transformar o outro jogador em vilão.

Não tentou dizer que qualquer pessoa teria feito o mesmo.

A honestidade da resposta me fez baixar um pouco a guarda.

- Você se arrepende?

Ele virou o rosto na minha direção.

- Você acha que não?

- Eu não sei. Estou perguntando.

- Claro que me arrependo. A gente perdeu o jogo por minha causa.

Havia algo diferente na voz dele agora.

Não era raiva.

Era vergonha.

E eu conhecia vergonha.

Conhecia a sensação de pensar em uma escolha tantas vezes que ela deixava de ser um acontecimento e passava a ser um quarto fechado dentro da sua cabeça.

- O que a diretoria disse? - perguntei.

- Que ainda vão decidir se eu jogo a próxima competição.

Meu corpo ficou tenso.

- Eles podem te afastar?

- Podem.

- Mesmo sendo um vídeo antigo?

- Eles podem dizer que a repercussão prejudica a universidade, o patrocinador, o time. Não precisam de muito mais do que isso.

- E o patrocinador?

- Parece que quer uma resposta pública.

A palavra "pública" ficou entre nós por alguns segundos.

- Você quer dar uma resposta? - perguntei.

Caio riu sem humor.

- Você quer dizer um vídeo de desculpas com música triste e fundo neutro?

- Não.

- Uma nota escrita pela universidade?

- Também não.

- Então o quê?

Olhei para a quadra vazia.

A resposta veio antes que eu pudesse medir se era ousada demais.

- Uma conversa honesta.

Ele franziu a testa.

- Isso é o que todo mundo diz quando quer que você se exponha.

- Não estou dizendo que você tem que contar sua vida inteira para estranhos. Nem que precisa transformar um erro em espetáculo.

- Então qual é a diferença?

- A diferença é que, agora, a única versão de você que as pessoas têm é um vídeo de vinte segundos.

Ele ficou quieto.

- Você não precisa fingir que aquilo não aconteceu. Isso seria um erro. Mas também não precisa deixar que aquilo seja tudo o que existe sobre você.

- E como você sugere que eu faça isso?

Meu coração acelerou.

Era a primeira vez que ele perguntava de verdade.

Não para me provocar.

Não para testar se eu tinha uma resposta pronta.

Eu abri o notebook sobre as pernas.

- Primeiro, a gente precisa entender o tamanho da crise. Quem está falando, o que está sendo dito, quais são os riscos reais. Depois, precisamos decidir o que merece resposta e o que não merece.

- "A gente"?

- Você pode dizer não.

- E se eu disser?

- Eu vou ficar muito irritada.

Ele me olhou de lado.

- Isso eu imagino.

- Mas vou respeitar.

Caio encostou os cotovelos nos joelhos.

- Você acha que consegue resolver isso?

- Não.

Ele pareceu surpreso.

- Não?

- Não existe "resolver" uma crise assim em um dia. Não existe apagar vídeo, desfazer comentário ou convencer todo mundo de que você é perfeito.

- Ainda bem, porque eu não sou.

- Eu sei.

Ele levantou as sobrancelhas.

- Você sabe?

- Você derramou café no meu projeto no primeiro dia em que nos conhecemos.

- Isso foi um acidente.

- E agora você está fugindo de uma conversa importante porque está com medo de que as pessoas pensem coisas horríveis sobre você.

- Isso não é fugir.

- É o quê, então?

- Estratégia de sobrevivência.

- Mesma coisa, com nome mais bonito.

Por um instante, ele sorriu.

De verdade.

Pequeno, mas real.

E alguma coisa dentro de mim relaxou.

- Você é impossível - ele disse.

- Você é muito fácil de irritar.

- Não sou.

- Caio, você ficou bravo comigo porque eu disse que as redes sociais do time pareciam propaganda de bebida energética.

- Foi uma observação injusta.

- Foi uma observação precisa.

- Você não entende nada de esporte.

- E você não entende nada de comunicação.

- É por isso que estamos nessa situação?

- Em parte.

Ele riu de novo, e dessa vez o som não parecia pesado.

Eu desviei os olhos antes que ele percebesse o quanto aquilo me afetava.

- Minha proposta não é fazer você parecer bonzinho - continuei. - Nem fingir que não errou. É mostrar responsabilidade. Mostrar que você reconhece o que aconteceu, que entende a consequência e que está disposto a fazer diferente.

- Isso parece muito ensaiado.

- Só parece ensaiado se for mentira.

Caio não respondeu.

Naquela manhã, eu tinha visto dezenas de pessoas falando sobre ele com uma certeza assustadora. Pessoas que não sabiam o nome do jogador envolvido, não sabiam o placar da partida, não sabiam o que Caio tinha feito depois.

Mas também era verdade que ninguém precisava saber tudo para se incomodar com uma atitude errada.

A questão era o que vinha depois.

O que uma pessoa fazia com o próprio erro.

- Você já pediu desculpas para o outro jogador? - perguntei.

- Sim.

- Publicamente?

- Depois do jogo. E em uma nota do time.

- Vocês ainda têm contato?

- Não.

- Você toparia falar sobre responsabilidade no esporte? Sobre pressão, sobre liderança, sobre o que você aprendeu?

Caio passou a mão pelos cabelos.

- Eu não sei se quero colocar minha cara na internet para mais gente me chamar de agressivo.

- Eu também não sei se quero ser a garota que chegou ontem e sugeriu transformar seu pior momento em campanha.

Ele olhou para mim.

- Você acabou de sugerir isso?

- Não. Eu sugeri que você não deixasse outras pessoas decidirem, sozinhas, o que aquele momento significa.

