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Capítulo 1 O homem que não sorri
Segunda-feira. 7h43 da manhã.
Elena Vasquez sabia três coisas com certeza absoluta sobre Alexander Mercer antes mesmo de pisar no elevador do quadragésimo andar da Mercer & Black Capital.
Primeiro: ele chegava às 7h30 em ponto. Não às 7h29. Não às 7h31. Às 7h30, como se o universo tivesse sido configurado especificamente para acomodar a pontualidade de um único homem em Manhattan.
Segundo: o café precisava estar na mesa às 7h32 - preto, sem açúcar, sem comentários, temperatura entre 70 e 75 graus. Elena sabia disso porque na primeira semana de trabalho ele havia devolvido a xícara sem dizer uma palavra, só colocado um pequeno termômetro de cozinha sobre a mesa ao lado dela, e ela havia entendido a mensagem com a clareza de quem aprende rápido ou aprende caro.
Terceiro: ele nunca sorria.
Não era mau humor. Não era tristeza. Era simplesmente a ausência completa de qualquer expressão que não fosse a de alguém calculando se o que está na sua frente é útil ou não. Elena havia passado os primeiros três meses tentando decifrar o que estava por baixo daquilo. No quarto mês, desistiu e começou a tratar o rosto dele como dado fixo, como o clima de novembro em Nova York - frio, previsível, completamente fora do seu controle.
Ela entrou pelo corredor de vidro com o café na mão direita, a agenda do dia na esquerda, e quarenta e dois dólares na conta bancária até a próxima sexta-feira. Esse último dado ela carregava não no caderninho mas na parte de trás da cabeça, onde guardava as coisas que não podia resolver ainda mas também não podia esquecer.
A porta do escritório estava entreaberta.
Ele estava de costas para ela, olhando Manhattan lá embaixo com a expressão de quem analisa um gráfico de desempenho abaixo do esperado. O terno era azul-marinho escuro. Os ombros, retos. O silêncio no escritório, do tipo que algumas pessoas constroem com esforço e ele simplesmente habitava como condição natural.
Elena entrou sem fazer barulho, colocou o café exatamente no lugar certo sobre a mesa - dois centímetros à direita do porta-canetas, ela havia medido uma vez só para ter certeza - e abriu o caderninho.
- Você está dois minutos atrasada - disse ele, sem se virar.
- O elevador parou no trigésimo segundo - respondeu ela, no mesmo tom. - Passageiro em cadeira de rodas com caixas. Não era contornável.
Silêncio.
Ele se virou.
Olhos escuros, mandíbula definida, gravata já perfeita às quase oito da manhã como se o amassado fosse uma possibilidade que ele havia removido do próprio vocabulário. Olhou para ela do jeito que sempre olhava - avaliando, processando, concluindo - e então desviou para a agenda na mão dela.
- Hargrove - disse ele.
- Remarcado para as nove. O contrato da Voss está na sua pasta, revisado com os três pontos que o senhor sinalizou na sexta. Almoço com Hendricks confirmado para o meio-dia. - Ela virou uma página. - Sua mãe ligou três vezes desde ontem à noite. Não deixou recado em nenhuma das chamadas.
Algo atravessou o rosto dele. Rápido demais para ter nome, mas Elena estava há dois anos treinada para ler as microexpressões de um homem que não dava nenhuma outra pista, então viu.
Era preocupação. Ou algo que, naquele rosto, passava por preocupação.
- Cancele o almoço de quinta - disse ele, virando-se de volta para a janela.
- Já cancelei na sexta, quando o senhor sinalizou o conflito de agenda.
Uma pausa brevíssima.
- Bom - disse ele.
Elena fechou o caderninho. Para os padrões de Alexander Mercer, *bom* dito naquele tom específico era o equivalente a um elogio formal com certificado emoldurado. Ela havia aprendido isso também.
Saiu do escritório, fechou a porta com cuidado e só respirou fundo quando estava do outro lado do vidro, de volta à mesa dela, com Manhattan espalhada lá fora e mais um dia começando igual a todos os outros.
Oito meses. Era o que faltava para terminar o segundo ano da faculdade de Direito. Oito meses, e depois o diploma, e depois ela nunca mais precisaria cronometrar a temperatura de café de ninguém.
O interfone tocou.
Ela atendeu.
- Elena. - A voz dele, seca e direta como sempre. - O café está com 71 graus.
Ela fechou os olhos. Respirou pelo nariz. Abriu os olhos.
- Providencio outro imediatamente, senhor Mercer.
Desligou.
Olhou para o teto por exatamente três segundos.
*Oito meses.*
Se levantou para buscar o café.
Lista de capítulos
91 capítulos no total
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