O silêncio voltou.

Mas não era o mesmo silêncio de antes.

Esse parecia cheio de possibilidades.

Caio se levantou.

Por um segundo, achei que ele tinha decidido ir embora.

Mas ele ficou diante de mim, com as mãos nos bolsos da jaqueta.

- Faz o plano - disse.

- Sério?

- Faz o plano. Eu vou ouvir.

Meu peito apertou.

Não de medo.

De expectativa.

- Ótimo.

- Mas não prometo aceitar tudo.

- Nem eu aceitaria, se fosse você.

- E não tenta me fazer chorar em vídeo.

- Você acha que eu faria isso?

- Você tem cara de quem colocaria violão triste de fundo.

- Eu odeio violão triste.

- Todo mundo odeia até precisar dele.

- Está decidido. Sem violão.

Ele assentiu, e começou a caminhar em direção à saída da quadra.

- Caio.

Ele olhou para trás.

- Obrigada por confiar em mim.

A expressão dele mudou por um instante.

Quase imperceptivelmente.

- Eu ainda não confio.

- Ah.

- Mas você parece teimosa o suficiente para tentar mesmo assim.

- Isso foi um elogio?

- Não se acostuma.

E então ele saiu.

Fiquei sentada na arquibancada, com o notebook aberto e um sorriso involuntário tentando aparecer no meu rosto.

Eu não devia sorrir.

A situação era séria.

O futuro dele no time estava em risco. Meu primeiro projeto real dentro da universidade podia desmoronar antes mesmo de começar. Havia patrocinador, diretoria, comentários, pressão e uma crise inteira crescendo diante dos nossos olhos.

Mas, pela primeira vez desde que eu tinha chegado ao ginásio, eu sentia que havia algo concreto para fazer.

Abri um documento novo.

E escrevi:

PLANO DE RESPOSTA - CAIO VILAR

Objetivo: transformar silêncio em responsabilidade.

Duas horas depois, eu tinha criado uma planilha de monitoramento, separado os comentários em categorias e listado tudo o que precisaria saber antes de sugerir qualquer publicação.

Repercussão negativa.

Possíveis aliados.

Mídia universitária.

Posicionamento da diretoria.

Patrocinadores.

Linha do tempo do episódio.

Depoimentos possíveis.

Risco de parecer oportunismo.

Estava tão concentrada que só percebi a presença de alguém quando uma sombra caiu sobre a mesa.

- Você está fazendo uma autópsia digital?

Levantei os olhos.

Era Caio.

Dessa vez, ele tinha trocado a jaqueta por uma camiseta preta e carregava uma garrafa de água. Parecia menos tenso do que antes, embora ainda houvesse cansaço em seus olhos.

- Estou fazendo monitoramento de crise.

- Parece perigoso.

- Tudo que envolve planilhas é um pouco perigoso.

Ele puxou uma cadeira e se sentou ao meu lado.

- O professor Álvaro disse que você pediu os registros da partida.

- Pedi. Preciso ver o que aconteceu antes do vídeo.

- Você quer mesmo tudo?

- Quero.

- Mesmo que me faça parecer pior?

- Principalmente se te fizer parecer pior.

Caio me encarou.

- Você é brutal.

- Eu sou honesta.

- Isso é quase a mesma coisa.

- Não é.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos.

Depois colocou o celular sobre a mesa.

- Tem mais uma coisa.

Na tela, havia uma nova notificação.

Uma postagem recente.

Não do perfil anônimo.

De uma página de fofoca universitária.

A foto mostrava os dois no corredor do ginásio, pouco depois de nossa conversa na arquibancada. Eu estava de braços cruzados, com o notebook apertado contra o corpo. Caio estava inclinado na minha direção, falando alguma coisa.

Pela imagem, parecia que estávamos discutindo.

Ou prestes a nos beijar.

A legenda era simples:

"Novo casal da Santa Aurora? Capitão do futsal é visto em clima intenso com estudante da Comunicação."

Abaixo, já havia centenas de comentários.

Alguns rindo.

Outros fazendo perguntas.

Alguns marcando amigos.

E, em meio a tudo, uma enquete:

Vocês shippam?

Sim

Com certeza

Olhei para Caio.

Ele olhou para mim.

- Isso é ruim? - perguntei.

Ele soltou uma risada curta.

- Você trabalha com comunicação. O que você acha?

Eu deveria ter respondido imediatamente.

Deveria ter dito que era uma distração desnecessária. Que boatos complicavam crises. Que a universidade não precisava de mais uma narrativa fora de controle.

Mas, em vez disso, fiquei olhando para a foto.

A maneira como ele parecia estar me ouvindo.

A forma como eu parecia irritada.

O contraste entre o caos nas redes e o silêncio que tinha existido naquela arquibancada.

Então meu celular vibrou.

Uma mensagem de Maya apareceu na tela:

Maya:

LU. VOCÊ ESTÁ NAMORANDO O CAPITÃO DO FUTSAL?

Abaixo, uma sequência interminável de pontos de interrogação.

Fechei os olhos por um segundo.

Quando os abri, Caio ainda estava me olhando.

- Acho - falei, lentamente - que acabamos de ganhar um problema novo.

Ele sorriu de lado.

- Ou uma oportunidade.

E eu tive a sensação incômoda de que, naquele momento, o jogo tinha acabado de mudar.

Isso é tudo que está disponível no momento.

Continue lendo para acompanhar a história.

Continuar lendo

Lista de capítulos

16 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 Sete minutos de atraso
  2. Capítulo 2Capítulo 2 O capitão que ninguém conhece
  3. Capítulo 3Capítulo 3 Crise de imagem

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